Marketing

Aos 30 anos, Parada LGBT+ perde 60% de receita de patrocínio

Associação aponta redução do interesse das marcas na pauta da diversidade; Amstel, Amstel Vibes e Philip Morris estão confirmadas na edição de 2026

i 21 de maio de 2026 - 6h03

Parada LGBT+ de São Paulo chega aos 30 anos com redução no número de patrocinadores (Créditos: Iara Faga/Shutterstock)

Parada LGBT+ de São Paulo chega aos 30 anos com redução no número de patrocinadores (Créditos: Iara Faga/Shutterstock)

Perto de completar 30 anos de existência, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo enfrenta redução no volume de patrocínios privados e deve realizar, agora em 2026, uma edição com estrutura menor do que a registrada nos últimos anos.

Em 2022 o evento contou com 13 marcas patrocinadoras; em 2023 e 2024, a Parada teve 19 patrocinadores confirmados. Para este ano, apenas três marcas foram anunciadas até o momento. A Parada acontece no dia 7 de junho, na Avenida Paulista, e terá como tema “30 Anos de Parada SP — A rua convoca, a urna confirma”.

“Direitos humanos não podem ser tratados como tendência de mercado”

Organizado pela APOLGBT-SP (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo), o evento calcula uma queda de cerca de 60% nas receitas obtidas com marcas em comparação com edições anteriores.

Segundo Nelson Matias Pereira, presidente da APOLGBT-SP, a retração do investimento privado ocorre em um momento de reorganização das estratégias corporativas ligadas à diversidade e inclusão, especialmente entre multinacionais.

“Acho que isso ocorreu devido ao contexto internacional mais conservador. Quando o Trump (presidente dos Estados Unidos) se elege em 2024, ele acaba influenciando diretamente o comportamento das grandes empresas”, afirma.

Segundo ele, a relação das marcas com a pauta LGBT+ mudou nos últimos anos. Empresas que antes mantinham áreas e verbas específicas voltadas à diversidade passaram a tratar o tema com maior cautela institucional, transformando a pauta em uma questão de risco reputacional e político.

Ele diz, ainda, que a associação sempre defendeu que os investimentos na Parada fossem tratados como verba de marketing e não como verba “Pride” ou apenas como ações sazonais de diversidade.

“Você vê essas marcas em outros eventos, muitas vezes até menores que a Parada, com verbas astronômicas”, critica.

Patrocinadores

A organização afirma que, até o momento, a Amstel segue como patrocinadora oficial pelo oitavo ano consecutivo, enquanto Amstel Vibes e Philip Morris Brasil foram confirmadas como apoiadoras.

Para Jaqueline Codogno, gerente de marketing da Amstel no Brasil, manter a marca reforça o compromisso da companhia com pautas ligadas à diversidade, representatividade e acolhimento.

Segundo a executiva, a parceria vai além do patrocínio e envolve iniciativas voltadas à visibilidade da comunidade LGBT+, como ações de retificação de nome e casamentos homoafetivos realizados durante o evento.

“Para a Amstel, essa parceria reforça os valores de uma marca progressista que acredita que visibilidade, acolhimento e representatividade não são pautas passageiras, e sim compromissos permanentes”, afirma.

A reportagem apurou ainda que a La Roche-Posay, com Cicaplast, estará presente na edição deste ano.

Já a Sephora, que participou do evento no ano passado, não esstará presente em 2026. A L’Oréal, que esteve na Parada em 2025, também foi procurada e disse manter interesse em participar do evento através da marca Cicaplast.

Segundo Pereira, a redução dos aportes impacta diretamente a estrutura do evento. Em 2025, a Parada contou com 19 trios elétricos e, de acordo com levantamento da Associação Comercial de São Paulo, movimentou cerca de R$ 548,5 milhões na economia paulistana.

Neste ano, a expectativa é de que entre 13 e 14 veículos participem do desfile. “Hoje, um trio completo sai por cerca de R$ 100 mil”, afirma Pereira. Segundo ele, o valor inclui aluguel do veículo, equipe de segurança, bombeiros, cordeiros e outros custos operacionais ligados à realização do evento.

Cobertura na DiaTV

A DiaTV será novamente responsável pela principal cobertura da Parada deste ano. A cota de patrocínio da transmissão contará com a presença da L’Oréal, por meio da marca Cicaplast, em blocos especiais ao longo da programação.

Os apresentadores comandarão a transmissão e também estarão distribuídos pela Avenida Paulista como repórteres, entrevistando o público e artistas presentes no evento.

Já na semana que antecede o evento, a emissora exibirá uma programação especial dedicada ao tema.

Recursos públicos

Segundo Pereira, o tema escolhido para a edição de 2026 também reforça o caráter político da manifestação, ainda que a associação se defina como suprapartidária.

“A gente nunca vai abrir mão de temas que considera importantes”, afirma. “Quando falamos ‘a rua convoca, a urna confirma’, estamos falando de participação democrática.”

A Prefeitura de São Paulo deve investir cerca de R$ 6 milhões em infraestrutura para o evento. Segundo Pereira, os recursos municipais são destinados principalmente a itens operacionais, como gradis, banheiros, postos médicos e estrutura de segurança.

Segundo Pereira, a associação também buscou apoio por meio de emendas parlamentares para custear a Parada e outros projetos da entidade, como a Feira Cultural da Diversidade, a Corrida do Orgulho, pesquisas e iniciativas culturais.

De acordo com ele, a organização procurou 23 deputados estaduais de São Paulo, mas recebeu retorno de apenas quatro parlamentares, com aportes considerados baixos. Foram eles: Thainara Faria (PT-SP), Guilherme Cortez (PSOL-SP), Mônica Seixas (PSOL-SP) e Beth Sahão (PT-SP).

No âmbito federal, a entidade recebeu cerca de R$ 1,5 milhão em emendas parlamentares das deputadas federais Juliana Cardoso, Tabata Amaral, Erika Hilton e Sâmia Bomfim, além da senadora Mara Gabrilli.

Apesar da redução de recursos, Pereira afirma que a associação pretende manter a realização do evento nos próximos anos.

“Ela vai diminuir? Vai. Mas não é sobre quantidade”, diz. “Se não tiver recurso, a gente pega o carro de som e vai para a rua. Foi assim que nasceu a Parada”, finaliza.