Women to Watch

Empresas ainda ignoram impacto da menstruação no trabalho

Estudo mostra que apenas 8% das profissionais que menstruam trabalham em companhias com políticas de suporte

i 18 de maio de 2026 - 9h50

Um estudo inédito da Essity, conduzido pela Dalia com colaboração da Great Place to Work, revela que os desconfortos relacionados ao ciclo menstrual afetam diretamente a saúde, o bem-estar e a produtividade de mulheres e pessoas que menstruam no mercado de trabalho, além de gerar impactos econômicos para empresas que ainda não estão conscientes da situação.

A pesquisa, intitulada “Menstruação e produtividade no trabalho”, ouviu 1.688 mulheres e pessoas que menstruam entre maio e setembro de 2025, além de 80 empresas brasileiras de diferentes portes e setores. O dado mais contundente aparece logo no início: 9 em cada 10 entrevistadas relatam sintomas que afetam sua performance profissional, incluindo cólicas, dores de cabeça, cansaço e alterações de humor.

Segundo a análise, embora a experiência menstrual faça parte da vida de milhões de pessoas economicamente ativas, ela ainda permanece fora das políticas corporativas e, muitas vezes, fora das conversas das empresas.

Impacto da menstruação no trabalho

De acordo com o levantamento, 59,2% das mulheres já precisaram deixar de trabalhar devido aos desconfortos menstruais. Em muitos casos, isso significa reorganizar agendas, adiar reuniões, evitar viagens ou compensar tarefas fora do expediente. Entre as entrevistadas, 69% afirmam ter realizado atividades profissionais fora da jornada convencional para recuperar demandas acumuladas durante períodos de maior desconforto.

A questão ganha outra dimensão quando associada à saúde. Quase metade das entrevistadas (47,73%) afirma já ter recebido diagnóstico de condições relacionadas à menstruação, como endometriose (11%), síndrome dos ovários policísticos (20%) e cistos ovarianos (14%).

Em geral, as consequências do tabu em torno da situação são muitas para profissionais e empresas. Uma em cada quatro mulheres ou pessoas menstruantes relata já ter enfrentado impactos profissionais ligados à menstruação, incluindo constrangimento, discriminação, descontos salariais e até demissão. Ao mesmo tempo, apenas 8% das entrevistadas afirmam trabalhar em empresas com algum tipo de política voltada ao bem-estar menstrual.

O que profissionais que menstruam esperam das empresas

Na prática, o que as pessoas entrevistadas pedem não envolve grandes transformações estruturais. As demandas passam por medidas relativamente simples: flexibilidade de jornada nos dias de menstruação (78%), adequação da carga de trabalho ao ciclo menstrual (53%), acesso a produtos menstruais, como analgésicos e absorventes (53%), concessão de licenças menstruais (49%) e promoção de palestras e iniciativas de conscientização sobre o tema (45%).

Em empresas sem políticas de suporte, 32,1% das mulheres afirmam adiar reuniões ou negociações devido a sintomas menstruais. Nas empresas com algum tipo de iniciativa, esse percentual cai para 26%. O mesmo acontece em relação a viagens de trabalho e interação com clientes.

Tabu menstrual nas empresas

Os dados do estudo também revelam o peso do tabu menstrual dentro das companhias. Entre mulheres e pessoas menstruantes que trabalham em companhias sem políticas relacionadas ao bem-estar menstrual, 128% apontam o medo de repercussões negativas no trabalho como principal motivo para não informar ausências relacionadas à menstruação.

Já 63% afirmam ter receio de que a falta não seja aceita pela empresa, enquanto 62% dizem não saber sequer qual procedimento deveriam seguir nesses casos.

Nas empresas com algum tipo de política menstrual, os índices são significativamente menores. O medo de repercussão negativa cai para 26%, enquanto apenas 8% relatam receio de não terem a ausência aceita. 14% afirmam não saber qual procedimento seguir.

Os dados indicam que, além de suporte prático, políticas corporativas relacionadas à saúde menstrual também contribuem para reduzir o constrangimento e ampliar a segurança das colaboradoras em relação ao tema.