Comunicação

Eduardo Fischer volta à cena como marqueteiro de Flavio Bolsonaro

Ex-sócio de Roberto Justus e criador do slogan “Número 1”: publicitário é convocado para ajudar na tentativa de sanar a crise pela qual passa a campanha do senador e pré-candidato à Presidência

i 21 de maio de 2026 - 8h42

Fischer falando no ProXXIma, em 2016: 40 anos com o sobrenome na porta de uma grande agência de publicidade

Fischer falando no ProXXIma, em 2016: 40 anos com o sobrenome na porta de uma grande agência de publicidade (Crédito: Eduardo Lopes)

O senador e pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) recorreu a um nome bastante conhecido do mercado publicitário para cuidar da comunicação de sua campanha. Com cerca de 40 anos com seu sobrenome na porta de uma das maiores agências do País, mas afastado do mercado nos últimos tempos, Eduardo Fischer volta à cena, convocado como marketeiro de Flávio, poucos dias após deflagrada a crise gerada pela divulgação de áudios enviados pelo senador ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Na função, Fischer substitui o publicitário Marcello Lopes, dono da Cálix Propaganda, que ganhou o noticiário recentemente por suposto envolvimento no plano para impulsionar ataques nas redes sociais contra dirigentes do Banco Central em defesa do Banco Master – o que Lopes nega ter feito.

Na campanha de Flávio, Lopes contava com o auxílio de nomes conhecidos do mercado, como Walter Longo e Toninho Neto. O consultor Walter Longo foi presidente do Grupo Abril e ficou conhecido do público ao participar do programa O Aprendiz, da Record, apresentado por Roberto Justus. Já Toninho Neto fez carreira como criativo e foi vice-presidente de criação da Fischer.

“Número 1”

Aos 69 anos, Eduardo Fischer tem perfil diferente de Lopes, com a maior parte de sua carreira dedicada ao mercado publicitário, como empresário e criativo, sem muito envolvimento com o marketing político. A participação mais conhecida é a sua atuação na campanha à Presidência de Álvaro Dias (MDB-PR), em 2018.

Durante o tempo em que comandou a agência que tinha como marca o seu sobrenome, Fischer criou campanhas para grandes marcas, como “Baby Telesp celular” e “Experimenta Nova Schin”.

Entrentanto, a mais reconhecida é a “Número 1”, desenvolvida a partir de 1991 pela Fischer & Justus para a Brahma. Um dos cases mais emblemáticos do que o mercado passou a chamar de comunicação integrada, o projeto envolveu desde mudança de rótulo até filmes memoráveis, como o protagonizado por João Gilberto, dirigido por Walter Salles Jr.

A campanha foi criada por Eduardo Fischer e Claudio Carillo (este também autor do jingle, junto com Sérgio Augusto Sarapo) e se notabilizou pelo gesto do indicador levantado – repetido em campo pelos jogadores da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1994, quando a marca repercutiu mais que os patrocinadores oficiais.

Metamorfose ambulante

Outra curiosidade sobre a agência de Eduardo Fischer são as mais de oito mudanças de nome durante sua história. A empresa nasceu em 1981 como Fischer & Justus Comunicações, em sociedade com Roberto Justus.

Em 1985, a Young & Rubicam comprou o controle acionário da Fischer & Justus, resultando na Fischer, Justus, Young & Rubicam – a multinacional teria pago US$ 2,5 milhões a Eduardo Fischer e Roberto Justus, sendo que, pelo acordo, os dois ficaram com 30% das ações da agência.

A sociedade com a rede multinacional durou pouco: quatro anos. Em 1989, a agência voltou a ser Fischer, Justus Comunicações – mantendo a vírgula entre os dois sobrenomes ao invés do “&” original. Em 1996, nova mudança para Fischer Justus Comunicação Total.

Com a saída de Roberto Justus, em 1998, a agência de Eduardo Fischer adotou a marca Fischer América e passou a contar com Antonio Fadiga como sócio. A boa fase nos negócios levou Fischer à conquista, em 2002, do prêmio Caboré de Dirigente da Indústria de Comunicação. Em 2008, após fusão com a Fala, de Allan Barros, adquirida no ano anterior, virou Fischer+Fala. Atualmente, tanto Fadiga como Barros estão no Grupo Dreamers.

Em 2011, a empresa virou Fischer&Friends, mas, dois anos depois descartou o sobrenome Friends e passou a ser simplesmente Fischer.

Em 2013, os negócios do empresário entraram em crise em decorrência de múltiplos fatores que incluíam o seu afastamento do dia a dia para se dedicar a outros negócios, como o festival de música SWU – Starts With You; as consequências de uma negociação de venda não concretizada para a Dentsu; a perda de clientes importantes, como a Caixa; e a saída dos principais executivos da agência Fischer. Naquela época, o fundo de private equity Trindade Investimentos fez um aporte financeiro no grupo comandado por Eduardo Fischer em troca de uma participação acionária de 25%.

“Eu fiz besteiras”

Em entrevista concedida ao Meio & Mensagem em 2016, ele falou sobre as dificuldades que enfrentou: “Eu tinha uma Disney World, mas quando voltei o que havia era um Playcenter alagado. Nós chegamos a ser um grupo de 200 clientes, sete países, três continentes, 14 empresas e 700 pessoas. Quando eu voltei não tinha 10% disso. Eu fiz besteiras. Não deveria ter me ausentado da empresa tanto tempo”.

Em 2017, Fischer fechou um acordo com a Trindade Investimentos e retomou o controle total das empresas que comandava, mas os negócios não voltaram a ter o mesmo vigor de antes e a agência acabou descontinuada anos depois.

No passado, Eduardo Fischer já havia tido sócios investidores com participação relevante na sua holding, como o ex-dono do Banco Multiplic Antônio José Carneiro (entre 2001 e 2008) e Antonio Camanho (de 1998 a 2006). Os dois chegaram a acumular 45% do negócio.