A Lei Maria da Penha também passa pelas marcas
20 anos depois, desafio ainda é reconhecer papel da comunicação na construção de uma sociedade mais segura para as mulheres

(Crédito: Shutterstock)
A Lei Maria da Penha mudou a maneira como o Brasil enxerga a violência doméstica. De uma questão historicamente tratada como privada, o problema virou uma responsabilidade coletiva do Estado, da Justiça e da sociedade. Mas, duas décadas depois que foi sancionada, ainda insistimos em deixar uma parte importante dessa conversa do lado de fora. Afinal, pouco se fala do papel das empresas, das marcas e da comunicação nessa equação.
Por um tempo, a violência contra a mulher foi vista como um tema para delegacias, tribunais, ONGs ou políticas públicas. Um assunto delicado, que poderia manchar reputações e mexer em um vespeiro corporativo. Hoje, não dá para ignorar que ela também chega ao escritório, à fábrica, à sala de reunião e aos indicadores de desempenho.
É a profissional que falta ao trabalho porque precisou registrar um boletim de ocorrência, a líder que perde concentração depois de uma noite de ameaças ou quem pede demissão para fugir de um agressor que conhece sua rotina.
Se você é mulher, dificilmente não viveu isso na carreira, com uma colega do time ou com alguma profissional parceira de trabalho. E, se passou por isso, possivelmente encarou o fato como tabu. Como abordar o assunto? Como “invadir” a vida pessoal de uma profissional se ela não declarou claramente o problema pelo qual passava? Ou, se passou por isso como vítima, como compartilhar isso no trabalho, se a primeira e maior dificuldade é assumir a situação para si mesma?
Os números ajudam a dimensionar essa realidade, que ainda costuma permanecer um tanto invisível. Um estudo da Universidade Federal do Ceará e do Instituto Maria da Penha mostrou que mulheres empregadas que sofreram violência doméstica faltam, em média, 18 dias ao trabalho por ano.
Mais recentemente, dados do Ministério da Previdência Social apontaram um crescimento de 313% nos afastamentos do trabalho relacionados à violência entre 2021 e 2025. Um levantamento da VR, realizado com cerca de 30 mil empresas, identificou aumento de 152% nos afastamentos de mulheres por agressão entre 2023 e 2025.
Há muito o que falar dos impactos econômicos e operacionais desse problema, até porque talvez apenas assim alguns encarem o cenário como devastador. Mas não podemos deixar de lado a dimensão humana, que transborda e muito a vida pessoal das vítimas e das pessoas ao redor dessas mulheres.
Embora os impactos desse tipo de violência sejam visíveis, o problema ainda é pouco reconhecido pelos brasileiros e, sobretudo, pelas próprias vítimas. Ao menos publicamente. E aí voltamos ao tabu em torno do tema.
Segundo dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (2025), realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), apenas 4% das brasileiras com 16 anos ou mais afirmaram espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento, o equivalente a aproximadamente 3,7 milhões de mulheres.
No entanto, quando as entrevistadas foram apresentadas a 13 situações concretas de violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial, esse percentual saltou para 33%, o equivalente a cerca de 29 milhões de brasileiras. A diferença revela que aproximadamente 24 milhões de mulheres somente reconheceram a violência após serem estimuladas a refletir sobre experiências específicas.
Outro dado que reforça o desafio da conscientização é que oito em cada dez brasileiras afirmam conhecer pouco ou nada sobre a Lei Maria da Penha.
Diante desse cenário, alguns pontos merecem atenção. Se algumas empresas já têm reconhecido a responsabilidade em acolher mulheres vítimas de violência, as marcas poderiam assumir com mais consistência o papel inevitável que têm de ajudar a construir uma cultura de conscientização que torne essa situação inaceitável.
A publicidade não deve ser encarada apenas como um espelho sociedade. Isso, ainda bem, já tem sido amplamente debatido pelo mercado. Até porque, sabemos, ela ajuda a definir comportamentos, legitimar valores e moldar imaginários. Mas, afinal, onde está a indústria nesse contexto todo?
Por um tempo, a publicidade foi, sim, exatamente espelho e reforço de diferenças e opressão. Campanhas, produtos e elementos da cultura popular reforçaram papéis rígidos de gênero, romantizaram relações abusivas, naturalizaram o ciúme como prova de amor e transformaram desigualdades em humor.
Felizmente, muita coisa mudou. O mercado amadureceu, ampliou a diversidade de narrativas e passou a retratar mulheres em posições de liderança, autonomia, protagonismo e complexidade.
Mas essa mudança ainda parece estar longe de terminar. Toda escolha de linguagem, casting, roteiro, influenciador ou de posicionamento comunica uma visão de mundo. Uma campanha ajuda a responder, mesmo sem perceber, quem pode ocupar espaços de poder, quais comportamentos são admirados e quais violências ainda podem ser toleradas.
É por isso que enfrentar a violência contra a mulher não pode ser uma pauta restrita ao RH, mas uma agenda de CEO, CMO e de toda a empresa. Não basta publicar uma campanha no Agosto Lilás se, ao longo do restante do ano, a empresa se calar diante do assédio, tolerar lideranças abusivas ou reproduzir estereótipos em sua comunicação. Os consumidores percebem a incoerência. E, cada vez mais, cobram consistência entre discurso e prática.
Tudo isso significa que não tem muita saída. É preciso criar ambientes seguros, protocolos claros de acolhimento e canais de denúncia. Mas é necessário, também, revisar narrativas, desafiar estereótipos, ampliar representações e reconhecer que comunicação é uma ferramenta de transformação social porque informa, conscientiza, cascateia intenções e impulsiona mudanças.
A Lei Maria da Penha completa 20 anos e lembra que combater a violência exige responsabilização, proteção e justiça. Cabe às empresas, então, acrescentarem essa quarta dimensão à agenda.