CARREIRA

O que executivas brasileiras aprenderam na China

Visão de longo prazo, cultura de testes e agilidade estão entre as lições trazidas por executivas da 99, Alibaba e Volkswagen

i 1 de julho de 2026 - 17h44

Desde 2023, a economia chinesa cresce cerca de 5% ao ano, pautada na forte exportação, mesmo com as sanções dos Estado Unidos contra o país, segundo dados do governo chinês. Além disso, existe um forte investimento governamental em inteligência artificial e outras tecnologias de ponta que colocam a China na vanguarda tecnológica. Parceiro comercial do Brasil há pelo menos 50 anos, o país é o destino de 31% das exportações brasileiras e 23% das importações.

De 2003 a 2023, a corrente do comércio bilateral entre o Brasil e a China passou de US$ 6,6 bilhões para US$ 157,5 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Apesar da relação ter iniciado em 1974, ela se intensificou nos últimos 20 anos, com a busca da China em diminuir a pobreza, o que demandou forte importação de alimentos. Atualmente, os produtos mais exportados pelo Brasil à China são a soja, minério de ferro, óleos de petróleo, carne bovina, pastas químicas de madeira, além de açúcar de cana, cortes de aves, algodão e minério de cobre.

O Grupo Alibaba, detentor da plataforma de compras online AliExpress, da China, chegou ao Brasil em 2014 com o interesse de aproximar as PMES brasileiras ao comércio eletrônico internacional. Briza Bueno é diretora-geral da empresa no país para o Alibaba Group desde 2021 e viaja à China pelo menos duas vezes ao ano.

Entre diferenças e aprendizados

A longa relação comercial entre Brasil e China já rendeu muitos frutos econômicos, mas não há como negar as diferenças culturais dos dois países. Distinções que aparecem no cotidiano do trabalho que acrescentam desafios e aprendizados.

Para Briza, os chineses têm forte visão de longo prazo e que direciona os esforços de execução de maneira estratégica. “Quando olhamos para algumas empresas brasileiras, percebemos que as atividades do dia a dia nem sempre estão necessariamente focadas nesse olhar”, compara. Com um horizonte em mente, os chineses são altamente focados em resultados.

“Há um nível de dedicação e foco bastante elevado, que certamente contribui para o ritmo de crescimento que o mercado chinês vem apresentando. Trata-se de um mercado extremamente dinâmico, com forte presença tecnológica, alta velocidade de execução e metas muito bem definidas. Essa combinação cria um ambiente altamente competitivo e orientado a resultados”, reflete Livia Kinoshita, diretora de marketing da Volkswagen Brasil e América do Sul.

Livia Kinoshita, diretora de marketing da Volkswagen Brasil e América do Sul (Crédito: Divulgação)

Livia Kinoshita, diretora de marketing da Volkswagen Brasil e América do Sul (Crédito: Divulgação)

Além disso, existe uma cultura voltada à inovação e à experimentação que explica a posição da China no mercado de tecnologia. “Uma característica muito forte dos chineses é a cultura de testar, aprender e escalar. Eles têm a mentalidade de que a gente aprende fazendo e no contexto real da implementação do produto”, complementa Ana Verroni, diretora de marketing da 99, empresa que foi comprada em 2018 pela DiDi Chuxing, grupo chinês com foco em mobilidade urbana.

Foco, aceleração e resultados

Com tal cultura voltada à inovação, as mudanças ocorrem em ritmo acelerado. A cada nova viagem à China, Briza Bueno se depara com alguma mudança, seja na forma de pagamento, na presença de robôs no dia a dia ou ainda no uso de reconhecimento facial no check-in do hotel. Existe um investimento forte em tecnologia de ponta e um mercado mais avançado em alguns segmentos, como no e-commerce, conforme relatam nossas entrevistadas.

