Mulheres ocupam apenas 5% dos cargos de CEO no Brasil
Apesar de terem ampliado presença na gestão das empresas, elas seguem ausentes no topo
Apesar de as mulheres brasileiras serem maioria nas universidades e terem ampliado presença em cargos de liderança no mercado de trabalho, elas continuam longe da principal cadeira das empresas. Segundo nova pesquisa “Women at the Top”, do Evermonte Institute, frente de pesquisa da consultoria de recrutamento de executivos, apenas 5,2% dos CEOs das companhias brasileiras são mulheres.
O dado acompanha a média global apontada pelo relatório “Women in the Boardroom”, que indica participação de 6% nas posições de presidência executiva. O percentual também demonstra que o maior obstáculo para a equidade de gênero permanece no topo da estrutura organizacional, pois contrasta com indicadores que apontam uma participação feminina crescente ao longo da carreira.
Segundo o relatório “Women in Business 2026”, da consultoria Grant Thornton, as mulheres ocupam 37,7% dos cargos de alta liderança no Brasil, percentual superior à média global, de 32,9%. O país aparece na 12ª posição entre os mercados analisados, o que demonstra avanços em diretorias, vice-presidências e outras funções executivas.
Quando a análise chega aos postos de comando máximo, porém, o cenário muda radicalmente. A baixa presença feminina entre CEOs acompanha outro indicador da governança corporativa brasileira. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), realizada com 390 empresas de capital aberto, mostra que apenas 16,1% dos cargos de administração, que incluem conselhos, diretorias e conselhos fiscais, são ocupados por mulheres. Entre os cargos de gestão, elas representam 30,9%, embora correspondam a 37,8% do quadro total de funcionários dessas companhias.
Os números revelam um fenômeno conhecido como “funil da liderança”: à medida que a carreira avança, a participação feminina diminui. A diferença fica ainda mais evidente quando comparada à formação profissional. Os últimos dados do IBGE mostram que 20,7% das mulheres têm nível superior completo, proporção que entre os homens da mesma faixa etária é de 15,8%. Contudo, essa vantagem educacional ainda não se traduz em presença equivalente nos espaços de decisão empresarial.
Jornada da liderança feminina no Brasil
A nova pesquisa do Evermonte Institute analisou 2.153 empresas no país, das quais 112 são lideradas por mulheres. A distribuição geográfica acompanha a concentração econômica do Brasil: São Paulo reúne 51,4% dos casos identificados, seguida por Rio de Janeiro (10,3%), Rio Grande do Sul (7,5%) e Minas Gerais e Paraná, ambos com 4,7%.
As executivas analisadas ocuparam, em média, 9,75 cargos ao longo da carreira e levaram 18,32 anos para alcançar a posição de CEO, tempo semelhante ao observado entre os homens (18,49 anos). A principal diferença, no entanto, está na mobilidade profissional. Segundo o estudo, enquanto elas passaram por 5,12 empresas, a média masculina é de 3,79 companhias.
A formação acadêmica das lideranças também foi um achado da pesquisa. As executivas acumulam, em média, 2,79 MBAs e pós-graduações, frente a 1,43 entre os homens. O dado indica investimento feminino maior em qualificação e desenvolvimento profissional.
As áreas de finanças (24,76%), negócios (21,9%) e operações (20%) das empresas concentram mais de dois terços das trajetórias analisadas.
Lacunas e desafios
O desafio, no entanto, não é exclusivo do Brasil. Globalmente, a presença feminina na alta liderança sofreu um pequeno recuo em 2026, segundo a Grant Thornton. Mantido o ritmo atual, a consultoria estima que a paridade de gênero em cargos de gestão só será alcançada em 2051.
Embora os indicadores da pesquisa do Evermonte Institute revelem profissionais brasileiras altamente qualificadas, o levantamento qualitativo aponta obstáculos como a menor visibilidade nos processos de sucessão, exigências mais rigorosas de validação profissional e a necessidade de mudar de empresa com maior frequência para conquistar oportunidades de crescimento.
Outro desafio recorrente, segundo o estudo, é o chamado ponto de inflexão da carreira. A transição entre cargos de gerência e diretoria costuma coincidir com pressões relacionadas à maternidade, à família e ao aumento das responsabilidades profissionais, o que leva muitas mulheres a desacelerar ou interromper suas trajetórias.
Especialistas em governança vêm defendendo que a ampliação da diversidade nos conselhos de administração e nos processos de sucessão corporativa é uma das principais estratégias para acelerar essa mudança. Em 2025, entrou em vigor a Lei 15.177, que determina que empresas estatais reservem ao menos 30% das cadeiras de seus conselhos para mulheres, movimento que pode influenciar práticas também no setor privado.
