O que significam os IPOs da SpaceX, OpenAI e Anthropic?
Especialistas analisam como a abertura de capital de big techs pode redefinir a percepção de investidores sobre marca, liderança e geração de valor

Funcionários da SpaceX celebram o fechamento do mercado após a oferta pública inicial (IPO) da empresa no Nasdaq (Crédito: Spencer Platt/Getty Images)
A oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da SpaceX, empresa de Elon Musk, que aconteceu na última sexta-feira, 12, foi a maior abertura de capital já registrada no mercado mundial.
A operação movimentou US$ 85,7 bilhões nos Estados Unidos após os bancos coordenadores venderem o lote suplementar de ações — recurso conhecido no mercado como “greenshoe”.
Na sua estreia na bolsa de valores Nasdaq, as ações da SpaceX subiram 19%, elevando o valor de mercado da companhia para mais de US$ 2 trilhões e transformando Musk no primeiro trilionário do mundo.
O maior IPO da história traz euforia para o mercado financeiro, que também aguarda movimentos semelhantes da OpenAI, que no último dia 9 protocolou um pedido de oferta pública inicial confidencial, e da Anthropic, que, em sua mais recente rodada de investimentos, arrecadou US$ 65 bilhões, superando a OpenAI em valor de mercado.
Com os pedidos de abertura de capital, essas organizações deixam de ser apenas referências em inovação para assumir posições estratégicas no cenário financeiro. Dessa forma, esse movimento levanta questões sobre como a imagem dessas marcas será reavaliada por um novo público: os investidores.
Ana Couto, CEO da agência anacouto, LAJE, Valometry e É, Faz&Fala, ressalta que, se antes essas organizações operavam centradas em usuários, talentos e parceiros, agora precisam convencer o mercado financeiro, que lê com precisão os seus movimentos estratégicos, sobre sua solidez. “Um IPO não é apenas um evento financeiro. É um momento de exposição total do negócio, da visão de mundo ao modelo de geração de valor”, frisa.

OpenAI protocola pedido confidencial de IPO
Empresas líderes
Diferentemente da bolha da internet nos anos 2000, quando havia muita promessa e pouca monetização, o atual “boom” da inteligência artificial — um dos principais ativos da OpenAI e da Anthropic, por exemplo — é sustentado justamente por big techs que já possuem lucratividade, escala global e demanda real, conforme observa Rodrigo Torres, CFO e Investor Relations Officer da Quality Digital.
“Estamos diante de uma tecnologia que já demonstra capacidade real de transformar operações, reduzir custos, incrementar receitas e abrir novos modelos de negócios. Isso diferencia esse momento de ciclos anteriores puramente especulativos”, argumenta o executivo, ressaltando que essas big techs já tiveram um grande ajuste de preço ao longo deste ano e que o racional delas é continuar investindo. “Por isso estão indo a mercado para obter mais recursos para P&D.”
No entanto, no pós-IPO, a valorização contínua das ações dessas empresas não dependerá do investimento delas em marketing ou performance, segundo Ana Couto, mas da clareza estratégica e da capacidade de manter a relevância sob a pressão por resultados trimestrais. “Marcas com identidade clara e reputação construída encontram mercados mais receptivos, talentos mais atraídos e parceiros mais dispostos a apostar junto”, salienta a executiva.
Desafios de reputação
Para estabelecer uma identidade clara e fortalecer sua reputação, cada uma dessas big tech enfrenta desafios distintos. Na visão de Ana Couto, o IPO da SpaceX será um teste para entender se a companhia pode se tornar maior do que seu fundador, Elon Musk, aos olhos do mercado. “Quando o líder é a marca, a empresa herda tudo que ele carrega: as entregas e as ressalvas.”
Por sua vez, Ana ressalta que, apesar do sucesso do ChatGPT, atualmente a OpenAI está em um momento de identidade em disputa, porque, ao longo do caminho, mudou de estrutura, liderança e modelo de negócio. Quando a pressão por lucratividade surgir, o mercado, na visão da executiva, procurará por respostas sobre quem é a organização por trás do ChatGPT.
Apesar de mais nova, a Anthropic é, paradoxalmente, a mais articulada em termos de posicionamento, na visão de Ana. Isso porque, segundo ela, o ecossistema que a companhia está construindo, com parceiros, APIs, integrações, presença em empresas de todos os setores, é branding de arquitetura. “Das três, a Anthropic entra nessa conversa com o argumento mais coerente. O desafio é escalar essa coerência na mesma velocidade que escala o produto.”
No momento em que uma empresa de tecnologia abre o capital, Ana destaca que ela precisa manter-se fiel ao que é, faz e fala para sustentar seu valor de marca, ao mesmo tempo em que deve demonstrar a previsibilidade que o mercado financeiro exige. “As organizações que tratam essas duas forças como opostas correm o risco de fragmentar suas estratégias e perder espaço num mercado altamente competitivo”, complementa.
Além de buscar inovar e melhorar seus produtos, essas empresas precisam do que Ana chama de “estratégia on-the-go”, ou seja, a capacidade de ajustar o posicionamento em movimento, sem perder sua identidade.
Neste contexto, Ana enfatiza ainda que marcas que abrem o capital correm o risco de passar pelo que aconteceu com a Kodak há alguns anos, que percebeu a mudança e tinha capacidade de reação, mas concentrou suas apostas numa lógica de valor que já estava migrando de lugar. “Produto cria admiração. Coerência cria confiança. E no mercado de capitais, o que sustenta valor ao longo do tempo é a segunda, não a primeira”, frisa.
É legítimo o interesse dos investidores pela IA, dada sua capacidade de transformar operações e reduzir custos. No entanto, Torres reforça que o mercado será implacável com empresas menores que tentarem “surfar a onda” com valuations descolados de receita recorrente e modelos de negócio ainda em maturação.
Para o executivo, o que vai separar as empresas que sustentam esse crescimento das que não sustentam é exatamente a capacidade de converter IA em resultado mensurável, ou seja, receita, margem e eficiência.
Neste contexto, a única coisa que o IPO vai revelar, na visão de Ana, é que o mercado financeiro não precifica só o que a tecnologia faz hoje, mas a clareza sobre o que a organização é, para onde vai e quanto disso depende de uma pessoa, de um momento ou de uma narrativa que ainda precisa ser provada.