Outro ponto de destaque por Ana Verroni é o foco em dados e metrificação. “Quando a gente começa um projeto dentro dessa cultura, já define o que quer aprender, qual é o foco do projeto e como vai medir se ele deu certo. E, se não der certo, já se discute o que provavelmente será ajustado, quais caminhos podem ser seguidos, em que momento o time vai parar para avaliar os resultados e quando essas discussões vão acontecer, seja ao atingir determinados indicadores ou após um período específico”, conta.

Diversidade

De forma geral, a China se assemelha ao Brasil pelas dimensões continentais e diversidade cultural. “Ela vai muito além das grandes metrópoles e da imagem associada à tecnologia e à velocidade. É um país com grande diversidade cultural e belezas naturais, que vem se consolidando também como um destino turístico relevante”, pontua Livia Kinoshita.

Além da diversidade, existem outros pontos em comum. “Eles são extremamente empáticos, têm um espírito de cooperação muito forte e, quando você está no país, fazem questão de tratar bem as pessoas e de serem muito cordiais”, relata Ana.

Troca de aprendizados

Para Briza Bueno, as empresas brasileiras poderiam aprender com os chineses sobre o foco na visão de longo prazo e como ela determina toda a estratégia do negócio. Outro aprendizado que os brasileiros poderiam adotar é o foco na metrificação, segundo Ana Verroni. Da mesma forma, Livia destaca a agilidade na tomada de decisão e a mentalidade pró-testes, que fomentam a inovação.

“O mercado chinês se destaca pela velocidade com que identifica oportunidades e transforma planos em ação, sempre com forte foco em escala e eficiência. Além disso, há um olhar muito pragmático para inovação, com ciclos rápidos de teste e adaptação, algo que pode inspirar empresas brasileiras a serem cada vez mais dinâmicas e orientadas a resultados”, pontua Kinoshita.

Do outro lado, as executivas refletem sobre o que os chineses poderiam aprender conosco e destacam nossa capacidade de equilibrar a vida pessoal com o trabalho.

“Há duas gerações, muitas avós e avôs viveram situações de extrema escassez. Essa experiência não tão distante faz com que o chinês corra muito atrás das oportunidades. Agora, numa sociedade mais desenvolvida, onde isso já não acontece mais, ele passou a dar muito valor ao trabalho e quer conquistar isso cada vez mais”, conta Briza. Apesar disso, na percepção da executiva, essa relação com o trabalho pode não ser saudável. Por isso, ela pontua que os chineses poderiam aprender conosco a como equilibrar a vida profissional e pessoal.

Briza Bueno, diretora-geral do AliExpress no Brasil (Crédito: Arthur Nobre)

Briza Bueno, diretora-geral do AliExpress no Brasil (Crédito: Arthur Nobre)

Outras qualidades que as executivas destacam é nossa capacidade de entender o consumidor para além das métricas, usando mais nossa intuição e sensibilidade para contextualizar comportamentos e entender movimentos culturais.

“O que vejo de diferente no brasileiro é esse entendimento do contexto da brasilidade, da cultura local, da forma como a gente se relaciona com as marcas. Na cultura chinesa, a performance costuma ser o principal fator na escolha de uma marca. No Brasil também é importante, mas a gente sabe que o lado emocional e sentimental pesa muito para o consumidor brasileiro”, reflete Ana.

Por fim, Briza Bueno destaca nossa criatividade e adaptabilidade como fortalezas que os chineses também apreciam. “O brasileiro é muito criativo e se adapta com muita facilidade às situações. Conseguimos nos adaptar rapidamente à cultura, entender o outro e pensar em soluções em conjunto”, pontua.

O olhar chinês

“Eles se inspiram em várias coisas do Brasil. O futebol brasileiro, por exemplo, é uma paixão para muitos deles. Algumas músicas também despertam muito interesse. Acho que, cada vez mais, eles estão dando espaço para essas paixões, que talvez não fossem tão presentes em uma realidade historicamente muito voltada para performance e dados”, reflete Verroni.

