Criatividade

Cannes Lions: o que mudou no processo de inscrição em 2026

Festival endureceu processo, ampliou etapa de checagens e incluiu fase de validação com agência e clientes

i 2 de junho de 2026 - 6h19

Inscrever um case no Cannes Lions nunca foi exatamente simples. Mas, em 2026, o processo ganhou novas camadas de controle, validação e comprovação. Além dos tradicionais videocases, textos de defesa e materiais de apoio, o festival passou a requerer documentos que comprovem resultados e informações utilizadas nas inscrições, uma resposta à crise de reputação causada pela premiação dos cases “fantasmas” do ano passado.

Cannes Lions 2026

Cannes Lions ocorre entre os dias 22 e 26 de junho na Riviera Francesa (Crédito: Nattapat.J/Shutterstock)

Até 2025, enviada a inscrição, a organização entrava em contato somente para abordar possíveis mudanças de categoria, solicitar algum a material faltante ou que estava em formato errado. Agora, há a obrigatoriedade de uma “proof of impact” (comprovação de impacto), em que afirmações e dados têm que ser comprovados com evidências e fontes verificáveis.

“Também passa a ser obrigatório incluir as fontes e links dos vídeos, matérias jornalísticas e entrevistas cujos extratos foram inseridos no material. Essas informações permanecerão confidenciais, sendo utilizadas apenas verificar a veracidade”, explica Fabiana Antacli, diretora de comunicação e cultura da BETC Havas, com vasta experiência na submissão de cases em festivais.

Uma vez inscrita a peça, o Cannes Lions inicia um processo de revisão com ferramentas de inteligência artificial e outras análises. Em seguida, de acordo com nas novas regras de integridade, a equipe organizadora entra em contato para pedir quaisquer dados que não estavam contemplados ou para informar quais fontes não são aceitas.

Após várias idas e vindas de mensagens, com todas as informações fornecidas e validadas, foi criada uma etapa de validação. “Depois que a inscrição é finalizada, os CMOs da marca recebem um e-mail do festival para revistar e validar tudo o que foi colocado no sistema – textos de defesa, materiais e demais informações do case”, ressalta Maria Eugenia Humberg, CEO da HUM Comunicação, que também se dedica a inscrever campanhas em diferentes festivais.

As inscrições que não cumprirem os requisitos, se as agências não fornecerem o material adequado quando solicitadas ou não tiverem as aprovações necessárias, serão canceladas, sem reembolso dos recursos investidos.

Impacto das mudanças

Na avaliação de Fabiana, as regras tornaram o processo “muito mais rigoroso e estruturado”, o que tende a elevar o nível de cuidado de toda a cadeia de inscrição. Por outro lado, por ser bem mais trabalhoso, pode impactar diretamente na quantidade de trabalhos inscritos a longo prazo. “Visto o rigor e as novas exigências, imagino que neste ano o número de trabalhos inscritos, pelo menos pelo Brasil, será bem menor e o cuidado, sem sombra de dúvida, muito maior”, avalia.

Mesmo assim, criatividade e inovação não devem sofrer nenhuma limitação relacionada à burocracia. O cuidado, nesse cenário, é conseguir embalar melhor os projetos com fatos, dados e resultados comprovados, além de usar IA e outras tecnologias de forma pertinente, transparente e responsável.

Maria Eugenia considera a decisão do Cannes Lions de adotar novas práticas como “um movimento natural” que responde ao próprio crescimento da indústria. “O desafio do festival será encontrar equilíbrio entre controle e liberdade criativa. O importante é que os processos de validação acompanhem as experimentações sem desestimular projetos pioneiros que ainda não têm métricas tradicionais consolidadas”, salienta.

Júri de Cannes Lions

Além de alterar a rotina de quem inscreve trabalhos, as novas exigências já são percebidas pelos próprios jurados. Integrantes brasileiros do júri relatam que as inscrições chegam com mais documentação, fontes detalhadas e informações mais consistentes sobre execução, resultados e uso de inteligência artificial, tornando a avaliação mais técnica e aprofundada.

Parte do júri de Brand Experience & Activation, Brisa Valente, coCEO da Droga5, diz que as inscrições estão bem completas e, de fato, a materialidade do case se apresente em formato de dados com fontes. Além disso, o uso de tecnologia nas peças, que já era obrigatória e que, agora, passa a ser verificada, também está bem delimitado.

“Isso traz mais rigor e credibilidade para vermos projetos que sejam críveis. A inteligência artificial demarca uma mudança na nossa capacidade de trabalhar a realidade narrativa, exigindo que exercitemos novos músculos para lidar com esse contexto”, reflete.

A CCO da David São Paulo, Marie Julie Gerbauld, que integra o time de jurados de Outdoor, comenta que, até o momento, o julgamento parece estar um pouco mais lento, provavelmente pela etapa de checagem mais lenta. Mesmo assim, para ela, o procedimento “alivia o peso” para quem vai julgar. “Sabemos que, para estar lá, o case passou por várias pessoas. Assim, podemos focar na ideia”.

A opinião é compartilhada por Andre Athayde, agency partner da Meta, do júri de Creative B2B: “Me sinto muito seguro do que estou julgando, pois temos bastante informação disponível e, mesmo assim, podemos, a qualquer momento, levantar a mão e nos conectar com a organização para entender ou explorar algo que não esteja claro”.