OPINIÃO: LIANA BAZANELA

A régua errada para medir o futebol feminino

Mercados emergentes não devem ser avaliados apenas pelo tamanho que têm hoje, mas pela direção em que caminham

Liana Bazanela

Cofundadora e CEO da HOC Sports 29 de julho de 2026 - 8h12

(Crédito: Shutterstock)

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“Mas qual é a audiência?”. Essa foi uma das perguntas que mais ouvi nos anos em que estive à frente do marketing e dos negócios do Sport Club Internacional.

Na época, respondia mostrando o potencial da modalidade. Hoje continuo respondendo da mesma forma. A diferença é que, desde então, o mercado passou a reunir evidências que reforçam uma convicção que já existia. E a Copa do Mundo Feminina de 2027 pode ser o momento em que essa conversa entre, definitivamente, na agenda estratégica das marcas.

O problema é que talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Mercados emergentes não devem ser avaliados apenas pelo tamanho que têm hoje, mas pela direção em que caminham. Nesses mercados, a vantagem competitiva raramente pertence a quem investe mais. Pertence, quase sempre, a quem chega antes.

Se existe um mercado capaz de mostrar por que chegar antes importa é o do futebol feminino.

Os sinais são claros. As principais ligas do mundo seguem crescendo. No Brasil, a modalidade conquista mais espaço, atrai novos patrocinadores e amplia sua base de fãs. Recentemente, 75% dos ingressos para o amistoso entre Brasil e Estados Unidos foram adquiridos por mulheres. Mais do que um dado de audiência, esse número revela a formação de um público disposto a acompanhar, consumir e fortalecer esse ecossistema.

Mas talvez a principal mudança não esteja no futebol feminino. Ela está na forma como as marcas passaram a identificar oportunidades.

Durante muito tempo, o tamanho da audiência foi o principal critério para decidir onde investir. Hoje, construir relacionamento, reputação e comunidade antes da maturidade de um mercado pode ser um diferencial competitivo muito maior do que disputar espaço quando ele já está consolidado.

Foi assim com os creators, com o streaming e com a corrida de rua. Quem chegou cedo não encontrou apenas um mercado menor, mas um mercado cuja liderança ainda estava sendo construída.

O futebol feminino vive exatamente esse momento.

Ainda existe espaço para ajudar a formar cultura, desenvolver audiência e criar vínculos genuínos com torcedores e consumidores. Porque reputação, legitimidade e conexão não se compram quando um mercado amadurece. Elas são construídas ao longo do caminho.

É por isso que a Copa do Mundo Feminina de 2027 não cria essa oportunidade. Ela acelera um movimento que já começou e amplia a vantagem de quem decidir participar dessa construção antes que ela se torne consenso.

Talvez o maior erro das marcas não seja subestimar o futebol feminino, mas continuar usando a régua de um mercado maduro para medir um mercado que ainda está sendo construído.

Porque o marketing aprendeu a medir mercados. As marcas que fazem história ajudam a construí-los.