Em defesa da longevidade criativa
Por que escrever, ler, tocar, desenhar e pensar com as mãos vai nos manter no jogo

Patti Smith em Mannheim, Alemanha, em 1978 (Crédito: Klaus Hiltscher)
Patti Smith tem 79 anos e segue em turnê pelo mundo. Em 2008, Leonard Cohen voltou aos palcos aos 73 anos, depois de um hiato de 15, e fez 372 shows com mais de três horas de duração. Sem falar nos nomes brasileiros que prometem suas últimas rodadas de apresentações, e felizmente seguem no palco. Recentemente, Djavan, aos 77 anos, confiando apenas em sua voz e violão, fez mais de 40 mil pessoas cantarem suas canções em uníssono num estádio lotado.
São pessoas tão apegadas ao seu ofício que mantiveram carreiras longevas, cultivando o craft dentro ou longe dos holofotes. No livro “Sustentar a nota” (Companhia das Letras), o jornalista da New Yorker David Remnick perfila onze ícones musicais tendo o tempo como fio condutor. Seu olhar é devotado ao momento em que o auge da carreira de gente como Aretha Franklin, Paul McCartney e Bob Dylan já havia passado havia décadas. E no entanto, seguiam tocando. Sustentando a nota.
Lendo esse livro, não pude deixar de fazer paralelos com a carreira publicitária. É natural imaginar uma trajetória profissional com uma curva que vai ascendendo até chegar a um ápice e a partir dele, um movimento decrescente. Uma curva que pode representar coisas diferentes: ganhos financeiros, conquistas individuais, ganho de habilidades ou desafios profissionais.
Na vida real, essa curva é menos parecida com uma linha em um gráfico de consultoria estratégica, e mais com um eletrocardiograma. Mas essa imagem é interessante porque implica sempre uma expansão de repertório no começo da carreira.
No planejamento, por exemplo, quando uma pessoa ingressa, as principais funções geralmente se restringem à pesquisa, organização e análise de informações. É observando os padrões de comunicação, fazendo correlações, ouvindo gente e mapeando mudanças de comportamentos, que se treina para virar uma profissional de estratégia. Ao longo dessas atividades frequentemente repetitivas é que se cultiva a própria visão individual e, com sorte, se apaixona pelo ofício ao longo do processo.
Em uma realidade em que a quase totalidade de funções introdutórias da área vai sendo relegada a ferramentas, venho me questionando sobre como se aprende a ser estrategista, ou qualquer profissional de áreas criativas hoje.
Penso se ainda é possível considerar longevidade em uma cultura que tem cada vez mais premiado a instantaneidade de resultados, ignorando a durabilidade dos impactos, tendo como consequência o que estudiosos da I.A. chamam de “colapso do conhecimento”: a erosão progressiva da capacidade de aprender, reter e gerar ideias novas.
Os estudos e artigos que leio ainda suscitam mais perguntas do que respostas.
Achei que poderia encontrar pistas na minha própria obsessão, os livros. Retornando aos artistas do pop perfilados por Remnick, fiquei buscando os traços em comum nessas trajetórias duradouras, de como a sensibilidade humana persistia diante das adversidades do contexto.
O primeiro deles é uma obsessão constante que moldou o talento criativo. Dylan atravessava as noites com o ouvido colado no rádio, absorvendo todos os sons originados no sul dos Estados Unidos: R&B, gospel, blues. Patti Smith manteve diários a vida toda. Leonard Cohen era devotado à linguagem e antes da carreira musical, já era poeta publicado. Formas diferentes de construir o repertório que formou a singularidade de cada.
Para uma criativa, o interesse contínuo por tipografia ou por jardinagem ajudará a construir uma singularidade na sua direção de arte. Para uma estrategista, a consistência no olhar para a moda, ou nas leituras sobre psicanálise, na paixão por cinema, treinam o olhar para tendências, para comportamento humano, para semiótica.
A originalidade de visão, criada a partir dessas obsessões, é o segundo traço que encontro nessas pessoas. Dylan conta como “Blowin’ in the wind”, uma das mais importantes canções de protestos de todos os tempos, veio da música tradicional que passou a juventude ouvindo, ele apenas abriu uma porta diferente, de um jeito diferente.
Para sustentar essas duas características, é essencial um senso de disciplina, a capacidade de resistir ao que todo mundo está fazendo. Smith escrevia o tempo todo na juventude, e depois de virem os filhos, começou a acordar às cinco da manhã e escrever até as oito. Mantém essa disciplina até hoje, após ter escrito “Horses”, um dos álbuns mais importantes da história da música americana, e “Só Garotos” (Companhia das Letras), este vencedor do National Book Award.
Em todas as épocas, há uma homogeneidade de ideias que a tecnologia acaba projetando, mas sempre houve sensibilidades humanas que perseveraram. O espírito do sostenuto, que o livro menciona, a nota que sustenta, que prevalece. E é escrever, ler, tocar, desenhar, pensar com as mãos que vai nos manter no jogo.