OPINIÃO: RITA ALMEIDA

Mais humanidade na sala de aula

Enquanto a escola busca evoluir no digital, professores e alunos pedem mais atenção e humanidade

Rita Almeida

Head do Lab Humanidades, da AlmapBBDO 16 de julho de 2026 - 9h10

(Crédito: Shutterstock)

(Crédito: Shutterstock)

Se há algo que une as crianças e os adolescentes brasileiros é a escola. Segundo o IBGE, 95% deles estão matriculados em uma, mesmo que em condições completamente diferentes. Sabemos do abismo estrutural e das condições de vida dos alunos e professores que existe entre a escola pública e a privada. Porém, apesar dessas diferenças, em ambos os cenários podemos dizer que a escola está doente e o maior impacto está na sua saúde emocional.

Vamos olhar para este sistema e como ele está sendo afetado. Diferentes estudos demonstram que os adolescentes têm vivido um crescimento de sintomas de ansiedade e depressão na última década, fruto da transformação digital e de suas consequências, como alta exposição pessoal no universo digital e comparações estéticas e de performance que abalam a segurança e autoestima dos adolescentes brasileiros.

O que vemos é que, do outro lado da sala, os professores experimentam algo muito parecido. Se, historicamente, os principais problemas enfrentados por docentes no trabalho estavam relacionados a questões vocais, auditivas ou musculares, nos últimos 5 anos os transtornos mentais como ansiedade, depressão e síndrome de burnout já têm assumido a primeira posição como causa de afastamento de professores das salas de aula, tanto no ensino público como privado. Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2025 o Brasil ultrapassou a marca de 65 mil afastamentos de professores por questões de saúde mental apenas na rede pública. O mesmo fenômeno vem acontecendo na rede privada de ensino.

O estudo “Panorama da Saúde Mental e do Bem-Estar nas Instituições de Ensino no Brasil”, desenvolvido pelo Instituto Semesp, em parceria com a FENEP, Humus Consultoria e Happy Academy, ouviu 1.285 profissionais da educação privada em todo o país em 2025 e revelou que 46,8% dos profissionais da educação privada do ensino regular (fundamental 1 e 2 e ensino médio) apresentam algum nível de dificuldade relacionado à saúde mental no ambiente de trabalho. E as razões são diferentes.

No ensino público, pesa a sobrecarga de trabalho, a desvalorização salarial, a violência nas salas de aula, a burocracia e, especialmente, a falta de estrutura das instituições educacionais. No ambiente da escola privada, o professor passa a ser cobrado diretamente pelos pais dos alunos, que agem como clientes exigentes. Há relatos frequentes de questionamentos sobre metodologias, notas e posturas pedagógicas, gerando forte insegurança profissional.

Quase como um espelho da dor dos professores, temos a queda da saúde mental dos alunos. Tanto o estudo *“AdoRlescência” (Lab Humanidades, 2026) quanto a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) coordenada pelo IBGE (2024), revelam alto grau de ansiedade e depressão entre os adolescentes: 42,9% dos estudantes de 13 a 17 anos relatam se sentir constantemente irritados, nervosos ou mal-humorados no ambiente escolar (PeNSE). O estudo “AdoRlescência” também revela que 58% dos entrevistados relatam já ter passado por alguma crise de ansiedade ou pânico, enquanto 61% se sentem ansiosos frente à pressão social para terem sucesso escolar e profissional.

Da mesma forma, as razões para a ansiedade e depressão dos alunos são diferentes no universo da escola pública e privada. Na pública, as questões enfrentadas pelos alunos decorrem da vulnerabilidade e insegurança no presente. Já no cenário da escola privada, o adoecimento vem do excesso de cobrança pelo futuro. O jovem é bombardeado com exigências de alta performance acadêmica, como aprovação em universidades de elite, domínio de múltiplos idiomas e manutenção de status socioeconômico. Em ambos os casos, é comum o professor assumir o papel de mediador de crises de pânico e depressão dos alunos, mesmo sem treinamento para isso.

Com esse quadro, vemos que a saúde emocional da escola é um sistema: o professor está adoecido, o aluno também. E um acaba absorvendo o sofrimento do outro. Talvez o maior desafio da educação brasileira hoje não seja apenas o de ensinar melhor, mas sim de cuidar melhor de quem ensina e de quem aprende.

Em um momento histórico de transformações em todas as áreas de nossas vidas, a educação pede ajuda e atenção. Tanto os professores quanto os alunos parecem precisar de mais humanidade: de escuta, ajuda psicológica, confiança dos pais e da sociedade e de conceitos filosóficos que lhes mostrem seu lugar no mundo.

Existe ainda uma interdependência entre professores e alunos, em que o fortalecimento de um conseguirá reforçar o outro. Pelo menos é com isso que os alunos contam, quando 30% dos entrevistados pelo nosso estudo dizem ser mais confortável conversar com os professores do que com seus pais sobre assuntos pessoais. Por isso, entendo que alunos e professores podem se fortalecer individual e coletivamente, ao mesmo tempo em que ambos precisarão do apoio inconteste da sociedade adulta e de políticas públicas que tragam mais alegria e entendimento para as salas de aula.

Já imaginaram se, além dos dados de performance, as escolas também passassem a medir índices como sensação de pertencimento, de acolhimento, níveis de ansiedade e de confiança entre alunos e professores?

Durante décadas, acreditamos que uma boa escola era aquela que ensinava melhor. Hoje, talvez, precisemos ampliar essa definição. Uma boa escola continua ensinando matemática, português e ciências, mas também se torna um espaço onde alunos e professores encontram segurança para aprender, errar, conversar e pedir ajuda. Em uma sociedade marcada pela aceleração, pela comparação constante e pelo isolamento, talvez a maior inovação da educação não seja tecnológica e sim profundamente humana.