Opinião WW

Quando histórias viram carreiras e vídeos, negócios

Por que o mercado precisa ver as criadoras de conteúdo como CEOs

Patrícia Muratori

Diretora do YouTube para a América Latina 17 de abril de 2026 - 8h26

(Crédito: Shutterstock)

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Eu cresci, na vida pessoal e profissional, cercada de grandes mulheres. Grandes em sua essência — mulheres que considero muito mais que inspiração (até porque inspirar virou quase commodity); elas são pura realização. Muitas delas foram, e continuam sendo, referências no motor claro de alcançar o que quisessem.

Há sete anos, quando me juntei ao YouTube, vi essa missão se transformar em algo concreto por meio de histórias que viraram carreiras e, muito mais que vídeos, tornaram-se negócios. Seja na educação, na ciência, na tecnologia, no entretenimento ou na diversidade, no papo sério ou no humor. É motivo de muito orgulho não apenas estar cercada por elas, mas ver mulheres, em suas mais diferentes interseções, como o motor de uma nova economia: a criativa.

Existe uma engrenagem invisível operando no ecossistema digital que está reescrevendo as regras do jogo econômico. No mundo corporativo tradicional, ainda há quem tente rotular o conteúdo digital como “amador” ou apenas “UGC” (User Generated Content), mas a realidade é que estamos vivendo a maior transição de poder da história do entretenimento e do varejo. O que antes dependia de grandes estúdios, hoje temos diversos exemplos na autonomia de mulheres que são, simultaneamente, CEOs, estrategistas de dados e motores de transformação social.

Essa maturidade não é apenas perceptível; ela é mensurável. Em 2024, o ecossistema criativo do YouTube contribuiu com mais de R$ 4,94 bilhões para o PIB brasileiro, segundo a Oxford Economics. Mas, para além das cifras, o que sustenta esse crescimento é o capital intelectual de criadoras que transformaram vulnerabilidades, transições de vida e nichos em ecossistemas de alta escala.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa construção de autoridade é o de Beta Boechat. Vinda de uma bela carreira em grandes agências de publicidade, Beta traz a experiência de quem conheceu as entranhas do sistema corporativo por dentro. No entanto, sua trajetória é marcada por um desafio profundo: a realização de sua transição de gênero enquanto ocupava cargos de liderança.

Em seus relatos, Beta reflete sobre como, por muito tempo, sentiu que não se encaixava no estereótipo do que é ser mulher. Ela é o exemplo perfeito dessas múltiplas facetas: humorista, publicitária, escritora e ativista, reconhecida por fundar o Movimento Corpo Livre e por sua atuação estratégica em consultorias de diversidade e inclusão. Beta vende a construção de ambientes onde a autenticidade é necessária, permitindo que marcas inovem sem o paralisante medo do erro diante das pautas de diversidade.

Essa busca por democratizar o acesso ao conhecimento também define a jornada de Flávia Paixão. Natural de Itabaiana, Sergipe, ela não esperou por uma cadeira em uma consultoria de luxo para entender de negócios. Quando não tinha recursos para pagar cursos caros, ela transformou o YouTube em sua “faculdade gratuita”, aprendendo ali as bases que a tornariam palestrante internacional e referência para o Sebrae.

Hoje, Flávia inverteu o jogo: ela é a mentora que usa sua plataforma para humanizar o marketing para o microempreendedorismo. Ao quebrar a barreira do eixo Rio-SP, ela demonstra que a economia criativa é um dos grandes motores de mobilidade social do país, convertendo dados complexos em estratégias acessíveis para quem realmente movimenta a base da nossa economia. Me enche de orgulho toda vez que tenho a honra de ver a Flávia nos palcos e na multiplicação de seus vídeos.

No campo do varejo, a trajetória de Mari Maria simboliza a evolução da influência para a consolidação de uma marca nativa digital e de escala massiva no setor de maquiagem. O que começou como uma jornada pessoal para lidar com as inseguranças da infância em relação às suas sardas, amadureceu para uma estratégia de negócios onde a audiência não é apenas consumidora, mas uma comunidade de alta fidelidade.

Mari entendeu que a economia criativa permite inverter a lógica tradicional do varejo: em vez de buscar o cliente, ela construiu um ecossistema onde o lançamento de um novo batom ou base é o evento final de um diálogo contínuo de anos. Ao dominar desde o desenvolvimento de produtos até a entrega, ela transformou sua marca em um caso de sucesso, provando que o criador moderno é um arquiteto de marca que reduz drasticamente o custo de aquisição de clientes por meio da confiança e da sua autoridade técnica e criativa.

Essa transição do “amador” para o “executivo” também ecoa na história de Carina Fragozo. Doutora em Linguística, ela teve que vencer a própria vergonha e o ceticismo acadêmico para levar o ensino de idiomas para a web. No início de sua jornada como “EduTuber”, o desafio era lidar com a autocrítica e o medo do julgamento de seus pares. No entanto, ao defender que o sotaque é parte da identidade e não um erro, ela se conectou com milhões de brasileiros que se sentiam excluídos pelo ensino tradicional. O que começou com gravações em seu quarto hoje é uma edtech robusta com plataforma própria, provando que o YouTube funciona como o maior funil de conversão do mundo para quem detém expertise real.

O que essas mulheres (e milhares de outras empreendedoras criativas) têm em comum é a capacidade de transformar a criatividade em ativos financeiros e sociais tangíveis. Elas transcendem o player de vídeo: desenvolvem spin-offs, fundam marcas, geram empregos e impactam o PIB.

Elas não pediram permissão para entrar no mercado; elas construíram o seu próprio. Elas são a prova de que, na nova economia, quando o talento encontra a infraestrutura correta, não há nicho pequeno demais que não possa se tornar um ecossistema econômico relevante. No final do dia, o que elas estão construindo não são apenas canais de vídeo, mas pilares robustos de uma nova economia.