cultura

Alceu Valença: “Não corro atrás de algoritmo”

Cantor fala sobre a coleção da Renner, publicidade e os limites para preservar a própria identidade

i 29 de junho de 2026 - 6h09

Alceu Valença

Alceu Valença fala sobre autenticidade e relação com marcas (Crédito: Leo Aversa)

A cultura popular brasileira costuma ser chamada para campanhas de marca quando é preciso comunicar brasilidade, afeto ou conexão com o território. O desafio começa quando esses símbolos aparecem apenas como uma camada estética, sem a profundidade que lhes dá sentido. Para Alceu Valença, artista cuja obra atravessa gerações a partir de referências do Nordeste, a resposta para essa equação passa menos pela urgência do mercado e mais por fidelidade à própria origem.

“Eu realmente não corro atrás de algoritmo. Espero que ele me ache. Sempre procurei expor a minha essência. Digo, com muito orgulho, que sou de São Bento do Una, de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil, da América Latina, planetário e universal. Tudo me inspira: minhas raízes, minhas circunstâncias, a estrada, a fauna, a flora, os astros. Continuo seguindo essa bússola.”

A autenticidade de Alceu Valença e a cultura regional

A fala ajuda a explicar a permanência de um repertório que transformou canções como “Anunciação”, “Tropicana”, “Belle de Jour” e “Coração Bobo” em parte do imaginário popular brasileiro. Nascido no agreste pernambucano, Alceu construiu uma carreira que aproxima frevo, maracatu, forró, ciranda, rock e poesia urbana sem tratar essas referências como uma fórmula pronta. Ao contrário, sua trajetória mostra como a cultura regional pode ganhar escala sem perder densidade.

Essa discussão ganha novo contorno com a coleção da Renner inspirada no artista para o São João. A linha reúne 23 itens e parte de dois universos visuais: um ligado ao sertão e à figura do vaqueiro, com cores terrosas e referências artesanais, e outro mais vibrante, inspirado na atmosfera das festas juninas do interior. As estampas foram desenvolvidas pelo artista pernambucano Filho de Mercúrio, enquanto algumas peças incorporam versos do repertório de Alceu.

Alceu Valença Renner

Uma das peças masculinas da coleção de Alceu Valença para Renner (Crédito: Divulgação)

 

Alceu Valença Renner

Outra peça masculina da coleção de Alceu Valença para Renner (Crédito: Divulgação)

Para o cantor, a transposição de sua obra para a moda faz sentido quando a criação preserva conceito e não reduz a cultura a uma ilustração superficial. “É muito interessante quando a música expande as suas manifestações, seja no cinema, na moda ou nas artes em geral. Um filme pode me inspirar a criar uma canção. Uma canção pode inspirar um filme. Da mesma forma acontece com a moda, sobretudo quando ela carrega conceito. Ver esse universo ganhar forma em roupas é uma maneira bonita da música continuar viajando.”

Alceu Valença Renner

Peças femininas da coleção de Alceu Valença para Renner (Crédito: Divulgação)

Alceu Valença e a relação com as marcas

A parceria com a Renner não é um ponto isolado na relação de Alceu com a publicidade. Nos últimos anos, sua obra e sua voz apareceram em campanhas de marcas como Tinder, Francis, Azul e Neoenergia, em diferentes contextos e com funções distintas: da atualização de repertório afetivo à criação de músicas originais e à comunicação de interesse público. O que une essas aproximações, na visão do artista, não é a exposição em si, mas a compatibilidade entre a marca e o que sua obra representa: “Esse é um ponto que exige atenção. Minha obra carrega ideias, valores e uma visão de mundo. Não posso me associar a marcas que estejam em conflito com aquilo em que acredito. A afinidade precisa existir”, afirma, ao explicar o processo de associação com marcas.

Em um ambiente publicitário que busca, com frequência, transformar símbolos culturais em atalhos de identificação, essa afinidade também se torna um critério para evitar caricaturas. A cultura nordestina, presente na música, no design, na moda e nas festas populares, ainda é muitas vezes tratada a partir de códigos rasos ou imagens repetidas. Para Alceu, a saída está na origem da criação: “Essência, conceito e profundidade. Quando a criação nasce de um lugar verdadeiro, ela alcança as pessoas. O regional não é pequeno. Quanto mais profunda é a raiz, mais universal ela se torna”.

Diante de um ecossistema de mídia marcado por mensagens rápidas, tendências passageiras e formatos cada vez mais fragmentados, ele afirma que não pretende moldar sua produção à lógica da velocidade.

“Parece estar na moda que as mensagens sejam cada vez mais fragmentadas. Isso pode ser um problema. Continuo preferindo o profundo ao raso. Não sigo tendências. Faço o que acredito, da forma que acredito. Talvez essa conexão com o público venha justamente daí. Não sou um produto. Sou Alceu, nascido em São Bento do Una, amante da fauna e da flora, poeta das urbes paralelas, viajante do tempo, inquieto com o coração bobo.”