Como achar o denominador comum no trabalho?
Conciliar visões contraditórias no ambiente profissional pode ser tão difícil quanto manter a paz nos grupos de WhatsApp da família
Manter amizades e a paz nos grupos de família é apenas um dos muitos desafios que um mundo cada vez mais polarizado nos impõe. No dia a dia do trabalho, lidar com o pensamento plural também é um atributo básico para quem quer crescer ou liderar. Em relação às questões pessoais, a divisão deve ou deveria ser clara: o time pelo qual a pessoa torce, a igreja onde ela vai à missa ou o número que ela marca na hora de votar não podem interferir no ambiente profissional.
Mas a verdade é que, mesmo quando essa regra prevalece, o pensamento diferente se manifesta o tempo todo também no trabalho. E isso é ótimo. A diversidade de perspectivas e opiniões nos desafia, rompe bolhas de pensamento (as tais echo chambers) e costuma nos levar mais longe. Na prática, porém, não é tão simples assim.
A falta de “match profissional” torna difícil achar zonas de possível acordo ou denominadores em comum com o outro e isso pode virar um empecilho incontornável para a troca de ideias fluida e produtiva. De repente, a implicância e o receio de falar com quem diverge da gente começam a imperar e, quando percebemos, já estamos fazendo de tudo para evitar o contato com aquela pessoa. “Preguiça”, a gente diz com muito mais frequência do que deveria.
Só que trabalho é diferente de grupo da família, que você pode silenciar e voltar a interagir só quando o assunto é o BBB ou a nova trend do TikTok. Também é diferente de amizade, que escolhemos a partir das nossas afinidades e sobre as quais podemos controlar melhor o nível de interação. Na maioria das vezes, não escolhemos os colegas com os quais temos de trabalhar. Nem quando temos de trabalhar. E saber desenvolver essa convivência com o outro é muito mais do que uma questão de elegância corporativa. É de fato uma competência.
A psicologia social indica que as mulheres tendem a desenvolver mais habilidades como escuta e acolhimento das emoções alheias, o que pode ajudar a conciliar opiniões divergentes em torno de um objetivo comum. E, ainda que essa lógica seja mais difícil de ser mantida em ambientes competitivos como o do mercado corporativo, acredito que é possível implementar técnicas para ampliar a escuta e equalizar dissonâncias em nome de um ambiente de trabalho saudável e do melhor resultado final.
A primeira delas, e mais importante, é simples: praticar a empatia, fugir dos pré-julgamentos, se desarmar por inteiro. Buscar entender o lugar de onde a outra pessoa vem é fundamental para evitar rinhas e conseguir tirar dela insights que contribuam com o projeto em desenvolvimento.
Outro ponto importante é estabelecer regras de relacionamento, os tais “combinados”. Para começar, o óbvio: deixe claro que declarações ofensivas não serão aceitas. A partir daí, crie um ambiente de exploração intelectual seguro, mas garanta que cada um cumprirá a sua parte. Quem endereça qual assunto em qual momento? De quem é a responsabilidade de entrega? Qual o deadline? Deixe tudo registrado. Não é à toa que repetimos à exaustão o ditado popular “o combinado não sai caro”.
Tome cuidado, porém, para não se anular nesse processo de busca pela melhor convivência corporativa. Ter coragem de discordar é também um atributo, inclusive para evitar frustrações pessoais. Pense em como seria difícil estar na situação oposta, ouvindo críticas, e articule os seus argumentos deixando claro que as ponderações não têm a ver com a pessoa, mas com a consistência da ideia ou do projeto. Embase a discussão com dados que mostrem que o foco é o resultado e não quem está certo ou errado.
Por fim, tenha a humildade de mudar de opinião se preciso for, mas não mude apenas para aliviar a tensão. Conversas difíceis fazem parte de um ambiente onde a livre opinião circula e é isso que eleva a barra do bom trabalho criativo. Lembre-se de que a melhor forma de contrapor uma ideia da qual você discorda é com fatos, exemplos e contexto. Porque “contra fatos, não há argumentos”. E ponto.