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Como liderar em tempos de IA, burnout e multigerações?

CEO do GTPW Brasil, Tatiane Tiemi fala sobre liderança e avalia que executivos brasileiros delegam cultura ao RH

i 21 de maio de 2026 - 15h38

Tatiane Tiemi, CEO do Great Place to Work Brasil (Crédito: Divulgação)

Tatiane Tiemi, CEO do Great Place to Work Brasil (Crédito: Divulgação)

Aos poucos, o crachá de “boa empresa para trabalhar” deixou de ser associado a pufes coloridos, happy hours e escritórios instagramáveis. Depois do modismo e da pandemia, a temporada é de burnout silencioso, ansiedade coletiva, diferentes modelos de trabalho e uma relação cada vez mais ambígua com a inteligência artificial.

Nesse contexto, a confiança virou ativo estratégico e, segundo Tatiane Tiemié, CEO do Great Place to Work Brasil, ela nunca foi tão determinante para o sucesso de um negócio. “A cultura é viva e acontece quando ninguém está olhando”, avalia.

Desde 2022 à frente da consultoria no Brasil, onde está há mais de 20 anos, a executiva acompanha de perto as transformações do mercado de trabalho e acredita que liderar ficou mais complexo e humano. Tatiane observa que, em um mesmo time, convivem até cinco gerações e profissionais que já não enxergam crescimento da mesma forma que seus líderes. “O líder de hoje precisa ter coragem para tomar decisões no escuro”, diz.

Em conversa com Women to Watch, Tatiane fala sobre saúde mental, diversidade, inteligência emocional e os impactos ainda imprevisíveis da IA no futuro do trabalho. Ela também faz um alerta: enquanto CEOs globais vêm assumindo para si o debate sobre cultura organizacional, no Brasil o tema ainda costuma ficar restrito ao RH. “Os executivos lá fora não estão terceirizando pontos organizacionais sensíveis”, avalia.

Meio & Mensagem — No mundo corporativo, muito se fala sobre saúde mental, burnout silencioso e quiet quitting. Ao mesmo tempo, as empresas e os empregadores são as instituições mais confiáveis para os brasileiros. Como identificar uma cultura corporativa em que o discurso corresponde à realidade? 

Tatiane Tiemi — Uma das tendências que pude observar no Summit global do Great Place do Work deste ano, em Las Vegas, é que a confiança nunca foi tão importante nas relações de trabalho. Hoje, é um diferencial competitivo. A tecnologia e a IA estão para todo mundo. As empresas, em geral, têm acesso parecido aos recursos, e o que vai diferenciar o sucesso é a relação de confiança que uma companhia consegue estabelecer com as pessoas. E, para isso, não basta uma comunicação bonita e um quadro na parede com uma missão engajadora. A cultura é viva e acontece quando ninguém está olhando. É o que as pessoas sentem todos os dias. Então, a confiança não vai derivar de uma estratégia de marca, de employer branding. Ela é resultante do que acontece nas relações entre as pessoas, principalmente entre a liderança e os times. Então, o líder, nesse contexto, tem um papel fundamental de ser exemplo e de conseguir, a partir da credibilidade, cumprir o que promete e agir de acordo com o que fala, respeitando as pessoas, dando oportunidade para que elas se desenvolvam e reconhecendo o bom trabalho.  

M&M — O que faz uma empresa boa para trabalhar em 2026? 

Tatiane — São muitas coisas, não dá para cuidar só de um aspecto. O primeiro ponto é a relação de confiança. Quando dizemos que uma empresa é “great place to work”, significa que ela consegue estabelecer uma relação de confiança. E o que diferencia, hoje, uma empresa, está na liderança. Liderar, agora, é mais complexo do que há cinco anos. O líder precisa conseguir fazer a gestão de um time que compõe até cinco gerações. Se já era difícil o encontro de duas gerações no mercado de trabalho, agora, esse número aumentou, e o líder precisa saber lidar com isso.

Além dessa diversidade geracional, existe a diversidade do modelo. Há parte da equipe que trabalha no híbrido, outra no remoto e um grupo no presencial. Como o líder comunica? Como engaja? Como faz a adaptação das práticas dele no dia a dia para conseguir atender esse contexto? Tem também as questões de tecnologia e inovação. A liderança precisa fomentar esse mindset para toda a inovação que está vindo, mas deve encontrar um ponto de equilíbrio. Não podemos robotizar as pessoas, no entanto, ao mesmo tempo, todo mundo tem que saber usar IA. Fazendo um paralelo com a maternidade, é um desafio que tenho passado com meu filho de 11 anos: não posso deixá-lo fora desse mundo, está aí, ele precisa entendê-lo, mas até que ponto ele pode usar IA para fazer as lições da escola e estudar? Qual é o limite aceitável? O mesmo vale para lideranças. O mundo está muito mais complexo para exercer a gestão de pessoas.  

Também vêm aí novas gerações que não querem mais crescer como as nossas. Esse é um desafio quando se trata de engajamento, de como lidar com o time e atingir resultados. Mas é possível trabalhar tudo isso. As empresas precisam investir, cada vez mais, no desenvolvimento desses líderes, para que estejam conectados ao que está aparecendo nesse novo ambiente e consigam lidar com esses elementos no dia a dia. Começam a aparecer pontos que não fizeram parte da vida de muitas lideranças até então e que, agora, na cadeira de gestores, vão precisar conhecer e manejar para fazer todo mundo atingir o objetivo da área e da empresa. 

