O talento que começa na periferia
A trajetória de Lamine Yamal inspira uma reflexão sobre o papel das marcas no desenvolvimento dos talentos que surgem nas periferias

Lamine Yamal (Crédito: Hector Vivas)
Na final da Copa de 2026, a Espanha bateu a Argentina por 1 a 0 na prorrogação e se consagrou bicampeã mundial no MetLife Stadium. Mas o resultado no placar conta só metade da história. A outra metade começou décadas atrás, num bairro periférico de Mataró, na região metropolitana de Barcelona, chamado Rocafonda. Foi lá que o protagonista Lamine Yamal cresceu, filho de um pintor de prédios marroquino e de uma garçonete equato-guineense. Chegou às categorias de base do Barcelona aos 7 anos e subiu mais rápido do que qualquer outro jogador do clube.
A carreira de sucesso foi meteórica. Estreou no time principal aos 15 anos. Depois veio a Eurocopa de 2024 com o prêmio de melhor jovem do torneio, e agora se destacou na Copa do Mundo de 2026, com apenas 19 anos de idade, e contra o time do ídolo que o inspirou. O futebol é disparado o maior ponto de contato cultural que existe. São mais de 4 bilhões de fãs e praticantes, quase metade da população mundial, distribuída por mais de 150 países. Nenhuma outra manifestação cultural, nenhuma plataforma digital, nenhuma religião organizada alcança tanta gente ao mesmo tempo.
As marcas sabem disso e pagam caro para estarem dentro dessa conversa. Os 16 pacotes de patrocínio global da Copa do Mundo de 2026 se esgotaram, e a FIFA projeta arrecadar entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3 bilhões só com marketing e patrocínio dentro de um ciclo comercial que passa de US$ 11 bilhões entre 2023 e 2026. E isso é só a ponta: Estima-se que as marcas gastem até cinco vezes mais em publicidade e ativações do que pagam pelas cotas oficiais. Parte desse investimento sai da tela e vai para as ruas, inclusive para dentro das periferias.
A Coca-Cola, patrocinadora máster da FIFA desde 1978, apostou em diferentes ações dentro da campanha global “Feel It All” e uma das ativações foi pintar mil metros lineares de ruas em favelas de cinco estados brasileiros. Foram mais de 40 pessoas mobilizadas em cada uma dessas ruas. A Powerade, sua marca irmã, por sua vez, escolheu a Rua Clara Nunes, mais conhecida como a Rua da Portela, no Rio de Janeiro, também para uma intervenção de pintura de rua, um ritual que já é tradição em bairros e comunidades periféricas antes de cada Copa. Foram mais de 170 metros de comprimento que envolveram quase 50 moradores.
São ações criativas, bem produzidas, com números grandes. Mas vale a pergunta que fica depois que a festa passa: para além de estar na rua e fazer o torcedor sentir a Copa, quantas apoiam a quadra de várzea, o campinho de terra, a escolinha de bairro que produz os novos talentos e que faz o Brasil inteiro brilhar com eles? Em 2017, Barack Obama esteve no Brasil em um evento empresarial em São Paulo, e uma fala dele ecoa até hoje: “talvez, em algum lugar na favela tenha uma criança capaz de curar o câncer”. Ele defendeu que o intelecto e a genialidade estão distribuídos igualmente pelo mundo, independentemente de classe social, raça ou país, porém, as oportunidades não estão.
Obama explicou que “quando um país deixa de investir em periferias ou favelas, ele está sufocando talentos”. Estatisticamente, a mente brilhante capaz de inventar uma tecnologia revolucionária pode estar nascendo em uma periferia agora. Se essa criança não receber uma educação de qualidade, a humanidade inteira perderá essa descoberta.
A história de Lamine Yamal prova o mesmo ponto pelo lado do futebol. Rocafonda não é diferente de qualquer periferia brasileira ou do mundo, é território que produz talento em abundância e recebe investimento em escassez. A diferença, no caso dele, foi que o “Barça” apostou cedo. As perguntas neste momento para as marcas são: se o futebol já é a maior vitrine do planeta, e elas já sabem disso ao ponto de investirem cotas bilionárias por que não ampliar o patrocínio antes do gol? E será mesmo que as periferias só exportam talentos esportivos? Decidir investir em ações educacionais é, com certeza, entrar numa conversa ainda pouco explorada, e para além do ROI, é entregar um benefício duradouro para toda a comunidade.