OPINIÃO: LICA BUENO

O poder de mudar de ideia

Durante anos ensinamos líderes a defender convicções, mas o futuro exige líderes capazes de revisá-las

Lica Bueno

Presidente da Talent 24 de agosto de 2026 - 9h24

(Crédito: Adobe Stock)

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Existe uma característica que sempre foi muito valorizada no universo corporativo: a firmeza das convicções. Aprendemos que bons líderes são aqueles que sabem exatamente para onde vão, defendem seus pontos de vista com segurança e transmitem confiança mesmo diante das perguntas mais difíceis.

Durante muito tempo, essa lógica fez sentido. Afinal, em alguns mercados relativamente previsíveis, experiência acumulada e capacidade de execução costumavam ser suficientes para orientar decisões. Mas talvez exista uma distinção importante que nem sempre fazemos: ter convicção não é a mesma coisa que não ser flexível.

Há também uma diferença importante entre princípios e certezas. Princípios orientam decisões, cultura e valores. Já as certezas precisam conviver com a realidade. E a realidade muda. Muitas das crenças que carregamos ao longo da carreira nasceram de experiências legítimas e bem-sucedidas. O problema é assumir que aquilo que funcionou ontem continuará funcionando da mesma forma amanhã.

A popularização da inteligência artificial tornou essa discussão ainda mais visível. Tenho usado ferramentas de inteligência artificial com frequência e uma das coisas que mais me chama atenção é a capacidade que elas têm de ampliar repertórios, apresentar perspectivas diferentes e desafiar respostas antes consideras definitivas. Em vez de reforçar certezas, muitas vezes elas funcionam como um convite para revisitar hipóteses e enxergar ângulos que talvez passassem despercebidos. Mas esse processo só acontece quando existe abertura para interpretar, questionar e refletir sobre aquilo que está sendo apresentado.

Por isso acredito que estamos assistindo a uma mudança silenciosa e muito rápida no perfil das lideranças. O protagonismo tende a migrar de quem oferece respostas imediatas para quem consegue ampliar a discussão, desafiar premissas estabelecidas e perceber quando uma ideia já não explica mais a realidade da mesma forma.

Parece simples, mas exige uma dose importante de humildade. Todos nós nos apegamos às ideias que ajudamos a construir, especialmente quando elas estiveram associadas a conquistas e resultados importantes. O desafio está em reconhecer quando o contexto mudou.

A inovação raramente nasce dentro do território confortável das certezas. Ela costuma aparecer quando alguém tem disposição para questionar pressupostos, admitir dúvidas e considerar perspectivas que antes pareciam improváveis. Vejo isso acontecer com frequência nas empresas. Os projetos mais transformadores nem sempre começam com as respostas mais brilhantes. Muitas vezes, começam com uma pergunta desconfortável: “E se estivermos olhando para o problema da forma errada?”

Essa pergunta cria espaço para algo ainda mais valioso: a possibilidade de aprender. E aprender exige desapego. Da necessidade de estar sempre certo. Do ego associado às próprias ideias. E da crença de que liderar significa ter todas as respostas. No ambiente atual, liderar tem menos a ver com sustentar posições definitivas e mais com criar espaço para perguntas relevantes.

No fim das contas, talvez a habilidade mais valiosa para os próximos anos não seja defender ideias brilhantes, mas ter coragem de revisá-las. Porque, em um mundo em constante transformação, mudar de ideia diante de novas evidências não é sinal de fraqueza. É uma das formas mais sofisticadas de inteligência.