OPINIÃO: KAMILA CAMILO

Como a IA redesenha o futuro do trabalho no Brasil

Com a inteligência artificial, o que deveria ser oportunidade pode aprofundar desigualdades

Kamila Camilo

Empreendedora social, ativista e fundadora da Creators Academy 6 de agosto de 2026 - 8h49

(Crédito: Shutterstock)

(Crédito: Shutterstock)

Desde 2023 eu não me sentia tão pressionada a dominar uma nova tecnologia que parece mudar diariamente. Todos os dias somos bombardeados pelos “so called” especialistas com cursos online tipo “10 passos para dominar a IA: domine prompt engineering em 5 dias”.

O fato é que eu hoje posso acessar esse universo que muda o tempo todo, mas não é assim para todo mundo. Ferramentas de automação, assistentes virtuais e sistemas de análise preditiva já reorganizam processos em setores como saúde, indústria, comércio, educação e serviços públicos. Esse movimento traz ganhos evidentes de produtividade e inovação, mas também levanta uma questão central para países como o Brasil: quem vai realmente se beneficiar dessa transformação, e quem ficará para trás?

Temos acompanhado de forma acelerada que a presença da IA para o trabalho não está apenas na automação de tarefas repetitivas, mas na criação de novas formas de produzir valor. Profissões inteiras estão sendo redesenhadas. A medicina usa IA para apoiar diagnósticos, advogados para analisar contratos, professores para personalizar o ensino, agricultores para otimizar colheitas. Ao mesmo tempo, surgem funções que praticamente não existiam há uma década, como especialistas em prompts, auditores de algoritmos e analistas de dados aplicados a contextos específicos.

Esse cenário sugere um mercado de trabalho mais dinâmico, mas também mais exigente em termos de capacitação contínua. A vantagem competitiva, cada vez mais, não estará em saber operar uma ferramenta específica, e sim em ter a capacidade de aprender rapidamente a usar novas tecnologias à medida que elas surgem.

É nesse ponto que emerge o maior desafio brasileiro. A capacidade de aproveitar as oportunidades geradas pela IA depende diretamente de um recurso que está distribuído de forma muito desigual no país: a literacia digital.

Dados de pesquisas como o TIC Domicílios, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, mostram há anos que o acesso à internet não é sinônimo de uso qualificado da tecnologia. Milhões de brasileiros têm acesso limitado a smartphones com conexão instável, pouca ou nenhuma familiaridade com ferramentas digitais mais complexas, e níveis de letramento digital insuficientes para tirar proveito de sistemas baseados em IA. Essa realidade é ainda mais grave entre populações de baixa renda, moradores de áreas rurais, pessoas mais velhas e quem teve acesso limitado à educação formal.

O resultado é um efeito de dupla exclusão. Por um lado, empregos tradicionais tendem a ser automatizados ou reconfigurados por sistemas de IA. Por outro, os novos empregos que essa mesma tecnologia cria exigem justamente as competências que boa parte da população não teve oportunidade de desenvolver. Sem intervenção, o mercado de trabalho do futuro corre o risco de se tornar ainda mais concentrado entre quem já parte de uma posição privilegiada em termos de educação, renda e acesso à tecnologia.

Literacia digital como condição de cidadania

Falar em literacia digital não significa apenas saber usar aplicativos. Envolve compreender como sistemas automatizados tomam decisões, ter noção crítica sobre dados e privacidade, saber pesquisar e validar informações, e conseguir se adaptar a interfaces e ferramentas em constante mudança. Sem essas competências básicas, a pessoa não consegue competir por vagas que hoje já exigem, mesmo em níveis operacionais, alguma interação com sistemas inteligentes.

Isso transforma a literacia digital em uma questão de cidadania econômica. Não se trata de empregabilidade individual, mas da capacidade de um país inteiro participar da economia digital de forma equilibrada. Quando grandes parcelas da população ficam de fora dessa transição, o efeito é social, mas também econômico. Perde-se potencial produtivo, inovação e consumo.

Reverter essa tendência exige ação coordenada em várias frentes:

Educação básica e de adultos: Incluir letramento digital e noções sobre IA desde o ensino fundamental, e criar programas de requalificação para adultos que já estão no mercado de trabalho, especialmente em setores mais vulneráveis à automação.

Infraestrutura de acesso: Investir em conectividade de qualidade em regiões periféricas e rurais, já que sem internet estável não há como desenvolver competências digitais de forma consistente.

Políticas públicas de requalificação: Programas voltados a trabalhadores de setores impactados pela automação, com foco em transições de carreira realistas, não apenas em cursos genéricos de informática.

Parcerias entre setor público, empresas e organizações sociais: Iniciativas que aproximem o poder público de empresas de tecnologia e do terceiro setor podem escalar programas de capacitação de forma mais rápida do que ações isoladas do Estado.

Design inclusivo de ferramentas de IA: Empresas que desenvolvem essas tecnologias também têm responsabilidade em criar interfaces mais acessíveis e intuitivas, reduzindo a barreira de entrada para usuários com menor familiaridade digital.

O Autonom.IA, iniciativa conjunta do Instituto Oyá e da Somas, nasce como resposta direta ao problema exposto acima. Se a IA amplia oportunidades apenas para quem já tem acesso e repertório digital, é preciso agir onde a exclusão é mais profunda. O programa irá formar jovens de 14 a 18 anos, estudantes de escola pública em São Paulo e no Rio de Janeiro, com prioridade para comunidades indígenas e quilombolas, para que usem a inteligência artificial de forma crítica, criativa e autônoma, e não apenas como espectadores de uma revolução tecnológica que os ignora.

A proposta parte da tese que IA pode ser ferramenta de autonomia, além de ameaça, e o melhor caminho para evitar que ela aprofunde desigualdades é colocar justamente os jovens periféricos no centro da inovação.

Na prática, a iniciativa oferece uma formação híbrida e gratuita. São dois encontros presenciais (abertura e encerramento), quatro módulos virtuais síncronos com especialistas, licença individual de ferramenta de IA durante todo o programa, material didático completo e suporte contínuo via canal digital.

Cada participante desenvolve um projeto autoral aplicando IA ao próprio território e cotidiano, recebendo ao final certificado do Instituto Oyá e da Somas e integração a uma rede nacional de jovens multiplicadores. O modelo já foi validado em um piloto no Amazonas, que impactou mais de 150 jovens em 15 comunidades, e agora chega a São Paulo e ao Rio de Janeiro com estrutura ampliada.

A inteligência artificial representa, sem dúvida, uma das transformações mais relevantes para o mercado de trabalho nas próximas décadas. Mas seu impacto não será neutro. Sem investimento consistente em literacia digital e educação, a IA corre o risco de aprofundar desigualdades já existentes na sociedade brasileira, criando um mercado de trabalho dividido entre quem domina as novas ferramentas e quem é excluído delas.

Garantir que essa tecnologia amplie oportunidades, em vez de concentrá-las ainda mais, é um dos principais desafios de política pública e de responsabilidade corporativa da próxima década.