OPINIÃO: REJANE BICCA

Como falar de temas difíceis com nosso olhar afiado

Quando marcas viabilizam histórias corajosas, elas deixam de ser apenas anunciantes e se tornam parte da conversa cultural

Rejane Bicca

Diretora geral da O2 2 de junho de 2026 - 8h54

(Crédito: Shutterstock)

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Desde o meu primeiro texto aqui no Women to Watch, comento sobre o papel da mulher no audiovisual e celebro os avanços que temos observado. Eles existem. Porém, sabemos que ainda há muito a ser feito e esse esforço é coletivo, uma tarefa diária e constante.

Todo o mercado busca inovação e narrativas inclusivas, encarando o desafio de ser relevante e autoral sem cair em clichês. Sabemos que a presença de talentos femininos garante ao produto final camadas de compreensão que só o lugar de fala proporciona. Essa é a nossa luta: inspirar o setor de comunicação a entender que a equidade resulta em produtos culturalmente potentes e comercialmente diferenciados.

Um exemplo que posso citar é o programa Visionárias, idealizado pela Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro), em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos e a FilmBrazil, com o objetivo de oferecer mentoria personalizada a um grupo de 54 mulheres de alta liderança feminina no mercado audiovisual. De forma pioneira e inédita, o Visionárias promove encontros que fomentam o desenvolvimento profissional e pessoal.

Iniciativas como essa são fundamentais para não apenas abrir espaço, mas também para garantir que o audiovisual invista de forma consistente em mulheres e em narrativas que refletem demandas reais da sociedade.

Outro destaque é a série “Afiadas”, uma obra de humor da O2, centrada no olhar feminino e conduzida por mulheres em postos-chave. Vamos falar de temas difíceis e sensíveis da pauta feminina. Ambientada em um salão de beleza em Brasília, a série usa o humor como ferramenta educativa, abrindo conversas complexas sobre empreendedorismo, economia do cuidado, sexualidade e misoginia, sem transformá-las em entretenimento superficial. Ter a TV Brasil como parceira é uma oportunidade de democratizar esse acesso de forma gratuita e plural.

Para que iniciativas como esta ganhem escala, precisamos que marcas, agências e produtoras rompam com o lugar comum. Faço um convite para que a gente possa aprovar projetos que dialoguem com as questões necessárias. Avalio esse posicionamento como uma necessidade estratégica. Precisamos evitar o “cor-de-rosa” institucional e apresentar nossas verdades. Quando marcas viabilizam histórias corajosas, apostando nessas narrativas, elas deixam de ser apenas anunciantes para se tornarem parte da conversa cultural.

O convite aqui é para que os tomadores de decisão olhem para o “difícil” como uma oportunidade de conexão real. Precisamos de mais briefings que abram espaço para o nosso universo feminino. Viabilizar essas temáticas é garantir que o conteúdo final seja um motor do que podemos ser, apontando o caminho do futuro com conforto e coragem.

E antes de encerrar, trago para o debate o Free the Bid, criado há dez anos atrás. Gosto de citar esse exemplo que, de tempos em tempos, precisamos dar a visibilidade adequada. O movimento chamava a atenção das agências para que se comprometessem, ao contratar empresas de produção, a apresentar às marcas pelo menos uma diretora do sexo feminino, entre uma lista de três profissionais indicados.

Rapidamente o Free the Bid ganhou volume e se expandiu para o Brasil, México, Reino Unido, África do Sul e Austrália, reunindo mais de 40 agências e 10 marcas que tinham se comprometido com a causa. Embora tenha sido inspirador, infelizmente, o Free the Bid é uma iniciativa que não existe mais.

Espero que este artigo seja um chamado para que possamos ocupar os nossos espaços.

Transformar é fazer. Agora. Bora lá?