OPINIÃO: EMILIA RABELLO

A periferia como força propulsora do mercado editorial

Enquanto a atenção se torna o recurso mais disputado no século, a leitura passa a ser diferencial competitivo

Emilia Rabello

Fundadora e sócia da NÓS - Novo Outdoor Social 27 de agosto de 2026 - 9h10

O excesso de telas, a queda da leitura e os problemas de atenção trouxeram uma realidade cruel: a nova desigualdade do século 21 será medida pela capacidade de concentração, interpretação e pensamento crítico.

Um estudo da Universidade de Cambridge, com mais de 10 mil adolescentes, associa a leitura a prazer, melhora do vocabulário, desempenho cognitivo e capacidade de resolução de problemas. Também há uma diminuição no déficit de atenção, no estresse e nos sintomas depressivos.

Existe uma guerra silenciosa entre tela e leitura. Os dados mostram ainda que crianças de 8 a 12 anos passam 4h45 por dia em dispositivos digitais. Já os adolescentes chegam a 7h15 por dia.

Esse tempo em tela supera em até oito vezes o tempo dedicado à lição de casa. Com isso, a concentração virou um recurso escasso.

Quem conseguir desenvolver hábitos de leitura está construindo uma vantagem competitiva para a vida inteira, pois sem vocabulário, capacidade de imaginação, empatia e contrapartidas que a leitura nos oferece, nosso cérebro atrofia.

Se não fizermos nada, talvez corramos o risco de que, no futuro, nossa comunicação se resumirá a emojis.

Nesse contexto, há alguns anos sou investidora de uma plataforma que oferece um instrumento para diminuir a desigualdade cognitiva. Nela, a IA com machine learning analisa o nível léxico do texto associado ao nível de leitura da criança. A metodologia também considera os interesses pessoais do estudante para criar uma jornada de desenvolvimento personalizada do leitor para aproximar a criança dos livros.

É uma oportunidade relevante para marcas que investem em educação, empresas focadas em parentalidade e bancos com programas educacionais, porque, enquanto o mundo discute inteligência artificial, há projetos que trabalham para preservar e desenvolver a inteligência humana por meio da leitura.

Na contramão, um outro dado me encheu de esperança. Hoje, no Brasil, o maior consumidor de livros é exatamente o perfil que o mercado menos associa à leitura.

As mulheres negras e pardas representam 30% do total de consumidoras de livros e 50% das que compram esse produto. São elas, justamente, o maior grupo consumidor de livros do país.

E o mercado editorial ainda acredita e comunica a leitura como um hábito típico de classe média alta, mas o principal motor de crescimento da categoria está nas mulheres negras e pardas da classe C.

Ou seja, a periferia é target desse mercado. A classe C representa 47% dos compradores. O crescimento da leitura no Brasil está acontecendo muito mais pela ampliação da base popular do que pela elite leitora tradicional.

Enquanto a atenção se torna o recurso mais disputado no século 21, a leitura passa a ser um diferencial competitivo individual e coletivo.

Esse hábito ganha força nas mulheres negras e pardas e entre os jovens da periferia, que hoje ampliam a base leitora do país.

Quem quiser entender o futuro da educação, do consumo cultural e da formação de repertório no Brasil precisa olhar, necessariamente, para esse movimento.