OPINIÃO: JULIANA NASCIMENTO

Os Kennedys e os roteiros invisíveis

Como é possível que uma família de presidentes, senadores e governadores não tenha produzido uma grande líder política?

Juliana Nascimento

Chief revenue officer do Brivia_Group 23 de junho de 2026 - 15h45

Estamos em ano de eleições. E se tem uma coisa que é unânime nas conversas que tenho, é que ninguém está satisfeito com a paisagem que se descortina à nossa frente, não importa a orientação política. 

Coincidência ou não, 2026 trouxe de volta aos streamings a história da Família Kennedy. Entre vitórias e tragédias, a família que mais perto chega da “realeza” nos Estados Unidos voltou à baila com a série Love Story, que recapitula a história de amor de John Kennedy Jr. e Carolyn Bessette. 

O que eu achei mais interessante na série, no entanto, não foi o romance. Foi observar as mulheres da família e sua astúcia, visão estratégica e visão política. 

Jackie, Ethel e Caroline são mulheres inteligentes, articuladas, profundamente interessadas em assuntos públicos e com acesso privilegiado aos bastidores do poder. E, ainda assim, nenhuma delas seguiu o caminho percorrido pelos homens da família, o de serem políticos eleitos. Como é possível que uma família que produziu presidentes, senadores, procuradores-gerais, candidatos presidenciais e governadores nunca tenha produzido uma grande líder política eleita entre suas mulheres?

A explicação mais fácil seria recorrer aos costumes da época; eles certamente importam. Jacqueline tornou-se primeira-dama em uma América que ainda enxergava a política como um território essencialmente masculino. Ethel dedicou décadas à construção e preservação de um legado político. 

(Crédito: Divulgação)

Cena de Love Story, nova série que recapitula a história de amor de John Kennedy Jr. e Carolyn Bessette (Crédito: Divulgação)

Caroline cresceu cercada por presidentes, senadores, campanhas, discursos e decisões que ajudaram a moldar os Estados Unidos. Filha de um presidente, formada em Direito, respeitada dentro e fora do Partido Democrata, ela dedicou grande parte da vida ao serviço público, mas em outra instância: a diplomacia, terreno onde habilidades historicamente associadas às mulheres como sensibilidade, mediação, construção de consenso, leitura de contexto parecem mais familiares.

Coloque nesta lista Madeleine Albright e Condoleeza Rice e a gente entende: a sociedade americana parecia estar mais confortável vendo mulheres representarem ou explicarem o país do que serem as governantes dele.

Mas voltemos aos Kennedys por um instante, e ampliemos o nosso olhar. Não foram só as mulheres as premiadas com “roteiros invisíveis” ou expectativas herdadas sobre o que deveriam ser. Caroline Kennedy e John Kennedy Jr. carregavam o mesmo sobrenome, a mesma herança familiar e o mesmo acesso aos círculos de poder. Mas não carregavam o mesmo roteiro.

Os homens Kennedy herdaram a obrigação de liderar. Durante décadas, John Jr. foi tratado pela imprensa americana como um futuro presidente. Um herdeiro natural da dinastia. Um homem destinado a ocupar o palco principal da política americana. Sua eventual entrada na vida eleitoral era discutida muito antes de acontecer, quase à sua revelia. Mesmo depois que ficou claro que ele estava construindo outros caminhos.

Caroline, por outro lado, raramente foi observada sob a mesma lente. Sua inteligência, sua formação e sua capacidade eram reconhecidas. Mas a expectativa coletiva parecia diferente. Enquanto um herdava o direito — ou talvez a obrigação — de liderar, a outra herdava a responsabilidade de preservar o legado.

Os dois receberam uma herança, mas não receberam as mesmas expectativas.

Agora, pensem comigo: o que teria acontecido se Caroline Kennedy tivesse sido incentivada a disputar a presidência com a mesma intensidade com que John Kennedy Jr. foi incentivado a fazê-lo?

Faço a pergunta para fazer um ponto: os roteiros invisíveis raramente anunciam sua presença. Eles operam em silêncio, moldando ambições, definindo horizontes e delimitando aquilo que cada pessoa considera possível para si mesma.

A verdadeira questão aqui é: quantos outros roteiros invisíveis continuam em circulação ao nosso redor? Porque os que conseguimos enxergar são os primeiros que podemos desconstruir.