Criação

O que as fichas técnicas dizem sobre a autoria das campanhas

Dados, influência, produção e tecnologia ganharam espaço à medida que criatividade se tornou multidisciplinar

i 21 de junho de 2026 - 12h53

Fichas técnicas - Campanha - VLM

“Thanks for Coke Creating”, foi criada pela VML de Nova York, Kansas e São Paulo, para Coca-Cola (Crédito: Reprodução)

Quando os primeiros Leões começarem a ser entregues no Festival de Criatividade de Cannes, na próxima semana, os troféus serão associados a campanhas, agências e marcas. Porém, basta abrir as fichas técnicas de muitos dos trabalhos que vêm disputando os principais prêmios da indústria para perceber que as ideias deixaram de ser atribuídas a poucos nomes e passaram a reunir dezenas, às vezes centenas, de profissionais de diferentes disciplinas.

Um exemplo foi a premiada “Thanks for Coke Creating”, criada pela união de esforços entre os escritórios da VML de Nova York, Kansas e São Paulo, para Coca-Cola, que conquistou, em há dois anos, 3 Ouros, 4 Pratas e 1 Bronze no próprio Cannes Lions. Ao todo, 115 pessoas são citadas na ficha técnica do case, incluindo profissionais e líderes da agência, da marca, além de parceiros, como pós-produção.

A expansão das categorias e disciplinas reconhecidas nos festivais de criatividade parece ter encontrado um espelho nas próprias fichas das campanhas. À medida que a publicidade se tornou mais multidisciplinar, os créditos cresceram, ganharam novos protagonistas e passaram a funcionar não apenas como registros de autoria, mas também como ativos de reputação e carreira dentro da indústria.

Fichas técnicas - Campanhas - AlmapBBDO

“Teoria do Triângulo”, da AlmapBBDO para Doritos, teve mais de 217 profissionais (Crédito: Reprodução

O diretor-executivo de produção da VML Brasil, Anderson Rocha, considera que o crescimento dos créditos vem do reconhecimento coletivo de que, “para uma ideia ficar de pé na sua melhor forma”, é essencial a colaboração de diferentes disciplinas. Vem também da compreensão de que a visibilidade também pode ser valiosa para times que não são da criação.

“Hoje, os projetos são cada vez mais 360º, então, não se trata exclusivamente sobre o time por trás da ideia inicial, mas sobre o processo e as atribuições que foram necessárias para viabilizá-la”, pontua. A produção, por exemplo, é uma das áreas que, para o executivo, ganhou protagonismo, por deixar de ser a operacional e se tornar asset criativo.

Mais do que avanço ético, fruto de um suposto amadurecimento da publicidade, a mudança profunda nas fichas ocorreu, sobretudo, por questão pragmática, afirma Fernando Duarte, vice-presidente de criação da AlmapBBDO. “A ficha técnica era curta, porque a campanha era simples na sua arquitetura”. Em outras palavras, “o crédito concentrado refletia uma realidade de uma concentração de trabalho”, acrescenta Henrique De Lama, dupla de Duarte.

Fichas técnicas - Campanha - Droga5

Droga5 criou “Cif Dirty Mouth”, para Cif, que envolveu pelo me­nos 65 pessoas nos créditos (Crédito: Reprodução)

Um destaque da agência é a campanha “Teoria do Triângulo”, para Doritos, da PepsiCo, com mais de 217 profissionais listados. Nela, segundo os executivos, aparecem equipes que antes não eram incluídos, como tecnologia, martech, conteúdo e dados.

Logo, conforme o CCO da Droga5, Rafael Ziggy, a ficha técnica é um espelho da evolução da própria indústria. Quanto mais complexo ficou se conectar com o consumidor, mais coletivo ficou o crédito. “A complexidade aumentou, assim como o ecossistema de canais para conseguir a atenção das pessoas”, reforça. Para Cif, a agência criou “Cif Dirty Mouth”, que envolveu pelo me­nos 65 pessoas nos créditos.

Reflexos setoriais

Rocha defende que o reconhecimento explícito nas listas se tornou uma ferramenta estratégica de valorização e retenção de talentos, com as premiações endossando esse potencial. “Existem premiações focadas em diferentes disciplinas, como mídia, estratégia, design e inovação, o que contribui para valorizar essas capabilities”, ressalta.

De acordo com Fernanda Peixoto, diretora-geral de produção integrada da David São Paulo, os créditos também ganharam impacto relevante em rankings e pontuações dos festivais de publicidade. A partir disso, profissionais e empresas de áudio, imagem, pós-produção, dados, tecnologia e gestão de projetos passaram a ter maior visibilidade.

Fichas técnicas - Campanha - David

“Queridinha da Vovó, da David para Heinz, envolveu 75 pessoas (Crédito: Reprodução)

Ou seja, além do reconhecimento, a presença nas fichas contribui para a construção de reputação. “Muitas vezes, buscamos profissionais específicos para novos projetos e nos lembramos de trabalhos que admiramos. Ao acessar a ficha, podemos encontrar produtores, diretores de cena, de fotografia e de arte, além de diversos outros especialistas”. “Queridinha da Vovó, para Heinz, envolveu 75 pessoas na ficha.

Tal fato é atestado pelos vice-presidentes de criação da Almap. “Os parceiros passaram a enxergar mais valor nas fichas, e isso se reflete diretamente na forma como contabilizam prêmios e constroem reputação. O que antes era fornecimento virou coautoria”, acrescenta Duarte.

Fichas Técnicas - Campanha - GUT

“Nomad Guide”, da Gut para Nomad, tem uma ficha com mais de 60 nomes (Crédito: Reprodução)

Em certo contraponto a Rocha, a managing director da Gut, Alessandra Visintainder, também entende que ter o nome nas campanhas – especialmente as que vão para festivais como Cannes Lions – é um ativo de carreira, sem dúvida. Porém, não necessariamente se torna uma ferramenta de retenção, pelo menos não na Gut.

“Inclusive, ex-funcionários, que estiveram em determinado trabalho, entram na ficha da mesma forma. Como criatividade não é uma ciência exata, as ideias são construídas por grupos, por mais de uma dupla, e todos também precisam ser contemplados”, salienta. É da agência o case “Nomad Guide”, para Nomad, com mais de 60 nomes envolvidos, da agência, cliente e parceiros.