A potência da intergeracionalidade
Parceria de trabalho entre publicitária de 66 anos e outra de 24 questiona preconceitos e explora potencialidades

“O Estagiário” (2015), com Robert De Niro e Anne Hathaway (Crédito: Reprodução/Twitter)
Há dois anos, comecei a trabalhar ao lado da Anne Liz. Eu tenho 66 anos, ela tem 24. Somos publicitárias e, quando nos juntamos, o fator idade nem passou pela nossa cabeça. O que nos aproximou foi a mesma crença no valor do humano diante dos algoritmos; a mesma paixão por estudar pessoas como caminho para bons insights de vida e negócios. Só depois, no convívio, é que percebemos que estávamos vivendo, na prática, o tema que levamos ao palco do MaturiFest 2026: a potência da intergeracionalidade.
Quando se fala sobre etarismo no mercado, o reflexo quase automático é pensar na mulher madura, e com razão: uma pesquisa da EY com a Maturi, apresentada no próprio MaturiFest deste ano, mostrou que 25% das mulheres acima de 50 anos que estão desempregadas estão fora do mercado há mais de dois anos, contra 13% dos homens na mesma situação.
É um dado real: as mulheres sofrem mais com o etarismo. Mas ele é só metade da história. Se olharmos para o outro extremo, para as mulheres da Geração Z, o preconceito passeia por outros mares. Apesar da extrema energia física e mental, os jovens atualmente são considerados “preguiçosos”, “querem subir em tempo recorde e sem esforço”, “não comprometem sua vida pessoal em função da profissional”, entre outros.
Na verdade, o grande equívoco é pensar a partir da idade e não da pessoa, suas experiências, intenções e suas forças. Minha parceria com a Anne é um exemplo. Em muitas coisas, ela, com 24 anos, é mais madura do que eu, aos 66, que ainda me pego mais inquieta e curiosa do que ela em outras. A idade cronológica explica cada vez menos sobre quem alguém é no trabalho, mas, mesmo assim, ainda é um impeditivo profissional para ambas as gerações e uma barreira para a intergeracionalidade.
Um filme que considero definitivo sobre o assunto é “O Estagiário” (2015), com Robert De Niro (Ben Whittaker) e Anne Hathaway (Jules Ostin). Ainda não fizeram outro tão significativo sobre a intergeracionalidade. Ele é um aposentado que se inscreve como estagiário sênior em uma startup comandada por uma mulher muito mais jovem. A narrativa reproduz uma questão que descobrimos no estudo “A Revolução da Longevidade”, divulgada pelo Lab Humanidades em 2024. No filme, é o estagiário septuagenário que conquista a parceria com a jovem, que a princípio sentiu um estranhamento.
No estudo, assim como no filme, vimos que os mais velhos parecem ter maior habilidade para se juntar aos mais novos, que tendem, instintivamente, a se distanciarem de profissionais mais maduros. A razão é o próprio medo de envelhecer e se ver nesse lugar. O mesmo estudo revela que quanto mais jovem o entrevistado, maior é o medo de envelhecer.
Em “O Estagiário”, após vencerem o estranhamento inicial, os dois se tornam melhores profissionais porque aceitam aprender com uma bagagem diferente da sua própria. Não existe separação entre quem “já foi” e quem “ainda não é”. Os dois profissionais simplesmente são, ao mesmo tempo, no mesmo espaço. A visão e atuação de ambos importam e se potencializam.
E onde está esse potencial?
O personagem Ben Whittaker tem a sabedoria do tempo. Ele não tenta se impor, mas sabe esperar enquanto fica atento às oportunidades. Na hora certa, chega com uma ajuda inesperada. É o único que percebe a vulnerabilidade de Jules, a chefe, antes que ela mesma o admita, sem cobrar explicação, sem propor solução. Só presença. Talvez a maturidade traga mais a possibilidade de ouvir, sem a ansiedade de trazer a resposta.
Ben nunca tenta ocupar o lugar de ninguém na equipe jovem; ele preenche o que falta. Onde os outros são geniais e dispersos, ele é disciplinado e presente. É esse encaixe que faz a startup funcionar melhor com ele do que sem ele. É a imagem de uma geração multiplicando a outra.
Há cenas no filme em que todos agem juntos. A irreverência dos jovens se soma às estratégias de quem já negociou a vida inteira. Porém, ambas as posturas se complementam, se contagiam e transformam as pessoas. Situações em que nenhuma das posturas sozinha resolveria, mas a junção virou potência.
Por fim, a combinação de referências e repertórios. Memória histórica, métodos essenciais, resiliência e tolerância à frustração de quem já está há muito no jogo se juntam à irreverência e à fluência da cultura e visão técnica de quem está chegando.
É esse o potencial que a régua etária esconde. Escutar antes de opinar, complementar em vez de substituir, criar juntos o que nenhuma geração criaria sozinha, e reconhecer que repertório se soma e se atualiza com a idade. Como Ben e Jules, como eu e a Anne Liz, a pergunta sempre deveria ser: o que podemos construir juntos?