OPINIÃO: MICHELLE BORBOREMA

A conta que elas nunca deixaram de pagar

O avanço das mulheres na educação e no mercado ainda não foi suficiente para eliminar a desigualdade construída em séculos

Michelle Borborema

Editora do Women to Watch 12 de junho de 2026 - 10h15

(Crédito: Shutterstock)

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Existe uma narrativa muito comum para explicar riqueza. Ela diz, basicamente, que quem estuda e trabalha mais encontra as melhores oportunidades e prospera. Em resumo: que o mérito produz recompensa. O problema, no entanto, é que as mulheres brasileiras testam essa teoria na prática e os resultados não são exatamente os prometidos.

Elas são maioria nas universidades e já representam 54,2% dos estudantes de mestrado e doutorado no Brasil. Também alcançaram um marco histórico no empreendedorismo: em 2025, o país registrou 10,4 milhões de mulheres donas de negócios, o maior número já contabilizado pelo Sebrae, com mais de 2 milhões de novos MEIs e micro e pequenas empresas abertas por elas apenas no último ano.

No mercado de trabalho, a presença feminina avançou de forma consistente. A taxa de participação das mulheres cresceu de 34,8% em 1990 para 53% em 2023 e, somente entre 2023 e 2025, o número de trabalhadoras formais saltou de 7,2 milhões para 8 milhões, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em praticamente todos os indicadores tradicionalmente associados à ascensão econômica, como escolaridade, empreendedorismo e inserção profissional, as mulheres brasileiras avançaram de forma acelerada nas últimas décadas.

Ainda assim, recebem menos, acumulam pouco patrimônio e seguem sub-representadas entre os mais ricos.

É essa contradição que aparece no estudo “Elas Pagam a Conta”, lançado por Think Olga e Think Eva em 2026. O levantamento foi construído a partir de uma ampla pesquisa documental, que reuniu mais de 100 estudos acadêmicos, bases oficiais, livros, pesquisas e reportagens, além de uma escuta com mais de 400 mulheres da comunidade Olga para compreender vivências, estratégias e dificuldades relacionadas ao dinheiro.

A pesquisa desloca a conversa do comportamento individual para a estrutura do problema. Com frequência, a desigualdade econômica feminina é tratada como uma questão de preparo. As mulheres precisariam aprender mais sobre finanças, negociar melhor seus salários, investir mais, ganhar confiança. Mas o que acontece quando elas fazem tudo isso e a desigualdade permanece?

Bom, talvez seja hora de admitir que o problema não está nelas.

Herança histórica, problema estrutural

Um dos trechos do levantamento recupera a memória histórica. Até muito recentemente, mulheres não podiam administrar os próprios bens, acessar crédito livremente ou trabalhar sem autorização do marido. Não se trata de um passado remoto, mas de regras que moldaram gerações inteiras e ajudaram a construir a cultura econômica que conhecemos.

O estudo lembra que, apenas em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada, elas passaram a poder trabalhar e gerir bens sem autorização do marido. O acesso autônomo ao crédito só foi garantido décadas depois, em 1974, quando mulheres deixaram de depender de um avalista homem para obter empréstimos e cartões.

O resultado é que homens foram socializados para produzir riqueza e, mulheres, para administrar a sobrevivência. Eles aprenderam a acumular patrimônio e elas, a garantir que a vida continuasse funcionando. A diferença parece sutil, mas explica muito do presente.

Quando uma mulher interrompe a carreira após a maternidade, por exemplo, a questão não costuma partir de uma escolha ou de preferência puramente individual. O mesmo acontece ao aceitar empregos mais flexíveis e pior remunerados para dar conta dos filhos ou dos pais idosos. Estudos citados no relatório mostram que, em média, 24% das mulheres deixam a força de trabalho no primeiro ano após o nascimento do primogênito. Cinco anos depois, 17% seguem fora do mercado e, após uma década, 15% continuam afastadas.

Elas mesmas explicam o motivo do cenário: 61% das mulheres entre 25 e 29 anos fora do mercado apontam as responsabilidades familiares como principal motivo para não procurar emprego.

Além disso, os achados da pesquisa mostram que elas já chegam ao mercado de trabalho com uma jornada invisível que os homens raramente enfrentam na mesma intensidade, e isso faz com que a competição já comece desequilibrada: 76% das horas de trabalho de cuidado não remunerado continuam realizadas por mulheres.

Esses dados ajudam a explicar outros, como por que as mulheres chegam menos aos cargos de liderança e até por que acumulam menos patrimônio ao longo da vida. 

Cuidado, gastos invisíveis e autonomia financeira

Segundo a pesquisa, diante desse cenário, as mulheres não usam dinheiro de maneira errada, mas sustentam vidas, e isso requer gastos invisíveis que muitas vezes não são vistos de fora (e nem por elas mesmas), embora criem rombos na vida financeira.

Os exemplos são muitos, como o pão de queijo para o filho no caminho de volta da escola para casa e o frango descongelado comprado às pressas porque não houve tempo para planejar a refeição. Isso contribui para desmontar uma narrativa recorrente sobre consumo feminino. Como sugere o próprio relatório, as mulheres não estão endividadas por causa das “blusinhas”.

O cenário pode ser resumido por um aprendizado do estudo: se o dinheiro do homem é dele, o da mulher costuma ser da família. Ou seja, elas financiam a manutenção da vida cotidiana e absorvem uma parte significativa dos custos invisíveis da reprodução social.

A riqueza, então, não é produzida somente pelo trabalho visível. Ela também depende de quem cuida daquilo que permite que o trabalho aconteça. E, historicamente, essa pessoa sempre foi uma mulher. “Por trás de um grande homem existe uma grande mulher”, como diria o ditado popular. Existe uma estrutura de trabalho doméstico, emocional e de cuidado que permanece pouco reconhecida economicamente, embora seja fundamental para a tal prosperidade.

Desigualdade econômica feminina não é uma falha do sistema. Ela é, em grande medida, uma consequência do modo como ele foi desenhado. Quando mulheres acumulam credenciais, trabalho e produtividade sem receber em troca a mesma capacidade de acumular riqueza, estamos diante de uma questão de poder.

Como resume o próprio estudo, a falta de intimidade das mulheres com o dinheiro “não aconteceu por acaso. Ela é resultado de um processo contínuo e deliberado de exclusão econômica”. E poder, como sabemos, nunca foi distribuído apenas pelo mérito.