Eu escolho o meu mundo e não terceirizarei isso pra ninguém
É difícil ficar imune a todos os impactos externos, mas é perfeitamente possível

(Crédito: Unsplash)
Assisti o filme Odisseia no fim de semana e, desde então, o tema me persegue: nas redes sociais, propaganda, livros — tudo a respeito desta história.
No mesmo fim de semana, vi Dois de Nós, com Antonio Fagundes e Christiane Torloni, teatro lotado, plateia de várias gerações, dois dos atores mais amados do país. E, sobre isso, silêncio absoluto nas minhas telas. A diferença não é de qualidade nem de público: é de mercado. Odisseia movimenta bilhões globalmente; uma peça de teatro, por mais lotada que esteja, não.
Segundo uma análise da Georgetown University Law, as plataformas de redes socias funcionam como “corretoras de atenção”: oferecem serviços “gratuitos” enquanto monetizam o tempo que capturam de cada usuário, vendendo esse tempo para anunciantes. O que ganha visibilidade não é o que tem mais valor cultural, mas o que gera mais retenção e mais leilões publicitários.
Um estudo sobre o algoritmo da maior plataforma de vídeos do mundo mostra que 76% dos vídeos assistidos na plataforma vêm de recomendações, não de busca ativa — ou seja, a maior parte do que consumimos não é escolhida por nós, mas por um sistema otimizado para tempo de tela (arXiv, 2025). Desde 2012, esse sistema prioriza “watch time” em vez de cliques, e o próprio estudo alerta que essa métrica também é falha: maximizar tempo de consumo não equivale a maximizar bem-estar ou satisfação de longo prazo.
Pesquisadores da UC Berkeley foram além: descobriram que sistemas de recomendação baseados em aprendizado por reforço não apenas preveem preferências, mas as moldam ativamente, empurrando o usuário para conteúdos que o tornam mais previsível e mais “engajável”, o que pode ocorrer “independentemente de isso estar alinhado com o que realmente queremos”. Ou seja, o algoritmo não reflete nossos valores, ele apenas programa nossa atenção.
Ah, mas nossa atenção não tem a ver com nossos valores? Não necessariamente. Pode ter a ver como nossos medos, por exemplo.
Esse desequilíbrio tem efeito direto na vida emocional. Cria-se a ilusão de que só é relevante o que “todo mundo” está vendo, gerando ansiedade de exclusão (o famoso “medo de ficar de fora”) e um empobrecimento sutil do próprio critério pessoal de valor.
A pesquisa sobre locus de controle — o quanto uma pessoa sente que comanda os rumos da própria vida — mostra correlação consistente entre um senso de controle interno (em vez de externo) e maior bem-estar subjetivo, menor ansiedade e mais satisfação com a vida. Quando terceirizamos nosso repertório cultural e emocional a um algoritmo, cedemos parte desse controle interno sem perceber, e isso tem custo psicológico real.
A teoria da autodeterminação, um dos modelos mais estudados sobre motivação humana, aponta que o bem-estar psicológico depende de três necessidades básicas: autonomia, competência e pertencimento.
Como manter o controle sobre a própria vida neste cenário?
O primeiro passo é reconhecer que a timeline não é o mundo, é uma vitrine editada por empresas privadas, com incentivos comerciais. Buscar ativamente o que não é sugerido — teatro, livros de autores desconhecidos, conversas fora do circuito digital — é um exercício deliberado de autonomia. Cultivar um “universo interior de valores” significa decidir, por si mesmo, o que é relevante, bonito ou importante, independentemente do volume de conteúdo que algo gera online.
Isso não exige abandonar a tecnologia, mas usá-la com consciência: diversificar fontes, buscar informação por iniciativa própria em vez de só receber, e lembrar que presença física, aplausos de pé e gerações reunidas numa sala de teatro são formas de valor que nenhum algoritmo consegue medir, e é exatamente por isso que elas continuam sendo, silenciosamente, algumas das experiências mais importantes que existem. É o que torna também uma partida de futebol tão única, inesquecível não só pelo que se passa em campo, mas também fora dele, no calor do pertencimento a uma torcida.
Esta visão cabe no mercado de trabalho também. Sou fã do modelo híbrido, porque tem dias que a gente precisa de silêncio, aprofundamento, reflexão sobre questões do trabalho que, francamente, são impossíveis no escritório, onde somos interrompidas a todo momento e onde nem sempre dá tempo de decantar informações.
Mas, não tenho dúvida alguma de que a energia criativa se faz no mundo real, nas pessoas juntas na sala, na ideia que vem e você faz um pequeno gesto de virar a cadeira pra perguntar pro seu colega se aquilo faz sentido. Os melhores brainstormings dos quais participei definitivamente não foram aqueles com um monte de rostos na telinha. É preciso estar junto, ler a postura corporal, os pequenos movimentos no rosto, movimentos dos olhos, pra entender o futuro que uma nova solução pode ter a partir de um grupo de cabeças pensantes. Penso o mesmo sobre uma mesa de negociação.
No fim, administrar a vida num mundo assim é menos sobre controlar a tecnologia e mais sobre proteger um espaço interno que ela não alcança: o critério próprio sobre o que vale a pena sentir, ver e viver. Esse espaço é o que garante que, mesmo cercados por telas que decidem por nós, ainda sejamos os decisores do que queremos ser e sentir. É difícil ficar imune a todos os impactos externos, mas é perfeitamente possível.