OPINIÃO: CLAUDIA PENTEADO

O eu em primeiro plano

Uma conversa na Flip propôs a seguinte pergunta: quem somos quando não estamos tentando ser vistos?

Claudia Penteado

Jornalista 4 de agosto de 2026 - 9h42

(Crédito: Shutterstock)

(Crédito: Shutterstock)

Durante alguns dias de julho, Paraty, na Costa Verde do Rio de Janeiro, tem suas ruas de pedras irregulares e seus casarões coloniais ocupados por autores, leitores, jornalistas e curiosos carregando livros e celulares. A literatura é, claro, o centro declarado da Flip, mas boa parte do que acontece ali também passa pelas telas. Conversas são fotografadas, gravadas e compartilhadas quase no mesmo instante em que acontecem.

Enquanto a poeta Orides Fontela, homenageada da 24ª edição, construiu uma obra marcada pela contenção, pelo rigor e por uma atenção radical às coisas, a festa ofereceu o retrato de uma época em que dificilmente uma experiência parece completa antes de ser transformada em conteúdo.

Foi nesse cenário que a ensaísta e pesquisadora Paula Sibilia e o comunicólogo Pedro Tourinho se encontraram para uma conversa sobre imagem, consumo e desejo nas redes sociais, na programação da Casa Sete Selos + Gama. Paula acaba de publicar Eu mereço!: da velha hipocrisia aos novos cinismos, uma investigação sobre a mudança dos valores que organizam a vida contemporânea. Pedro, autor de Eu, eu mesmo e minha selfie, conhece por dentro a engenharia da imagem pública, das celebridades, das marcas e dos influenciadores.

A conversa começou pela selfie. Paula lembrou que, durante muito tempo, quem viajava para conhecer a Torre Eiffel voltava com fotografias da Torre Eiffel. Em algum momento, passamos a fotografar a nós mesmos diante dela, com a torre recuada para o fundo e uma informação principal a transmitir: eu estive aqui. Mais do que uma transformação estética provocada pelas câmeras frontais dos celulares, a selfie tornou visível o deslocamento do eu para o primeiro plano não apenas das fotografias, mas da cultura como um todo.

Esse movimento, segundo Paula, não começou com o Instagram. As redes sociais são recentes demais para terem produzido sozinhas uma transformação tão profunda. Encontraram um terreno preparado havia décadas, desde que antigas exigências de sacrifício, repressão e submissão a valores coletivos começaram a ser questionadas. Família, religião, pátria, casamento e boa reputação foram usados durante séculos para sufocar desejos, preservar desigualdades e manter muitas pessoas, especialmente as mulheres, confinadas a papéis que não haviam escolhido. A conquista da autonomia e do direito de construir a própria vida representou uma libertação histórica.

Mas toda libertação produz também suas sombras. A rejeição de uma moral baseada na culpa, na repressão e na obediência abriu espaço para uma valorização necessária da liberdade individual. O problema é que, aos poucos, essa liberdade passou a ser confundida com o direito de realizar todos os desejos. Já não bastava querer alguma coisa. Passamos a acreditar que, por querê-la, também a merecíamos. O merecimento deixou de depender de esforço, espera ou reconhecimento: eu mereço simplesmente porque sou eu.

A publicidade compreendeu cedo esse deslocamento: você merece este carro, esta viagem, esta pele, este corpo, este descanso. A frase quase afetuosa foi ensinando que o mundo existe como uma sucessão de recompensas disponíveis ao indivíduo. Paula chama de “solo moral” o conjunto de valores que torna determinados comportamentos legítimos e outros condenáveis em cada época.

O solo anterior, marcado pela repressão e pelo pacto social, era profundamente hipócrita. Pregava igualdade enquanto aceitava privilégios, celebrava a família e ao mesmo tempo encobria violências e defendia instituições que tratavam pessoas de maneira desigual.

A hipocrisia depende de uma regra que todos dizem respeitar, mesmo quando não respeitam. O cínico contemporâneo, diante da descoberta de que a regra nunca foi aplicada igualmente, conclui que nenhuma regra merece sobreviver. Já não é preciso esconder o desejo de vencer, enriquecer, humilhar ou impor sua vontade. Pode-se fazê-lo à vista de todos e ser admirado por parecer autêntico.

A autenticidade, uma das ideias mais valorizadas do nosso tempo, tornou-se uma palavra ambígua. Pode representar a coragem de abandonar um papel imposto pelos outros, mas também servir como licença para não reconhecer limites. “Esta é a minha verdade” passou a encerrar discussões que deveriam começar pela confrontação entre experiências, evidências e argumentos. Quando a experiência pessoal adquire mais autoridade do que qualquer critério compartilhado, fatos se tornam versões concorrentes, avaliadas menos pela sua correspondência com a realidade do que pela capacidade de mobilizar identificação, indignação ou desejo. O vencedor tende a ser aquele que “grita melhor”.

