Como os conhecimentos ancestrais determinam nossa identidade
Por que gêneros com base em ritmos tradicionais, como samba, axé e funk, são os mais consumidos no mundo

Hilária Batista de Almeida, ou Tia Ciata, a ialorixá considerada mãe do samba, que viveu entre 1854 e 1924 (Crédito: Reprodução)
Muito antes de algoritmos preverem tendências, plataformas de streaming distribuírem hits globais e inteligências artificiais sugerirem acordes como estamos acostumados, já existia uma tecnologia viva, com gestos, técnicas e saberes transmitidos de geração para geração. Diria que é algo como um código não escrito, porém muito sofisticado: o saber ancestral.
Quando ouvimos um tambor de maracatu, um canto de jongo ou a cadência de um samba de raiz, estamos diante de sistemas rítmicos, sociais e espirituais que nasceram de matrizes africanas, indígenas e populares. Esses saberes não são apenas “influências culturais”, são fundamentos que foram desenvolvidos muito antes de qualquer estúdio, gravadora ou lógica de mercado.
O próprio samba, celebrado como símbolo nacional, traz em sua origem práticas comunitárias de resistência. Nas rodas lideradas por Tia Ciata, no início do século 20, no Rio de Janeiro, a ialorixá sustentava a comunidade, preservando a cultura negra em uma época muito difícil para a cultura popular, onde existia a perseguição ao batuque. Elza Soares também cantou sobre racismo, violência doméstica e desigualdade social quando poucos tinham coragem.
Elas e tantas outras vozes do samba, como Jovelina Pérola Negra, Aparecida, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus também carregam em suas composições conhecimentos dos nossos antepassados — saberes esses que, mais tarde, a indústria da música tentaria fragmentar em produtos, gêneros e categorias vendáveis. Porém, existe algo nesse meio que não é fácil de empacotar e vender: o processo criativo.
Enquanto a lógica contemporânea valoriza a velocidade, a escala e a previsibilidade, o saber ancestral opera em outra frequência. Ele é baseado em repetição, escuta, memória e na presença. Não se aprende a dançar jongo em um tutorial de YouTube, assim como não se acessa o fundamento de um ponto de Candomblé via streaming. Esses conhecimentos pedem um “tempo próprio” para a convivência, a iniciação, a troca e o pertencimento.
Esse jeito peculiar de fazer música não é uma negação à tecnologia. Pelo contrário! A música brasileira sempre foi híbrida, desde o Tropicalismo, na década de 60, com a mistura de elementos da cultura popular brasileira à influências estrangeiras, utilizando a antropofagia para criar uma identidade nacional moderna e criticar a ditadura militar.
Exemplos contemporâneos que também incorporam referências ancestrais em suas obras são artistas como Luedji Luna, Xênia França e BaianaSystem, que reativam modos de criação e desafiam a lógica industrial, trazendo um olhar para o território, memória e coletividade.
A prova viva de que os saberes ancestrais seguem dando a toada para a indústria musical até os dias de hoje é que, este ano, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) apontou o Brasil na 9ª posição entre os maiores mercados fonográficos do mundo — e os gêneros com base em ritmos tradicionais, como samba, pagode, axé, forró e funk seguem entre os mais consumidos. Relatórios de tendências no Brasil, divulgados pelo Spotify, também evidenciam o crescimento de playlists ligadas ao “mood cultural” e à identidade local, provando mais uma vez que a audiência busca conexão com raízes, não só hits globais.
Diante desse cenário, te convido a refletir sobre a necessidade de não apenas valorizarmos a nossa própria cultura diante a um cenário em que plataformas digitais tendem a padronizar estéticas e premiar fórmulas replicáveis, como também reconhecer que o que chamamos de “novo” quase sempre é apenas o reencontro com algo que sempre existiu, porém ainda não tinha sido escutado e valorizado com atenção.