M&M — Quais as principais competências das lideranças para chegar lá?  

Tatiane — Para nosso último relatório de tendências, quando perguntamos para as empresas quais eram as prioridades a serem trabalhadas em 2026, a resposta foi desenvolvimento da liderança. Então isso está vivo, está todo mundo correndo atrás desse preparo. O mais importante envolve soft skills, sobretudo resiliência e coragem para tomar decisões num ambiente em que não sabemos o dia de amanhã. Nunca tivemos tanta imprevisibilidade no contexto interno, do Brasil, e no contexto externo, mundial. São muitas variáveis impactando nosso dia a dia, e a gente precisa de muita coragem para tomar decisões, às vezes no escuro. 

A inteligência emocional também é muito importante. Um ponto sensível que torna a liderança mais desafiadora hoje é a saúde mental. Isso apareceu com muita força, principalmente no momento pós-pandemia. Em nossas pesquisas, os líderes passaram a citar que as pessoas se diziam deprimidas, mencionavam que precisavam de ajuda, que tinham necessidade de se afastar. E, sim, existe o papel do líder nesse contexto. Obviamente, não como médico ou especialista, mas ele pode lidar, eventualmente, com algum profissional doente, e pode ajudá-lo no sentido de buscar suporte, de evitar uma tragédia. Às vezes, a pessoa não está falando com ninguém, apenas com o líder. E se essa liderança tiver capacidade e preparo, ao menos de conseguir dar uma orientação, um encaminhamento e um alerta, ela pode até salvar vidas. Então, o papel do líder realmente está muito desafiador. E, para ele conseguir cuidar da saúde mental dos colaboradores, ele precisa ter essa inteligência emocional, além de conhecimento e autocuidado. Ele precisa estar bem para conseguir fazer o bem. 

M&M — Você acha que as empresas no Brasil poderiam olhar mais para algum aspecto do trabalho que não tem sido priorizado? Qual?

Tatiane — Olha, como voltei recentemente de uma conferência global, posso dizer que vejo os CEOs das grandes organizações com muita familiaridade em relação a todos esses desafios, mas noto que o Brasil ainda fica muito na mão do profissional de RH. Os executivos lá fora falam de forma empoderada sobre esses temas, e isso me chamou muita atenção. Dá para ver que eles estão se apropriando das pautas, lendo resultados de pesquisa. Aqui no Brasil, um ou outro executivo se destaca e faz isso, mas ainda não é comum. Tem um cliente nosso que, quando recebe a nossa pesquisa, pede para encadernar como um livro, porque os comentários que os funcionários escreveram viram a leitura dele durante semanas. Os CEOs de fora não estão terceirizando pontos organizacionais sensíveis. Eles trazem para eles. Acho que no Brasil ainda temos muito espaço para evoluir nesse sentido. 

M&M — O que te preocupa sobre o futuro do trabalho? E o que te dá esperanças? 

Tatiane — Tenho uma tendência de ver as coisas de forma mais positiva, então acho que temos evoluído. Não na velocidade necessária, mas pelo menos temos melhorado em temáticas importantes. Recentemente, fui em uma premiação do agronegócio, por exemplo, um mercado ainda masculino, principalmente quando olhamos para posições de liderança. Lá, vi um crescimento das mulheres em cargos de CEO no segmento. Então, saí do evento reflexiva. Ainda há muito a ser feito, mas é uma notícia positiva.

Além disso, quando olho para as novas gerações, que serão os profissionais de amanhã, vejo muita evolução em empatia e na maneira como enxergam a diversidade. Para a gente, ainda é uma pauta. Para eles, não será mais. Eles não entendem por que temos de discutir isso. Então, acho que estamos construindo uma sociedade melhor para o futuro, e as empresas têm um papel importante nesse processo. 

O que me preocupa é que vivemos uma grande transformação com a IA. É parecido com o momento da chegada da energia elétrica no mundo. A grande verdade é que não conseguimos entender ainda até onde vai essa transformação. Ela não é palpável aos nossos olhos de hoje. Mas vejo coisas boas, e acho que vamos conseguir usar de forma positiva tudo isso que tem por vir. Mas há um receio da imprevisibilidade, de não conseguirmos entender até onde ela vai. Mas, com certeza, vai transformar demais o mundo em que vivemos hoje. 

M&M — Você acha que houve um recuo das empresas em torno da agenda da diversidade? 

Tatiane — Infelizmente, acho que a gente vinha numa crescente, era uma pauta que estava ocupando mais espaço. Mas vejo que as empresas que trabalhavam de forma séria e consistente continuam com a agenda. Aquelas que pararam de fazer eram porque “tinham que fazer”, porque precisavam falar para o mercado que faziam. E eram trabalhos que não tinham muita consistência mesmo. O que me deixa mais confortável é que as companhias que estavam fazendo algo muito sólido continuam. Essas não precisam do modismo e dos estímulos de fora para fazer algo nesse sentido.