O tesouro que entregamos antes de saber o que valia
A omissão estratégica por trás do contrato de 15 anos que compromete a inserção do Brasil na transição energética global

Extração de elementos para fabricação de imãs usados em veículos elétricos em Minaçu, Goiás (Crédito: Divulgação)
Existe uma cena que me persegue quando penso no Brasil de 2026: um país que passou anos afirmando sua soberania sobre a Amazônia, sobre seus recursos naturais, sobre o direito de decidir seu próprio futuro e que, quase em silêncio, o Brasil permitiu a assinatura de um contrato de exclusividade de 15 anos para exportar terras raras aos Estados Unidos.
Quinze anos. Exclusividade. Não é um detalhe geopolítico menor. É uma decisão que vai definir quem somos como nação nas próximas duas décadas.
O que são terras raras e por que todo mundo as quer
Terras raras são um grupo de 17 elementos metálicos essenciais para a fabricação de quase tudo que define a economia do século XXI: baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, semicondutores, sistemas de defesa, smartphones. Sem elas, a chamada transição energética simplesmente não acontece nos moldes que os países ricos estão planejando.
O Brasil tem uma das maiores reservas do mundo. Isso, em tese, deveria ser uma posição de enorme poder de barganha num momento em que a disputa por esses minerais está no centro das tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China.
Em vez disso, ao que tudo indica, optamos por uma posição de fornecedor exclusivo e de longo prazo, antes mesmo de estabelecer as condições para que essa riqueza se converta em desenvolvimento industrial, tecnológico e social no próprio país.
Para entender o peso desse contrato, é preciso entender o contexto em que ele foi assinado. Os Estados Unidos, sob a gestão Trump, estão em plena guerra comercial e tecnológica com a China, que concentra a maior parte da capacidade mundial de processamento de terras raras, respondendo por 70% do volume global e 90% do refino mundial dos minerais, segundo Agência Internacional de Energia (IEA). A estratégia americana é clara: reduzir dependência chinesa, diversificar fornecedores, garantir cadeias de suprimento seguras para suas indústrias estratégicas.
O Brasil, nesse tabuleiro, é uma peça valiosa. Talvez uma das mais valiosas. E quando você é uma peça valiosa num jogo de grandes potências, a decisão sobre como se posicionar define muito mais do que um contrato de exportação, mas o tipo de inserção internacional que o país terá por uma geração inteira.
O que me preocupa não é a parceria com os Estados Unidos em si. É a exclusividade. É o prazo. É a ausência, pelo menos no que chegou ao debate público, de qualquer exigência de transferência tecnológica, industrialização no território nacional ou participação nas cadeias de valor agregado.
Estamos exportando minério bruto enquanto outros países processam, fabricam e lucram com o produto final. Isso tem um nome que o Brasil conhece bem da sua história: reprimarização.
O mais desconcertante nessa história é o silêncio de setores que, até pouco tempo atrás, faziam da soberania sobre os recursos naturais uma bandeira central. O governo federal sinalizou, em diferentes momentos, que não abriria mão do controle estratégico sobre os minerais críticos brasileiros. Havia uma narrativa em construção sobre o Brasil como protagonista da transição energética global, não como fornecedor de matéria-prima, mas como produtor de soluções, de tecnologia, de valor.
O que levou a essa decisão? Quais foram as condições negociadas? Quem participou desse processo? São perguntas que o debate público ainda não respondeu adequadamente.
Transição energética para quem?
O Brasil é um dos países mais vulneráveis às consequências da crise climática. Eventos extremos, seca, desmatamento, perda de biodiversidade, tudo isso já é realidade cotidiana para milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres e os povos que vivem nos territórios onde essas riquezas minerais estão enterradas.
E ao mesmo tempo, os minerais que o Brasil possui são exatamente aqueles necessários para a transição energética que poderia mitigar essa mesma crise. Isso deveria nos dar protagonismo. Deveria nos dar voz nas decisões sobre como essa transição vai acontecer e para quem ela vai servir.
Em vez disso, corremos o risco de repetir um padrão que a história econômica brasileira conhece de cor: ser o país que fornece a matéria-prima para que outros construam o futuro, e receber, em troca, uma fração do valor que essa matéria-prima vai gerar.
A transição energética vai acontecer. A questão é se o Brasil vai estar do lado de quem decide como ela acontece, ou do lado de quem extrai o que outros precisam para decidir.
Essa resposta, infelizmente, parece estar sendo dada antes que a pergunta tenha sido feita em público.