Opinião WW

O mundo ainda está distante do que prometeu às mulheres

Por que a presença de lideranças femininas do Brasil na programação do Marché du Film tem grande significado

Tamiris Hilário 

Consultora para indústria audiovisual na ONU Mulheres Brasil e produtora executiva do Instituto +Mulheres 15 de maio de 2026 - 16h10

(Crédito: Divulgação)

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Trinta anos após a histórica Conferência de Pequim, o mundo ainda está distante de cumprir aquilo que prometeu às mulheres. Os dados mais recentes da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe mostram que apenas 23% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável devem ser alcançadas até 2030 na América Latina e no Caribe.

No caso específico do ODS 5, que versa sobre igualdade de gênero, o cenário é ainda mais alarmante: das cinco metas monitoradas regionalmente, apenas uma está no ritmo adequado para ser cumprida. A chamada Plataforma de Ação de Pequim, adotada por 189 países em 1995 e considerada o mais ambicioso marco político global em defesa dos direitos das mulheres, completa três décadas sob o reconhecimento das próprias Nações Unidas de que os avanços permanecem “lentos e frágeis”.

Apesar disso, ao menos no Sul Global, persistimos nos compromissos multilaterais, declarações institucionais e campanhas em favor da igualdade. A diversidade é intrínseca às nossas identidades e não há como ser diferente. No Norte, porém, a tendência vai na contramão. Hollywood que o diga.

Nesse contexto, nos últimos anos, a França se impôs como farol para os colegas poderosos, uma vez que há anos conduz articulações entre instituições públicas, privadas e profissionais do audiovisual em torno da paridade de gênero, estabelecendo compromissos concretos para maior transparência, equidade no financiamento e monitoramento contínuo da participação feminina no setor audiovisual. Trata-se de uma iniciativa que não apenas reconhece desigualdades históricas, mas propõe mecanismos objetivos para enfrentá-las, passo que é importante na direção de políticas públicas mais éticas, consistentes e mensuráveis.

Ou se impunha.

Sinais recentes convidam à reflexão. A presença de apenas cinco diretoras na seleção oficial do Festival de Cannes não deve ser lida como uma decisão isolada, mas como um indicador que reforça a necessidade de vigilância contínua e de aprofundamento dos esforços em curso. Em um dos principais palcos do cinema mundial, onde tendências se consolidam e horizontes se projetam, a diversidade de olhares é essencial para a vitalidade artística e para a sustentabilidade do próprio setor.

Seguimos discutindo acesso básico a direitos e espaços de decisão.

No audiovisual, este tipo de contradição mencionada torna-se particularmente simbólica. Trata-se da indústria responsável por imaginar o futuro, construir imaginários coletivos e moldar narrativas culturais globais, mas que continua reproduzindo estruturas historicamente excludentes. 

Dados recorrentes da Unesco e de outros organismos internacionais e locais apontam a baixa presença de mulheres em posições de liderança, direção, financiamento, distribuição e tomada de decisão no setor audiovisual. Mulheres seguem sub-representadas justamente nos espaços onde se definem investimentos, regulações, tecnologias emergentes e modelos de negócio. A presença em mercados, como Cannes, encontra barreiras para garantir pluralidade – os valores, o idioma, os acessos, as janelas de oportunidade.

E talvez esteja aí uma das questões mais delicadas do nosso tempo: enquanto os homens ocupam os ambientes de mercado debatendo uma infinidade de assuntos, como inteligência artificial e tecnologias, financiamento, geopolítica da cultura, plataformas e inovação, nós, mulheres, no entanto, seguimos frequentemente convocadas a falar, ainda, sobre nossa própria existência e sobrevivência dentro da indústria.

É cansativo. Sobretudo quando vemos dados como brasileiras, até pouco tempo, liderando bilheterias comerciais, mesmo realizando menos filmes que seus pares masculinos.

Falamos de gênero porque ainda somos obrigadas a justificar nossa presença continuamente. E isso não pode ser mais aceitável ou razoável para ninguém.

Gostaria de ver colegas apaixonadas por cinema de gênero debatendo sobre terror, fantasia e sci-fi; ou soluções em VR que nos ajudam a mergulhar no universo dos povos imaginários; ou as estratégias para gerir talentos, produzir filmes, criar universos, entrecruzar linguagens.

Essa constatação, por óbvio, não diminui a importância dos debates de equidade; ao contrário. Ela evidencia o quanto movimentos de resistência foram e continuam sendo indispensáveis para impedir retrocessos e criar fissuras em estruturas historicamente fechadas. Ainda estamos aqui. E vamos sorrir. Sorriam, mulheres!

Coletivos e organizações como o Instituto +Mulheres, o 50/50 Collectif, o Yes She Cannes e tantas outras iniciativas internacionais cumprem hoje um papel que não pode ficar pelo caminho, pois produzem articulação política, incidência institucional, formação de lideranças e redes concretas de acesso ao mercado.

Sem esses movimentos, muitas mulheres sequer chegariam às mesas onde as decisões acontecem.

Por isso, os painéis realizados nos dias 17 e 18 de maio, que reúnem lideranças femininas do Brasil e da França para debater sobre inteligência artificial e coprodução internacional, respectivamente, na programação oficial do Marché du Film, têm grande significado. Representam a insistência coletiva de mulheres que se recusam a permanecer apenas como objeto de políticas de diversidade e reivindicam algo mais profundo: a participação efetiva na formulação do futuro do audiovisual global.

Também queremos poder imaginar o futuro.

Costumo dizer que trabalhamos na área mais legal do mundo. O que desejamos é apenas que ela seja digna para todos.