O que aprendi no júri dos maiores prêmios de criatividade
É enriquecedor ver de dentro como funciona o mercado, mas quero trazer meu ponto de vista como mulher

(Crédito: Shutterstock)
Cannes, D&AD, El Ojo, One Show, Clio. Nos últimos anos, tive a oportunidade de integrar os júris de todos esses prêmios. Foi, sem dúvida, enriquecedor ver de dentro como funcionam as decisões que pautam a criatividade no mercado, os critérios, os discursos, as posturas. Mas o que eu quero trazer aqui é outra coisa. É o meu ponto de vista como mulher naquelas salas.
Não sou “criativa” no crachá. Integro a criação, participo criativamente de inúmeros projetos, mas meu cargo não tem a palavra “criação” no nome, meu background é todo de entretenimento, roteiro e produção. Ao lado dos CCOs do mundo, meu título parece bem menos sexy. E, talvez pelos motivos errados, isso acabou me ajudando, porque fui vista mais como aliada do que como concorrente. Demorei para entender o que isso dizia sobre as regras do jogo e sobre como nós, mulheres, aprendemos a jogá-lo.
Meu primeiro júri presencial foi o One Show, em Punta Cana. Cheguei tentando fazer a simpática, sem conhecer absolutamente ninguém. Lembro de ler a lista do meu júri e pensar em como eu gostaria de ser vista por aquelas pessoas. Pensei na roupa, na apresentação, na primeira impressão.
Foi na minha insegurança que identifiquei duas mulheres mais jovens do que eu passando pelos mesmos desafios. Uma era muçulmana, nascida no Canadá, trabalhando em Nova York, e a outra vinha de Singapura. Nós nos salvamos do tédio, das nossas inseguranças, demos boas risadas e formamos o grupo de WhatsApp Pink Poney Club, ativo até hoje comentando trabalhos e trocando memes.
Para o júri de Cannes, eu estava mais nervosa do que nunca. Parecia que eu estava indo para as Olimpíadas representando o Brasil. Os eventos pré-festival e o interesse das publicações brasileiras em ouvir os jurados do país deram àquilo uma importância de final de Copa do Mundo. Entrei na sala e percebi que era a única latino-americana. Meu inglês não era perfeito, e na primeira vez que abri a boca para defender um trabalho, uma voz antiga sussurrou na minha cabeça que talvez fosse melhor ficar quieta.
Essa voz tem nome. A psicóloga Dana Jack chamou de self-silencing o hábito, ensinado às meninas desde cedo, de engolir o que pensam para preservar a harmonia e agradar. Meninas criadas para agradar viram “criativas” que engolem ideias. Nas salas de júri, onde opinar é literalmente o trabalho, esse condicionamento fica nu.
Mas foi lá também que eu vi o antídoto. Uma colega europeia precisou levar o filho bebê porque o cronograma da creche do festival (sim, o festival tem uma creche) não batia com o horário de início do júri. Em vez de constrangimento, o que se formou ao redor dela foi uma rede. Nós nos revezávamos, segurávamos o colo e, juntas, a vimos, de coração partido, deixar o bebê na creche para continuar o julgamento. A presença daquela criança trazia uma dimensão de mundo real para a sala.
Quando minha filha tinha 7 meses, fui para Cannes e parei de amamentar por causa disso. Contei isso para minha colega jurada no último dia, do lado de fora da sala, enquanto nossos trabalhos concorriam um contra o outro ao Grand Prix da categoria. Nós duas nos emocionamos. Não tinha nenhuma rivalidade ali, mas tinha alívio por termos atravessado aquilo inteiras, e juntas.
No D&AD, meu júri deveria ter três mulheres, mas uma foi substituída por um homem e ficamos em duas, eu e uma colega egípcia, ultra talentosa e corajosa. Vindas de lugares tão diferentes, descobrimos o mesmo senso de humor e quantas histórias parecidas tínhamos para contar, numa relação que ultrapassou a sala e segue firme nas redes.
O que aprendi sendo jurada dos maiores prêmios do mundo não foi sobre critérios de avaliação. Foi que o silêncio que nos ensinaram é desmontado em grupo. Cada mulher que fala numa sala dessas abre espaço para a próxima. E que grupo de WhatsApp, colo revezado e abraço de concorrente também são infraestrutura de carreira.