Apesar das barreiras de fuso horário e linguística, a relação entre os dois países é antiga e já houve uma grande troca de aprendizados. A percepção das lideranças é que os chineses são abertos a essa troca de experiências. “Eles querem entender de verdade quem é o brasileiro e querem ouvir isso deles próprios. Tanto o brasileiro quanto o chinês são muito abertos para aprender, adaptar os dois mundos e fazer as coisas acontecerem”, pontua Bueno.

Mesmo com as diferenças culturais, existe um entusiasmo dos chineses pelo jeito brasileiro, pela nossa criatividade, além do apelo emocional e da sensibilidade. “Eles enxergam vivacidade e alegria na forma como as marcas se expressam, como a gente constrói a comunicação e consegue capturar esse lado emocional. Eles reconhecem a sensibilidade que o brasileiro tem e a paixão com que a gente faz as coisas”, conta Ana.

Da China para o Brasil

No caso da AliExpress, o desafio foi trazer uma empresa consolidada na China para o contexto brasileiro. Já na 99, que foi comprada pela DiDi, o desafio estava nesse processo de transição e adaptação de uma gestão brasileira para uma chinesa. O primeiro passo em ambas as situações perpassou pelo aprendizado.

“Existe uma parte educacional muito importante. Claro que existe a parte cultural, de entender quem é o povo, mas também existe um lado muito prático, do dia a dia mesmo. De entender como funciona esse mercado, onde estão as pessoas, quais são as dificuldades que a gente enfrenta aqui, tanto do lado dos sellers quanto dos compradores, e como isso muda de acordo com cada categoria”, destaca Briza.

A troca de aprendizados também vêm do outro lado. A China já desenvolveu muitas soluções, mas que precisam ser adaptadas ao nosso contexto. “Nem sempre tudo o que eles fazem lá eu consigo metrificar e traduzir exatamente para a nossa realidade. O paralelo entre os dois contextos não é igual. Então, existe sempre o desafio de mostrar as nuances locais e explicar por que nem tudo pode ser feito exatamente da mesma forma”, ressalta Ana Verroni.

“Ao mesmo tempo, também é importante ouvir o outro lado e entender quais soluções a China desenvolveu. Ela também é um país continental e enfrenta muitas dificuldades parecidas”, contrapõe Briza.

A CMO da 99 traz o exemplo de como eles adaptaram o algoritmo para a realidade brasileira. Se, na China, o principal desafio de mobilidade é o trânsito, no Brasil enfrentamos outras questões como buracos e problemas de infraestrutura.

Outro exemplo é a criação da categoria de moto, que faz sentido para o contexto brasileiro, mas não se aplica ao chinês. O conceito de super apps também é uma ideia chinesa que está sendo trazida ao Brasil. São aplicativos que reúnem diferentes funcionalidades e servem como um ecossistema de soluções para resolver diversos problemas dos usuários.

Ana Verroni, CMO da 99 (Crédito: Divulgação)

Ana Verroni, CMO da 99 (Crédito: Divulgação)

“Essa tecnologia de ponta permitiu, por exemplo, que a 99 Food conseguisse entregar os pedidos em uma média de 29 minutos. Isso acontece porque existe um algoritmo muito eficiente a partir da experiência que a empresa acumulou ao longo dos anos na área de mobilidade. Esse conhecimento permite entender o mapa, identificar a pessoa mais próxima, encontrar o restaurante ideal, otimizar o tempo de deslocamento e calcular quanto tempo cada pessoa vai levar para buscar e entregar o pedido. Toda essa expertise tecnológica é muito forte e vem do grupo chinês da Didi”, destaca a CMO.

Com a cultura de testes, a união da expertise tecnológica chinesa e do entendimento do contexto cultural do brasileiro se torna uma grande fortaleza para essas empresas. “Primeiro, existe essa parte educacional. Depois, vem a capacidade de identificar oportunidades. E, por fim, entender quais inovações já existem e como a gente consegue combinar essas soluções para criar algo novo em conjunto”, conclui a executiva do AliExpress.