Opinião WW

O que os adolescentes têm para nos ensinar?

E como nós, da indústria da comunicação, podemos formar a aldeia que jovens precisam para acreditar no futuro?

Rita Almeida

Head do Lab Humanidades, da AlmapBBDO 5 de maio de 2026 - 9h55

(Crédito: Shutterstock)

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Recentemente, o Lab Humanidades lançou um estudo de comportamento dedicado a entender o que sente o adolescente no século 21 que nós, adultos, não estamos conseguindo entender. Como sociedade, sentimos o desequilíbrio dessa geração, na medida em que crescem os índices de ansiedade e depressão, o cenário de bullying se agrava e estamos vendo atitudes extremas de violência entre nossos adolescentes.

Esse contexto tem sido bastante discutido por especialistas. E o que esse estudo, que demos o nome de “AdoRlescência”, faz é ouvir especialmente os adolescentes. Em primeira pessoa.

O espírito do tempo carrega duas questões que impactam profundamente a vivência adolescente no nosso século: em primeiro lugar, o digital, especialmente a inteligência artificial, que traz uma camada de incerteza muito alta para o hoje e o futuro. E, segundo, vivemos a sociedade da performance onde, para o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, a cobrança por fazer e realizar é tão forte que passa a ser uma exigência interna e pessoal, antes de ser externa. No caso do adolescente, ele vive ambas: uma enorme expectativa interna que se soma às cobranças externas.

Para falar como encontramos o adolescente brasileiro, escolhi aqui a perspectiva feminina, dialogando com as pautas discutidas aqui no Women to Watch. Então vou começar falando da importância das mães e educadoras na vida dos adolescentes.

Sabemos que o Brasil tem mais de 11 milhões de mães solo ou aproximadamente 15% das mães brasileiras. Essas são o grande exemplo de seus filhos. Mesmo as mães que educam com seus companheiros têm um papel e um peso essencial na evolução dos adolescentes. Elas trazem algo que vale mais do que tudo: exemplo. Exemplo de resiliência, dedicação, afeto e persistência.

Aproveito para falar que, para o filósofo espanhol Jordi Nomen, o exemplo vale infinitamente mais do que o discurso. Porque os ouvidos dos adolescentes se fecham para o discurso enquanto seus olhos e corações estão abertos aos exemplos próximos. Esse recorte é muito interessante quando consideramos uma das maiores contradições desse estudo: os pais são os responsáveis pelas regras de uso do digital e de redes sociais em casa, mas são também os que mais usam as redes em um claro movimento de “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Ainda na casa dos adolescentes, encontramos muito amor e gratidão dos filhos ao esforço dos pais para que eles chegassem até aqui. Eles nos contaram planejar retribuir todo esse esforço em cuidados, descanso e passeios futuros. Porém, esse amor não vem acompanhado de escuta verdadeira: 68% dos nossos adolescentes nos disseram que seus sentimentos e emoções não são levados a sério pelos adultos. Não se sentem validados e essa é uma grande barreira para seu equilíbrio e autoestima. E temos que concordar com eles: quando perguntamos aos adultos sobre a capacidade dos adolescentes criarem um mundo melhor no futuro, apenas 21% concordaram com essa ideia.

Esse número revela que a sociedade adulta não acredita realmente em seus adolescentes, e isso impacta a sua escuta. Ouvimos os adolescentes com nossos mitos culturais sobre a adolescência como, a crença de que são egocêntricos, despreocupados e exagerados no sofrimento. Assim, não abrimos nossa escuta sincera e sem julgamento. Essa maior abertura da população adulta para escutá-los poderia ajudar muito a saúde mental deles.

A verdade é que nossos adolescentes estão experimentando índices altos de ansiedade, depressão e falta de autoestima: 58% declaram já terem tido crise de pânico ou ansiedade, enquanto 70% já sentiram que precisavam ser diferentes para serem aceitos.

Sobre a questão de gênero, onde vemos a centralidade das manifestações misóginas crescentes, o que identificamos é que a educação de meninas continua sendo diferente da educação dos meninos: isso é verdade para 74% dos adolescentes (82% das meninas). Eles, educados na ideologia de maior liberdade para experimentar mais cedo, e as meninas mais resguardadas das experiências de vida externas à casa e à família.

A Michelle Borborema escreveu sobre esse assunto na matéria ‘Meninas e meninos são criados de forma desigual no Brasil’, vale a leitura e a reflexão.

Nesse momento em que o mundo e a adolescência acontecem dentro de tamanha complexidade, nós, do Lab Humanidades, esperamos poder contribuir um tanto com essa discussão no Brasil: como nós, adultos, nós, agentes da indústria da comunicação, e as próprias marcas podemos nos unir e formar a aldeia que esses adolescentes precisam para se fortalecerem e acreditarem na construção de um futuro? Este estudo é imenso e aqui eu trouxe apenas parte dele. Acredito que teremos oportunidade de discutir esse tema sob muitas perspectivas. E estarei aqui para isso. Vamos juntas?

Você pode encontrar mais sobre o estudo “AdoRlescência” no link.