Liderança feminina não é pauta de diversidade, mas negócio
A trajetória das mulheres não é linear e tem momentos de dúvida, cansaço e decisões difíceis, mas existe algo poderoso no caminho

(Crédito: Unsplash)
Todo mês de março acontece algo previsível: as redes sociais se enchem de homenagens às mulheres, com mensagens inspiradoras, campanhas bonitas e eventos corporativos. Eu acho importante, claro, mas depois de mais de duas décadas liderando equipes e negócios em empresas como Procter & Gamble, Avon e agora à frente das marcas Avène, Darrow e Ducray, na Pierre Fabre, confesso que tenho me perguntado cada vez mais: o que muda, de fato, quando mulheres ocupam posições de decisão?
Honestamente, muda muito e principalmente a qualidade das decisões.
Diversidade não é algo que simplesmente acontece dentro das organizações. Ela precisa ser construída com intenção e fazer parte da estratégia. Quando cheguei à Pierre Fabre Brasil, uma das primeiras reflexões que fizemos foi sobre como construir um time de liderança que refletisse de verdade o mercado em que atuamos. No nosso caso, essa pergunta é quase inevitável, porque a categoria de dermocosméticos é profundamente feminina. A grande maioria das dermatologistas, nossas parceiras de negócio e consumidores são mulheres. Então, surge uma pergunta: como é possível tomar decisões relevantes para o nosso público sem que ele esteja representado dentro da empresa?
A resposta é simples. Você não toma. Ou toma de forma incompleta.
É por isso que gosto de dizer que diversidade de gênero na liderança não é apenas uma pauta de cultura organizacional. É uma decisão de negócio e estudos mostram isso com bastante clareza. Um levantamento global da Grant Thornton International indica que empresas com maior presença feminina em cargos executivos tendem a apresentar melhores índices de inovação, governança e desempenho organizacional. Ainda assim, no mundo todo, menos de um terço das posições de liderança sênior são ocupadas por mulheres.
Por isso, diversidade de gênero não é pauta de RH. É decisão de negócio. E precisa ser tratada com a mesma seriedade e intencionalidade com que se trata qualquer outra decisão estratégica da empresa. Hoje, 50% do nosso Comitê Executivo é feminino. E isso não é um dado de comunicação, é o resultado de uma escolha feita com intenção, repetida, revisada e sustentada ao longo do tempo.
Mas ainda existe uma parte dessa conversa que raramente aparece nos painéis ou nos posts de LinkedIn. A vida real.
Eu sou mãe solo de uma adolescente de 15 anos e, nos últimos meses, tenho vivido uma rotina intensa de ponte aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro. Não é simples, exige organização, apoio e, principalmente, clareza sobre o que você está priorizando em cada fase da vida.
Lembro de uma frase que uma mentora me disse no início da minha carreira e que nunca esqueci: “Dá para ter tudo, mas não ao mesmo tempo.”
Temos fases em que a vida pessoal está em pleno equilíbrio e a carreira segue em um ritmo mais estável. Em outras, o crescimento profissional acelera e a vida pessoal pede mais flexibilidade e compreensão. O problema não está nessas oscilações, e sim quando romantizamos a ideia de que é possível fazer tudo perfeitamente ao mesmo tempo, sem nenhum custo.
Para as mulheres que estão começando a carreira, acho importante falar sobre isso com honestidade. A trajetória não é linear e terá momentos de dúvida, de cansaço e de decisões difíceis. Por outro lado, existe algo poderoso nesse caminho: a clareza sobre o que você quer e coragem para ser intencional nas escolhas que faz.
Esses são, na minha experiência, os ativos mais valiosos de qualquer líder, mulher ou homem.
Só que para as mulheres, essa intenção precisa ser ainda maior porque o ambiente ainda não foi construído para nós da mesma forma. E é por isso que não basta celebrar o mês da mulher, é preciso agir nos outros 11 meses do ano.