ESPORTE

Executivas na Copa: quem ganha o jogo da atenção?

Com mais mulheres em cargos de liderança e na torcida, mundial de 2026 marca novos jeitos de pensar campanhas

i 8 de junho de 2026 - 9h00

Por Ingrid Matuoka

Faltam poucos minutos para o juiz apitar o começo da partida. Na sala tomada por telas, é possível acompanhar tudo: transmissões ao vivo, mapas de calor das redes sociais, painel de menções em tempo real, atualizações da campanha minuto a minuto, cortes e interações. Como técnicas atentas às movimentações em campo, executivas sinalizam, orientam e vibram junto com o time, ajustam e aprovam novos movimentos conforme o  placar muda e os torcedores opinam.

Quando a Copa do Mundo começa, não é só o futebol que entra no jogo, é a atenção de milhões de pessoas. E a decisão sobre como ocupar espaços e aproveitar oportunidades cabe, cada vez mais, às mulheres. De acordo com o Elite InfoMoney 2025, entre as 50 lideranças de marketing mais reconhecidas do Brasil, 26 são femininas.

“As executivas conseguem trazer para as campanhas uma visão mais holística sobre o esporte e conectar cultura, estilo de vida, experiências, bastidores, comunidades, e outros assuntos além do futebol”, observa Eliane Andreu, diretora de marketing da Lenovo, parceira oficial de tecnologia da Copa do Mundo da Fifa 2026, no Brasil.

(Crédito: Divulgação)

Eliane Andreu, diretora de marketing da Lenovo, parceira oficial de tecnologia da Copa do Mundo da Fifa 2026 (Crédito: Divulgação)

“Quanto mais diverso o time, mais poderosa a percepção de como trabalhar a marca pela variedade de pontos de vista”, afirma Carla Mita, vice-presidente de marketing da Visa, patrocinadora oficial da Copa do Mundo Fifa.

Para que a diversidade entre em campo, Raquel Ribeiro, diretora sênior de marketing da Coca-Cola Brasil, alerta que não adiantam estratégias pontuais. “A diversidade deve fazer parte da cultura das empresas, lideranças e decisões estratégicas”.

Além dos cargos executivos e nos campos de futebol, as mulheres também ocupam cada vez mais espaço como torcedoras. Em 2026, 71% se declaram fãs da Copa do Mundo, alta de 22% em relação a 2014, segundo estudo Women and Sports, do Ibope Repucom. “As marcas têm que acompanhar essa transformação na criação de conteúdos e nas narrativas produzidas”, aponta Carla.

Experiência coletiva e emocional

Quando o assunto é Copa, o primeiro impacto é a escala. Em 2026, o torneio acontece em três países-sede – México, Canadá e Estados Unidos -, reunindo 48 seleções para disputar 104 jogos. A audiência estimada é de 1 bilhão de espectadores.

“Em um cenário de múltiplas telas e excesso de estímulos, a Copa ainda reúne pessoas em torno de uma experiência coletiva, emocional e poderosa”, analisa Raquel Ribeiro.

“Serão mais relevantes as marcas que conseguem ler o pulso da cultura e se conectar de forma autêntica com as pessoas, participando das conversas, criando experiências memoráveis e de orgulho, pertencimento e senso de união do brasileiro”, observa Raquel.

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Raquel Ribeiro, diretora sênior de marketing da Coca-Cola, parceira global da Copa desde os anos 1950, para o Brasil (Crédito: Divulgação)

No caso da Coca-Cola, a parceria com a Copa acontece desde a década de 1950. Para 2026, a multinacional preparou estratégias como latas de refrigerante premiadas, de edição limitada, que “gritam” gol ao serem abertas. Criada pela agência FanClub, a ideia é transformar o produto em parte da experiência da torcida e disparar conversas nas redes sociais.

“Quando uma campanha é compartilhada organicamente, vira assunto e gera identificação real, existe um sinal de que ela conseguiu ultrapassar a barreira da publicidade e ocupar o espaço da cultura”, define Raquel.

Este ano, a marca também fechou uma parceria com a CazéTV, novo peso-pesado na disputa pela audiência do futebol. “Esta será a Copa da maior conversa em tempo real da história, colocando o digital, o social e os streamings no centro da experiência. A CazéTV se torna uma parceira importante justamente por traduzir o campeonato para a linguagem e a dinâmica das novas gerações e para acompanhar a jornada do fã antes, durante e depois dos jogos”, diz Raquel.

