COLUNA: CLAUDIA PENTEADO

Ponto cego

Existe um cuidado que começa antes da performance e que é o único capaz de nos aproximar da melhor versão de nós mesmas

Claudia Penteado

Jornalista 29 de junho de 2026 - 8h21

(Crédito: Shutterstock)

(Crédito: Shutterstock)

Nunca fomos tão olhadas. Mas nunca fomos tão pouco vistas. Essa triste constatação brota de uma história que vivi recentemente e que decidi contar aqui, na minha estreia neste valioso espaço.

Eu andava em busca de uma dermatologista para aprofundar conversas sobre envelhecimento. Recebi uma indicação super bacana, e lá fui eu me sentar diante de uma mulher belíssima, em um elegante consultório na zona sul do Rio de Janeiro. Conversamos e ela fez uma rápida avaliação do meu rosto. Saí da consulta com uma receita para cuidados básicos com o rosto, e a indicação de alguns procedimentos de estimulação de colágeno (que ela oferece no consultório).

Retornei cerca de um mês depois. Ela checou meu rosto, trocou um ou dois produtos com os quais não me adaptei e, na nova receita, reforçou a recomendação dos procedimentos. Sua assistente passaria os preços e poderia realizar os agendamentos. A consulta foi mais rápida, interrompida pela chegada de uma cliente para fazer algum dos tais procedimentos.

Mais um gordo pix depois, saí de lá me sentindo desconfortável e decidida a não agendar uma terceira consulta. Me senti meio desencaixada e tonta, não só com os preços dos procedimentos, que finalmente chequei, mas com uma sensação de que eu estava no lugar errado. Como boa exemplar do sexo feminino, me culpei pela escolha provavelmente errada da profissional. Não sou “o tipo de cliente” desse tipo de consultório, reconheci.

Contei minha frustração para uma amiga, e recebi uma nova indicação. Pedi o contato e lá fui eu. A nova médica, sem que eu pedisse, depois de uma boa conversa, pediu para me examinar de corpo inteiro. Em instantes, veio a bomba: “você tem um câncer de pele”. Lá estava ele, um pontinho no ombro, aparentemente desimportante, mas bem visível para quem sabe olhar. Era do tipo simples de resolver, ela esclareceu, remoção rápida, no consultório, sem complicações. Dei sorte.

Agendei o procedimento para alguns dias depois. E ao sair de lá, fui tomada por um gigantesco mal-estar. Eu só conseguia pensar nas duas consultas anteriores e na estranha sensação de ter sido examinada somente no rosto por uma excelente dermatologista, recomendada e referência no que faz.

Ainda que muitas delas estejam mais focadas em procedimentos estéticos, é curioso pensar nesse tipo de conduta seletiva em um país como o Brasil, onde o câncer de pele não melanoma, como o que eu tive, é o tipo de câncer mais incidente e representa cerca de 30% de todos os tumores malignos registrados no país, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer).

A questão aqui não é condenar o desejo de se sentir melhor diante do espelho, mas constatar o que acontece quando esse desejo ocupa o lugar do (verdadeiro) cuidado.  Nessa “era do autocuidado”, em que o termo é usado indiscriminadamente, está posto que o que vivemos, na prática, é uma baita crise de cuidado.

E que fique claro: este não é um relato acusatório. A dermatologista badalada e eu estamos dentro da mesma cultura, e ambas nos deixamos levar por ela, sendo desatentas, cada uma à sua maneira. O que me levou à consulta foi também o incômodo diante do espelho, e eu joguei aquele jogo, entrando na conversa sobre procedimentos, estética, emagrecimento, encaixe em padrões.

Mas o fato é que naquelas duas consultas que fiz, senti um incômodo que eu não soube nomear de imediato, que só se desenhou completamente quando finalmente fui olhada e me senti cuidada.

O diagnóstico do câncer de pele me lembrou que alguns valores são inegociáveis em um consultório médico, seja ele qual for, de qual especialidade for. Estamos todas e todos errando barbaramente, nos descolando do verdadeiro cuidado conosco e com os outros, e do real significado de conceitos básicos como bem estar e saúde.

Sim, vivemos na sociedade do desempenho, tão bem descrita por Byung-Chul Han, que transformou o autocuidado em cobrança, em meta, em tarefa, em aperfeiçoamento. Os resultados estão escancarados em toda parte, na magreza excessiva, nas mortes durante procedimentos estéticos, no registro dos muitos problemas de saúde física e mental ocasionados pelo uso indiscriminado de recursos para promover o encaixe em padrões estéticos, na obsessão pela “harmonização” dos corpos…

Existe um cuidado que começa antes da performance e que eu acredito que é o único verdadeiramente capaz de nos aproximar da tão almejada “melhor versão de nós mesmas”. É um cuidado que começa no gesto cada vez mais raro de parar, olhar e enxergar de verdade.