OPINIÃO: MICHELLE BORBOREMA

Marjane Satrapi e o direito das mulheres à própria história

Ao transformar a vida em narrativa, a autora mostrou que representatividade é o direito de falar e ser ouvida

Michelle Borborema

Editora do Women to Watch 4 de junho de 2026 - 11h10

Marjane Sartrapi, autora e artista, morre aos 56 anos (Crédito: Divulgação)

Marjane Satrapi, escritora, quadrinista e cineasta franco-iraniana, morre aos 56 anos (Crédito: Divulgação)

Algumas mulheres mudam o mundo ao ocupar espaços de poder. Outras o transformam mudando a forma como enxergamos a realidade. A escritora, quadrinista, artista e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi fez as duas coisas.

Com a notícia de sua morte, o mundo perde uma artista extraordinária. Mas fica, sobretudo, sem uma das vozes femininas mais importantes da nossa época. Uma mulher que dedicou sua obra a combater simplificações, desafiar preconceitos e lembrar que mulher alguma, em qualquer lugar do mundo, cabe em um estereótipo. 

Para muitas pessoas, o primeiro contato com o Irã aconteceu com Persépolis, romance gráfico autobiográfico de Marjane, que narra sua infância e juventude no Teerã, em meio à Revolução Islâmica no país, em 1979. Foi com a obra, publicada em 2000, e a animação cinematográfica lançada sete anos depois, que a iraniana foi reconhecida globalmente.

Esse foi um dos grandes feitos da escritora e quadrinista, que após a revolução foi enviada à Europa pelos pais. Ela não apresentou o Irã pelos olhos dos governos, dos conflitos geopolíticos ou das manchetes internacionais. O foco não era esse, embora fosse o pano de fundo de toda a história de uma menina que gostava de música, questionava autoridades, brigava com professores, sonhava com liberdade e tentava entender um mundo em meio à revolução, à guerra e à repressão.

Ao fazer isso, Satrapi humanizou o que, para muitos, havia sido transformado em caricatura. Isso porque durante décadas, a imagem das mulheres iranianas foi reduzida a símbolos. O véu tornou-se mais importante do que suas vozes e as disputas políticas falavam mais alto do que suas histórias. O mundo se acostumou a enxergá-las como personagens secundárias de uma narrativa escrita por outros.

Marjane recusou esse papel. Ela escreveu, desenhou e publicou sua própria versão dos acontecimentos. E, ao contar sua história, abriu espaço para que milhares de outras mulheres fossem vistas em sua complexidade.

Embora Persépolis tenha sido premiada pelo Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2007 e pelo César de Melhor Roteiro Adaptado em 2008, Satrapi nunca pareceu interessada em reconhecimentos vazios. No ano passado, recusou a mais alta condecoração da França, Ordem Nacional da Legião de Honra, para denunciar aquilo que considerava uma contradição incômoda: o discurso francês em defesa da liberdade pouco acompanhado por ações concretas para acolher iranianos perseguidos pelo regime.

Vivemos em tempos centrados em narrativas e na disputa por atenção. Empresas, marcas, governos e redes sociais disputam narrativas a todo instante. E, muitas vezes, mulheres ainda precisam disputar o direito de narrar a si mesmas.

Por isso, a trajetória de Satrapi conversa tão profundamente com o mundo em que vivemos. Ao olhar para a história de diferentes povos e culturas, e ao analisar a própria indústria publicitária e o mercado que faz dela o que é, sabemos que representatividade não é somente estar presente. É, sim, ter voz, participar da construção da história e das narrativas e poder existir — e agir — para além dos rótulos que os outros escolhem para nós.

Em outra obra reconhecida de Marjane, Bordados, de 2010, ela reúne mulheres iranianas em torno de conversas aparentemente banais sobre amor, sexo, casamento, envelhecimento e liberdade. São diálogos íntimos, divertidos e, por vezes, escandalosos. Isso porque desmontam a fantasia persistente do ocidente de que as mulheres iranianas vivem apenas em silêncio, subservientes.

As personagens femininas iranianas de Satrapi, todas baseadas em experiências e trocas reais, falam e opinam muito. Elas discordam entre si e mostram seus desejos a todo instante. Essa é a revolução silenciosa presente em toda a sua obra. Ela nos mostra que, por trás de qualquer identidade coletiva, existem indivíduos. E que, em cada discurso sobre mulheres, há vidas reais.

Em tempos em que tantas discussões sobre diversidade correm o risco de se tornar superficiais, o legado de Marjane Satrapi permanece como um convite à profundidade. Ela mostra que inclusão não é, exatamente, transformar pessoas em símbolos, mas permitir que elas sejam inteiras.

Ao longo da vida, Satrapi enfrentou regimes, preconceitos, censuras e expectativas. Mas talvez seu maior legado tenha sido outro: ao falar por si mesma, ela conseguiu com que milhões de pessoas olhassem para mulheres que julgavam conhecer e percebessem que nunca as haviam escutado de verdade.

Por isso, sua voz continuará ecoando muito depois de sua partida.