Rigidez com inscrições causa queda de 25% no total de concorrentes
Cannes Lions 2026 começa com 20.050 inscrições, de 92 países, uma diminuição de 6.850 peças na comparação com o ano passado

Simon Cook, CEO do Cannes Lions: “padrões reforçados não visam restringir a criatividade, mas sim fortalecê-la” (Crédito: Getty Images)
O Cannes Lions 2026 começa oficialmente na próxima segunda-feira com 25% menos inscrições de peças concorrentes em relação ao ano passado. A queda é consequência das regras mais rígidas de checagem de dados e da promessa de intolerância com campanhas falsas criadas somente para competir em festivais, instituídas após o vexame da cassação de um Grand Prix e outros Leões concedidos à brasileira DM9.
Neste ano, os júris estão avaliando 20.050 inscrições, de 92 países, o que significa menos 6.850 peças que o total de 26.900 concorrentes enviados por 96 países no ano passado. A organização do evento ainda não divulgou os números oficiais por países e por categorias. Mobilizando um total de mais de 300 jurados de todo o mundo, a maioria dos júris já está em andamento, com reuniões presenciais em Cannes, sob calor de 30º.
A preocupação com a credibilidade das inscrições, a legitimidade dos resultados e a integridade dos júris foram a principal preocupação dos organizadores desde o fim da edição passada. “Trabalhamos em estreita colaboração com a comunidade internacional ao longo do último ano em medidas que consideramos significativas e agradecemos a todos pelo apoio, cooperação e liderança. Juntos, entendemos que esses padrões reforçados não visam restringir a criatividade, mas sim fortalecê-la, garantindo que trabalhos inovadores recebam o reconhecimento que merecem, preservando a integridade que torna esse reconhecimento significativo e duradouro”, diz Simon Cook, CEO do Cannes Lions.
Com a queda nas inscrições mais acentuada nos envios feitos pelas agências, o percentual de concorrentes enviados à Cannes pelas empresas anunciantes passou de 8%, em 2025, para 10%, em 2026.
Ano de superação
A principal meta do Cannes Lions em 2026 é a de superar a repercussão negativa do ano passado, de premiar campanhas falsas ou que usaram dados mentirosos para forjar repercussões que as ações nunca tiveram. Embora irregularidades assim já tivessem sido descobertas em anos anteriores, inclusive motivando cassações de prêmios, os casos de 2025 protagonizados por campanhas brasileiras mergulharam o Cannes Lions na maior crise de reputação da sua história. No epicentro do furacão, a DM9 precisou devolver 12 Leões de campanhas que a agência não conseguiu comprovar veracidade, apresentadas aos júris do festival por videocases recheados de informações inconsistentes. O caso mais emblemático — mas não único — foi o do Grand Prix de Creative Data, batizado de “Consumo Eficiente de Energia”, criado para a Consul, da Whirlpool, que usou inteligência artificial (IA) para falsificar imagens e vozes de reportagem da CNN Brasil e de apresentação de uma senadora norte-americana no TED Talks.
Desde então, os donos do Cannes Lions tentam estancar o problema e mostrar ao mundo que acabaram com a tolerância a práticas questionáveis às quais fizeram vista grossa por muito tempo. Ainda no ano passado, anunciaram revisão nas regras, prometendo implementar um sistema de verificação de fatos, com checagens manuais e análises por IA, exigir aprovação aos videocases por diretores da agência e do anunciante e impor sanções mais severas por má conduta, incluindo a exclusão do evento por até três anos para empresas que apresentarem trabalhos falsos.
Pelo que jurados ouvidos pela reportagem viram até aqui, o evento realmente está bem mais rígido. Estão mais frequentes as checagens deinformações sobre a repercussão das ações inscritas, desde dados de audiência e engajamento até impacto nas vendas de produtos e serviços. A organização do festival reforçou o pedido para que os jurados se empenhem nessa cruzada pela integridade das campanhas concorrentes — e, especialmente, das que serão premiadas.


