OPINIÃO: ISABELA CASTILHO

IA nenhuma resolve o que você não sabe fazer

A frustração entre expectativa e realidade no uso profissional da inteligência artificial.

Isabela Castilho

CEO da Rocketseat 16 de junho de 2026 - 14h53

Não é um problema que só você passa. O mercado global está vivendo uma obsessão pela adoção de novas ferramentas, especialmente quando o assunto é inteligência artificial. Sendo sincera, muitos não se importam sequer com o quanto ela realmente melhora a sua rotina, basta saber que você, assim como todos os outros, estão usando também. 

Enquanto você finge, é o seu tempo que fica na mesa e, mais do que nunca, tempo é valioso. Esse é o grande desperdício que o mercado comete em relação a uma tecnologia tão poderosa e acessível.

Acontece que com esse comportamento, a produtividade continua estagnada. Você criou algo com a IA, mas não necessariamente ela resolveu um problema seu. E isso não é só impressão. Hoje, segundo a Ernst & Young (EY), apenas 5% dos profissionais usam IA de forma avançada, enquanto os outros 95% seguem interagindo com chats como um novo Google para perguntas simples, criando relatórios básicos e solicitando resumos. 

Vejo isso acontecendo em todos os lugares, desde grandes empresas, até empreendedores autônomos, e especialmente com profissionais que acompanho em comunidades e redes sociais. 

O problema não é a falta de tecnologia disponível – talvez a abundância de opções tenha mais impacto que isso. É a incapacidade dos profissionais de mapear a própria rotina com clareza, e entender o que, de fato, pode ser resolvido ou apoiado pela IA.

Vejo líderes e equipes esbarrando constantemente no “primeiro passo”. Eles têm a ferramenta em mãos, muitas delas com planos caros, mas não sabem o que automatizar ou como melhorar o fluxo de trabalho.

O erro comum é tentar encaixar a IA no caos. Tentar resolver algo pelo final, não pelo início.

Se você não quer ser mais uma pessoa desperdiçando um uso potencial, precisa dar um passo atrás e olhar para a sua própria rotina com intenção. Só assim vai mudar o impacto do resultado que está tendo hoje e aprender a usar IA com impacto de verdade.

Para quem trabalha com tecnologia, quebrar problemas em etapas é um reflexo automático. Nós identificamos os gargalos e os desafios de forma instintiva. Calculamos se a energia da automação vale o retorno quase intuitivamente. 

Essa “cabeça de tecnologia” ainda é um ativo raro em profissionais de áreas não-técnicas. Mas é uma habilidade que você pode começar a dominar agora, independente do seu cargo.

Minha regra pessoal é pragmática e direta. Se eu precisei fazer a mesma coisa duas vezes, sei que aquilo deve ser facilitado pela IA. Eu me recuso a começar do zero novamente. Identifico a repetição, estruturo um arquivo de instruções específico, defino regras rígidas para o que deve ser entregue e passo essa demanda para uma ferramenta adequada.

Transformo meu método em um ativo digital que a máquina executa com precisão. O segredo do sucesso não é saber programar linhas de código, porque de fato não é necessário mexer nos detalhes por baixo dos panos. Pensar com a mentalidade de quem gerencia sistemas todos os dias, isso sim vai ser um diferencial. 

Cada tarefa é uma sequência de passos lógicos. 

A vantagem competitiva não pertence a quem tem acesso à ferramenta mais cara. Ela pertence a quem tem a clareza para desenhar o processo. A máquina apenas acelera a execução da sua lógica. Se você não consegue descrever o que faz, você está apenas reagindo ao trabalho.

E se você não souber o que fazer, nunca vai conseguir criar uma solução com a IA.

É hora de pararmos de tratar a IA como uma solução mágica. Precisamos tratá-la como engenharia de processos aplicada ao cotidiano. O seu time está apenas “usando” a IA ou está construindo um inventário de competências automatizáveis?