Desperdiçar senioridade é um mau negócio
Em um Brasil com cada vez mais adultos e menos jovens, valorizar profissionais experientes traz ROI que mercado não calcula

(Crédito: Shutterstock)
Adivinha quantos anos têm os astronautas da missão Artemis II, que recentemente marcou o retorno da humanidade à órbita lunar após mais de 50 anos? Entre 47 e 50 anos. Em uma das missões mais sofisticadas da história recente da exploração espacial, experiência foi entendida como ativo essencial.
Enquanto setores de alta complexidade reconhecem o valor do repertório acumulado, muitas empresas e áreas como marketing ainda enfrentam o desafio de reconhecer plenamente a maturidade como um ativo estratégico. A disciplina que interpreta comportamentos e antecipa mudanças culturais tem diante de si uma transformação evidente: o Brasil envelhece, e esse movimento já influencia consumo, trabalho, linguagem e cultura.
Nas últimas décadas, a estrutura etária do país mudou de forma perceptível. Há mais adultos maduros circulando nos espaços de decisão, consumo e influência cultural e muitas campanhas de marketing já refletem isso. O mercado já incorporou novas leituras de diversidade e comportamento. O desafio, agora, é ampliar essa visão de diversidade etária dentro das empresas.
Temos de repensar como o mercado avalia experiência e como esta bagagem aporta valor para a empresa. Em muitos contextos, profissionais experientes ainda enfrentam o desafio de provar que repertório acumulado combina muito bem com adaptação, leitura de cenário e capacidade de decisão. Quando um profissional sênior deixa uma empresa, ele até pode perder, mas a companhia perde com mais intensidade.
A primeira perda é o conhecimento acumulado que escapa pelas paredes dos escritórios quando não é transmitido aos mais jovens. Em um ambiente saturado de informação, vivência acumulada precisa ser entendida como ferramenta de interpretação. Profissionais experientes reconhecem padrões e identificam riscos com rapidez.
Em muitos casos, também ajudam a separar tendências consistentes de movimentos passageiros. A qualidade das decisões diminui quando há menor diversidade e isto tende a ser ainda mais forte quando falta diversidade etária. Afinal, há aprendizados que só os anos de estrada trazem.
O segundo ponto é que o maior uso da inteligência artificial torna a presença de profissionais experientes ainda mais importante. Quanto mais a IA ganha espaço nos processos, mais precisamos de capacidade crítica para direcionar seu uso. Sem repertório, julgamento e contexto, os benefícios da tecnologia podem se transformar em ameaça.
Em um mundo cada vez mais moldado pela inteligência artificial, onde dados, automação e execução técnica tornaram-se commodities ao alcance de um clique, o profissional sênior passa a ser um diferencial competitivo importante para as marcas. A IA processa volumes massivos de informação e entrega respostas em segundos, mas ela carece de repertório cultural autêntico, sensibilidade humana e, acima de tudo, do julgamento crítico que só os anos de bagagem e de crises gerenciadas trazem.
Em um cenário hiperconectado e automatizado, o executivo sênior não compete com a máquina; ele a direciona. É a maturidade profissional que transforma uma resposta técnica, o output mecânico do algoritmo, em uma estratégia com sentido; uma recomendação genérica em uma decisão de negócio; uma ideia aparentemente eficiente em algo que realmente conversa com pessoas.
Isso resulta em conexões emocionais legítimas e em estratégias de negócios sustentáveis. Quanto mais artificial se torna o ecossistema, mais valiosa e insubstituível é a inteligência construída pela experiência de vida.
Diversidade etária, porém, não produz resultado automaticamente. Equipes multigeracionais exigem lideranças preparadas para integrar diferentes ritmos, referências e formas de trabalho. Quando isso acontece, a experiência circula como inteligência aplicada.
A verdadeira inovação não nasce do isolamento entre geração, mas do atrito saudável e da colaboração entre elas. Nas empresas, a transmissão desse conhecimento não pode ser vista como um processo unilateral, mas como uma via de mão dupla essencial para a sobrevivência do negócio.
De um lado, os profissionais seniores trazem a bagagem, a resiliência institucional e a sabedoria de quem já navegou por crises e mudanças profundas de mercado. De outro, as novas gerações oxigenam as estruturas com fluidez digital, novos olhares e questionamentos provocativos.
Quando as organizações criam pontes, nascem espaços de cocriação, transformando o choque geracional em um ecossistema de aprendizado contínuo. Garantir que esse patrimônio intelectual seja transmitido e renovado internamente é o que impede que as marcas percam sua identidade ao mesmo tempo em que se movem em direção ao futuro.
Na Samsung, sou a profissional mais “experiente” do departamento, por quase uma década de diferença. Vejo meu dia a dia como um exercício constante de troca. Se, por um lado, isso me exige a humildade de ouvir os mais jovens, por outro, percebo que minha experiência ajuda, em alguns momentos, a encurtar caminhos.
No fim das contas, a longevidade corporativa não está apenas no tempo acumulado. Está na capacidade de somar vivência, escuta e atualização contínua. Porque experiência, quando permanece em movimento, não envelhece. Vira vantagem competitiva.