OPINIÃO: BRISA VICENTE

Por que eu crio?

Ser jurada em Cannes já é enorme, mas ocupar esse espaço sem ser do departamento de criação torna tudo mais significativo

Brisa Vicente

Co-CEO da Droga5 São Paulo 19 de junho de 2026 - 9h11

(Crédito: Shutterstock)

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Este ano estou vivendo um sonho duplo.

Honestamente, não tenho pretensão nenhuma de segurar a emoção de estar embarcando para o Festival de Cannes nesta semana com a responsabilidade de compor o Júri de Brand Experience & Activation. Ser jurada em Cannes já seria algo enorme, mas ocupar esse espaço sem nunca ter feito parte oficialmente de um departamento de criação torna tudo ainda mais significativo.

Minha trajetória foi outra. Fui produtora, gerente de projetos, atendimento, operações, até chegar à posição de CEO. Trabalhei com dezenas de clientes, centenas de projetos. Coloquei muita coisa na rua, complexa, difícil, incrível (e outras nem tanto, como acontece com todo mundo). Fiz muita coisa na vida, mas nunca fui “criativa”, pelo menos não na definição tradicional do mercado.

E é aqui que está o ponto. Eu não sou uma pessoa da criação. Mas sou, sim, uma pessoa que cria.

Crio porque, desde o início da minha carreira, sempre busquei formas mais inteligentes, eficientes e inovadoras de resolver problemas. Provoquei clientes, questionei modelos, participei de inúmeras discussões sobre o que realmente faz uma ideia funcionar para a marca, para o negócio, para as pessoas, para a cultura.

Crio porque fui atrás de repertório. Porque estudei a indústria. Tive orgulho de ideias fodas, inveja das ideias fodas dos amigos, fui ad nerd para olhar anuários de criação, cases memoráveis, boa propaganda. Porque passei horas, muitas horas, desenvolvendo ideias ao lado de parceiros criativos incríveis (e foram muitos dos mais talentosos deste mercado).

Crio porque consigo conectar estratégia, negócio e sociedade. Porque entendo como marcas se relacionam com pessoas. Porque conheço a execução de perto, o trabalho de um bom craft, o esmero na escolha dos parceiros e canais, o que transforma uma ideia promissora em algo relevante de verdade.

Por isso, esse momento é tão simbólico. Porque, pela primeira vez, estarei oficialmente neste lugar, sentada ao lado de criativos, com o mesmo protagonismo e voz, no palco mais importante da nossa indústria, que é o Festival de Cannes. Representando atendimentos, gerentes de projetos, produtores e profissionais criativos que não tiveram ainda a oportunidade de ocupar este espaço.

E isso não é por acaso.

Essa sempre foi a visão que guiou tudo que construímos na Soko (e que seguimos na Droga5): que a criatividade não pertence a um departamento, ela pertence a todos. Nossa metodologia é pautada na colaboração de todas as áreas de agências juntas para uma única missão: responder ao desafio do cliente de forma criativa e que gere impacto para as pessoas e para o negócio.

Todos precisam ter repertório. Opinião. Coragem para defender uma boa ideia e para questionar o que não acreditam. Porque, no fim, independentemente da cadeira, todos nós que vivemos nesta indústria temos vocação para criar.

E quando isso acontece, o trabalho muda. Fica mais real. Mais forte. Mais vivo. E, por que não, mais premiável também.

Espero ver trabalhos incríveis e ter trocas maravilhosas, mas espero mais ainda que este seja só o começo para que mais profissionais com a minha trajetória em agências também vivam este sonho.