OPINIÃO: GILVANA VIANA

Como o Brasil deixou de ser ‘fornecedor’ de som

Por que a música brasileira passou a assumir um papel estratégico na economia criativa

Gilvana Viana

CEO e cofundadora da MugShot, Punks S/A e CasaBlack 1 de junho de 2026 - 9h24

(Crédito: Shutterstock)

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Durante muito tempo, o Brasil ocupou um lugar quase folclórico na indústria musical global. Éramos vistos como um país exportador de ritmos “exóticos”, talentos pontuais e referências culturais interessantes, mas raramente como protagonistas estratégicos do mercado internacional.

A música brasileira circulava pelo mundo como uma curiosidade estética, não como uma força estruturante da indústria criativa. Isso mudou. E mudou porque artistas, produtoras, selos independentes e profissionais da música entenderam que criatividade também é posicionamento, negócio e construção de narrativa global.

Hoje, o Brasil deixou de ser apenas fornecedor de “sons diferentes” para se tornar um território criativo relevante dentro da música mundial. Não se trata apenas de exportar hits, mas de influenciar tendências, formatos de consumo, campanhas publicitárias, linguagem estética e comportamento digital. A música brasileira passou a ocupar espaços estratégicos porque aprendeu a transformar diversidade cultural em potência de mercado.

A ascensão internacional da Anitta talvez seja o maior símbolo dessa virada. Sua trajetória evidencia como o artista brasileiro passou a ocupar um espaço muito mais estratégico dentro da indústria musical global, combinando presença artística com domínio de branding, comportamento digital, construção de comunidade e circulação internacional.

Quando “Envolver” alcançou o topo do Spotify Global, em 2022, o Brasil não celebrou apenas um hit internacional. Celebrou a percepção de que artistas brasileiros podem disputar atenção em igualdade com os maiores nomes da música pop mundial. O feito entrou para a história como a primeira vez que uma artista brasileira alcançou o primeiro lugar da plataforma global.

Outro exemplo importante dessa expansão internacional é Alok. O DJ se consolidou como um dos nomes mais relevantes da música eletrônica mundial e presença frequente nos principais festivais internacionais, como o Tomorrowland. Em 2024, ele apareceu novamente entre os DJs mais populares do mundo no ranking da revista DJ Mag, uma das principais referências globais da cena eletrônica. Sua trajetória reforça como artistas brasileiros deixaram de ocupar espaços periféricos na indústria internacional para disputar protagonismo em mercados altamente competitivos.

O funk brasileiro talvez seja um dos maiores exemplos disso. Durante anos marginalizado dentro do próprio país, o gênero atravessou fronteiras e passou a influenciar produções internacionais, festivais e campanhas publicitárias. O mercado global percebeu algo que o Brasil demorou anos para reconhecer: nossa maior força criativa está justamente na pluralidade cultural e na capacidade de transformar vivências periféricas em linguagem universal.

Mas essa transformação vai muito além de nomes individuais. Existe uma mudança importante acontecendo na lógica da indústria musical global. Durante muito tempo, o mercado buscou padronização. Hoje, ele busca autenticidade. E poucos países oferecem um repertório cultural tão diverso quanto o Brasil. A mistura entre ritmos regionais, sonoridades urbanas, referências afro-brasileiras, música eletrônica, samba, funk, trap e pop criou um ecossistema criativo impossível de replicar.

Essa mudança também está diretamente ligada à forma como a música passou a ser consumida. Segundo o relatório anual da Pro-Música Brasil, divulgado em 2025 com base no desempenho do mercado fonográfico em 2024, o streaming já representa 87,6% das receitas da indústria musical no país. O dado mostra como o streaming deixou de ser apenas uma ferramenta de consumo para se tornar uma vitrine global da música brasileira, permitindo que artistas nacionais alcançassem novos públicos e passassem a circular com mais força no mercado internacional.

E existe outro ponto fundamental nessa discussão: o Brasil deixou de exportar apenas música para exportar a linguagem cultural. Hoje, campanhas publicitárias globais utilizam estética brasileira, marcas internacionais buscam artistas periféricos para cocriar projetos e a indústria percebeu que a cultura brasileira produz conexão emocional genuína com o público jovem.

Isso não significa que os desafios acabaram. Ainda existe uma concentração enorme de oportunidades nas mãos de poucos artistas. A desigualdade dentro da indústria musical continua evidente, especialmente para mulheres, artistas negros e profissionais periféricos. Dados da União Brasileira de Compositores mostram que mulheres receberam apenas 10% dos direitos autorais distribuídos no país em 2025. Isso revela que o crescimento da música brasileira no cenário global precisa vir acompanhado de debates sobre inclusão, representatividade e redistribuição de oportunidades.

Com isso, trago uma questão que precisa de atenção: a internacionalização da música brasileira não pode ser construída apenas por alguns nomes que conseguem romper barreiras individualmente. Ela precisa ser sustentada por uma indústria que invista em formação, estrutura, circulação e diversidade criativa.

O mundo finalmente percebeu que o Brasil não produz apenas “sons diferentes”. Produz tendência, inovação cultural e impacto global. A música brasileira deixou de ocupar um lugar decorativo na indústria internacional para assumir um papel estratégico dentro da economia criativa contemporânea. E talvez o mais interessante dessa transformação seja justamente perceber que o diferencial do Brasil nunca esteve em tentar soar como o resto do mundo, mas em assumir, sem pedir licença, tudo aquilo que nos torna únicos.