Esse é um ponto especialmente delicado para as mulheres. Depois de tanto tempo privadas de voz, fomos incentivadas a falar, ocupar espaços, contar nossas histórias e construir uma presença pública. Há uma conquista real nisso. Mulheres que antes dependeriam da validação de instituições predominantemente masculinas puderam produzir conhecimento, criar negócios, denunciar abusos e encontrar outras mulheres com experiências semelhantes.

Mas o mesmo ambiente que ampliou vozes transformou a exposição numa exigência. Hoje, não basta que uma profissional seja competente. Espera-se que seja também sua própria assessora de imprensa, editora, fotógrafa, porta-voz e estrategista de reputação. Ela deve trabalhar e narrar o trabalho, construir autoridade, demonstrar vulnerabilidade e parecer espontânea. Deve ser segura, mas não arrogante. Humana, mas não frágil demais. A promessa de liberdade convive com uma nova disciplina.

É difícil saber em que momento a construção de uma identidade pública deixa de ser expressão e se torna produção permanente. A imagem pessoal entrou definitivamente na lógica do mercado. Passamos a falar em valor, posicionamento, relevância e engajamento para descrever não apenas empresas ou produtos, mas pessoas. Nossa aparência, opiniões, afetos, rotina e até nossos fracassos podem ser convertidos em conteúdo. O descanso vira postagem sobre descanso. A leitura vira fotografia do livro. Uma crise rende uma narrativa de superação. A vulnerabilidade, quando bem editada, também performa.

Paula observou que naturalizamos a lógica da publicidade como modelo de subjetividade. Durante muito tempo, romances, filmes e personagens nos ajudaram a imaginar quem poderíamos ser. Hoje, essa função é exercida em grande medida por perfis pessoais organizados segundo a gramática da venda. Não apenas consumimos produtos. Aprendemos a nos consumir mutuamente.

Pedro Tourinho conhece bem esse território. Durante a conversa, contou que já afirmou que influenciador não era profissão, até perceber que milhões de pessoas passaram a tratar a influência como profissão. O problema, observou, é que apenas uma parcela mínima consegue obter retorno financeiro significativo. A maioria trabalha gratuitamente para as plataformas, fornecendo imagens, histórias, dados e atenção enquanto alimenta a esperança de transformar visibilidade em renda. A plataforma ganha quando publicamos, assistimos, desejamos, odiamos e voltamos para verificar se alguém reagiu ao que dissemos. O ego não é apenas estimulado. É incorporado ao modelo de negócio.

A inteligência artificial acrescenta uma nova camada a essa história. Se as plataformas puderem produzir textos, imagens, vozes, influenciadores e audiências artificiais, o ser humano que passou anos tentando se adaptar às máquinas poderá descobrir que também se tornou substituível. Primeiro, fomos convencidos de que precisávamos nos tornar interessantes para os algoritmos. Agora, os algoritmos aprendem a fabricar personagens potencialmente mais interessantes do que nós.

A pergunta sobre como resistir costuma receber respostas individuais: desligar notificações, estabelecer horários, fazer pausas. São iniciativas importantes, mas insuficientes diante de tecnologias deliberadamente desenhadas para capturar atenção. Existe também uma questão coletiva. Precisamos de regulação, transparência e letramento digital. Crianças, adolescentes e adultos deveriam compreender a monetização, os mecanismos de recompensa, a circulação de desinformação e os interesses econômicos por trás de cada gesto aparentemente espontâneo.

Ainda assim, a reflexão mais provocadora da conversa talvez tenha surgido quando Paula deslocou o problema da tecnologia para a vida. Em vez de perguntar apenas como usar menos as redes, talvez devêssemos nos perguntar que existência estamos tentando construir fora delas. O que desejamos experimentar sem transformar em imagem? Que relações sobrevivem sem testemunhas? Que trabalho continuaríamos fazendo se não pudéssemos anunciá-lo? O que merece nossa atenção quando ninguém está olhando?

A ideia não é abandonar a tecnologia nem sonhar com um retorno impossível a um passado analógico. É  inverter a ordem das coisas. Primeiro, inventar uma vida. E depois decidir que lugar as tecnologias poderão ocupar nela. Talvez só então possamos descobrir quem somos quando não há uma câmera, uma plateia ou um algoritmo à espreita.