A dimensão do evento também demanda das marcas multinacionais atenção às características regionais. “Cada país tem sua forma de viver, cultura e jeito de falar de futebol”, lembra Carla Mita. Mesmo dentro de um único país, como o Brasil, o respeito às particularidades favorece a conexão. “A linguagem que uso nas campanhas é muito diferente. São sotaques, gírias e jeitos de torcer diversos”, explica a VP de marketing.

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Carla Mita, vice-presidente de marketing da Visa, patrocinadora oficial da Copa (Crédito: Divulgação)

Em 2026, a principal campanha da marca para a Copa, com o mote “Vai de Visa sem perrengue”, prioriza redes sociais, memes e a geração Z. A ideia é acompanhar o torcedor ao longo de toda a jornada, desde a compra do ingresso até a passagem de volta do estádio MetLife, em Nova Jersey, onde acontecerá a final em 19 de julho, para casa.

A parceria com influenciadores digitais também é destaque, e foi montada levando em conta a paridade de gênero. “A Copa é sobre estarmos todos juntos. Ela é mais do que patrocínio, é uma forma da marca se conectar com as pessoas no momento da paixão”, afirma Carla.

Os bastidores de uma campanha na Copa do Mundo

Quando a bola rola, a partida também é disputada no campo publicitário. “São times de branding, creative, social medias, PR, agências e veículos trabalhando conectados, acompanhando tudo ao vivo e ajustando de forma coordenada e rápida tom, linguagem e conteúdo, para não perder o timing”, descreve Raquel.

A emoção em tempo real, porém, é um fator que planejamento algum controla. “É saber aproveitar justamente isso que torna o momento poderoso para as marcas”, complementa.

Para jogar junto com o que acontece em campo e com os torcedores, acompanhar dados em tempo real é indispensável. “Antigamente, soltava a campanha e sabia do resultado meses depois. Agora é simultaneamente, o que nos dá a possibilidade de fazer mudanças rápidas e aproveitar oportunidades de engajamento”, observa Eliane.

No caso da Visa, a aposta é concentrar a comunicação nas redes sociais. “Queremos estar onde a conversa acontece, memes são gerados e a torcida brasileira está curtindo, postando e interagindo com os atletas e os amigos”, explica Carla.

Para a executiva, isso tornou seu trabalho mais complexo. “Estar presente na hora da conversa, com um olhar atento e próximo ao que está acontecendo, é muito mais intenso e depende de mais equipe. Mas só assim conseguimos entrar na conversa de forma fluida. E agora não é mais só durante o jogo, porque tem o antes e depois”, avalia.

A marca também vai levar duas influenciadoras para cobrir os jogos presencialmente. “Dali, elas terão outro olhar, mais espontâneo, e que se conecta com toda a base de seus seguidores de um jeito orgânico”, diz Carla.

O legado de 2026

Para as executivas, a Copa funciona como laboratório para testar novas formas de liderar campanhas. “Muito mais do que o campo em si, é trazer a conversa para um centro mais emocional. O jogo não é só uma partida e a conexão não é mais pela marca somente. É sobre tudo o que há em volta disso”, sintetiza Carla.

Para a parceira oficial de tecnologia da Fifa, essa será a primeira Copa do Mundo impulsionada por inteligência artificial. No Brasil, a Lenovo desenvolveu dispositivos que monitoram o desempenho dos atletas e sinalizam alterações. A empresa também contribuiu com a tecnologia do VAR, para munir juízes de informações mais rápidas e precisas. “Queremos deixar um legado para o esporte de outro patamar de tecnologia”, afirma Eliane.

Com a Copa do Mundo Feminina de 2027 já no horizonte, as marcas poderão colocar em prática as aprendizagens e avançar. “A Copa Feminina já cresceu muito, mas ainda está aquém em investimento, visibilidade e alcance. Por aqui, vamos ter o objetivo de trazer mais protagonismo para ela”, projeta Eliane.

Para Raquel, a oportunidade é de investir em representatividade e construção de narrativas mais diversas. “As marcas e os veículos têm um papel fundamental ao dar visibilidade em escala para o esporte e criar um espaço consistente para o futebol feminino, ampliando o interesse e a conversa”, afirma.