A IA tem CEP
Enquanto empresas discutem e investem bilhões em agentes de IA, existe uma população que descobre como usar o digital a seu favor

(Crédito: Unsplash)
O Brasil tem 167,4 milhões de pessoas com celular para uso pessoal. São quase 90% da população com 10 anos ou mais, segundo o IBGE. O número impressiona e poderia sugerir um país amplamente conectado e pronto para a próxima onda tecnológica.
Mas acesso nunca foi sinônimo de inclusão.
Por muito tempo, o debate sobre inclusão digital esteve concentrado em levar internet e dispositivos para mais pessoas. Esse desafio ainda existe, especialmente em determinadas regiões do país, mas uma nova questão se impõe: o que as pessoas conseguem fazer com a tecnologia depois que ela chega às suas mãos?
A TIC Domicílios 2024 traz uma pista importante. Cerca de 60% dos usuários de internet no Brasil acessaram a rede somente pelo celular. Nas classes D/E, esse percentual chegava a 86%. E está aí um dos paradoxos da digitalização brasileira.
Milhões de pessoas carregam no bolso um equipamento capaz de acessar praticamente todo o conhecimento disponível no mundo. Usam WhatsApp, redes sociais, aplicativos bancários, assistem a vídeos, conversam e consomem conteúdo diariamente. Mas uma parcela importante ainda não consegue transformar essa conectividade em conhecimento, produtividade, empregabilidade ou renda.
A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais urgente. Enquanto empresas discutem e investem bilhões em agentes de IA, automação e ganhos de produtividade, existe uma população que ainda está descobrindo como usar o digital a seu favor.
A IA tem CEP. E não apenas o CEP físico.
O endereço da inteligência artificial também é determinado pela escola em que alguém estudou, pela qualidade da conexão disponível, pelo equipamento que consegue acessar, pelo ambiente profissional em que está inserido e, principalmente, pelas oportunidades que teve de desenvolver repertório digital.
Por isso, duas pessoas com smartphone e acesso à mesma ferramenta de inteligência artificial podem estar em posições completamente diferentes diante dessa transformação.
Uma usa IA para pesquisar, estudar, preparar uma apresentação, melhorar um currículo, analisar informações ou aumentar a produtividade no trabalho. A outra talvez nem saiba o que perguntar, ou melhor, não sabe nem que pode perguntar.
Ambas estão conectadas, mas apenas uma está, de fato, incluída.
É nesse espaço que surge uma nova camada de vulnerabilidade digital: pessoas que têm acesso à tecnologia, mas ainda não têm conhecimento, repertório ou autonomia para transformá-la em oportunidade.
E esse fenômeno não está restrito a uma geração ou região. Pode estar entre jovens das periferias, mulheres empreendedoras no interior do país, profissionais 50+ tentando se recolocar, pequenos comerciantes e tantos outros grupos que já participam do mundo digital, mas ainda permanecem distantes da economia que está sendo construída em torno da inteligência artificial.
O vulnerável digital está em nossas casas, são familiares e normalmente estão à distância de um braço, basta olhar ao seu lado.
O risco é conhecido. Toda grande transformação tecnológica pode reduzir desigualdades ou aprofundá-las. Com a IA, a velocidade torna essa escolha ainda mais crítica.
Quem aprende a utilizá-la passa a produzir mais, acessar mais conhecimento, desenvolver novas habilidades e encontrar novas formas de trabalhar e gerar renda. Quem fica de fora não permanece simplesmente no mesmo lugar. Pode ficar ainda mais distante.
É por isso que democratizar a inteligência artificial não pode significar apenas disponibilizar ferramentas ou ensinar comandos, mas desenvolver competência e autonomia digital. Significa mostrar como a tecnologia pode resolver problemas concretos, apoiar um pequeno negócio, ampliar possibilidades profissionais, facilitar o aprendizado e gerar renda.
O Brasil já colocou o celular nas mãos de milhões de pessoas. O próximo desafio é muito maior: transformar acesso em oportunidade.
A inteligência artificial pode ser uma das maiores ferramentas de inclusão desta geração. Mas também pode se transformar em mais uma fronteira de desigualdade. Tudo depende de até onde conseguirmos fazê-la chegar.
Porque, hoje, a IA ainda tem CEP.