OPINIÃO: MARIA LAURA NICOTERO

As escolhas que nos representam

Quando compreendemos que identidade não é algo pronto, mas construído, olhamos para comunidades de outra forma

Maria Laura Nicotero

CEO da Nico.ag e presidente da plataforma Women To Watch 18 de junho de 2026 - 12h14

(Crédito: Unsplash)

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Li recentemente algumas análises sobre as dificuldades enfrentadas por parte do mercado de luxo. Em um primeiro olhar, a discussão parece girar em torno de preços, comportamento de consumo ou desaceleração econômica. Mas, à medida que fui lendo diferentes interpretações, uma ideia me chamou atenção: muitas das marcas que continuam crescendo parecem ter compreendido algo que vai além do produto que vendem. Elas não construíram apenas desejo. Construíram pertencimento.

Durante décadas, o luxo esteve associado à exclusividade. O valor estava naquilo que poucos podiam acessar. A lógica era relativamente simples: possuir determinados objetos comunicava status, sucesso ou posição social. Esse mecanismo continua existindo, mas talvez já não seja suficiente para explicar o que mobiliza as pessoas hoje.

As marcas que mais despertam interesse parecem oferecer algo menos tangível. Elas criam comunidades, produzem experiências e desenvolvem linguagens próprias. Fazem com que as pessoas sintam que estão participando de uma história, e não apenas adquirindo um produto.

Enquanto observava essa transformação, me ocorreu que talvez ela não fale apenas sobre marcas. Talvez ela fale sobre nós.

Ao longo da vida, todos nós vamos construindo uma espécie de ecossistema pessoal. Um conjunto de escolhas que, isoladamente, podem parecer pequenas, mas que, vistas em perspectiva, contam uma história bastante consistente sobre quem somos e sobre quem estamos nos tornando.

As pessoas com quem escolhemos passar nosso tempo, os ambientes onde nos sentimos à vontade, os livros que permanecem na nossa estante, os lugares para onde voltamos quando precisamos recuperar energia, os projetos aos quais associamos nosso nome, as conversas que nos alimentam, e também (e talvez principalmente) aquelas que nos esgotam.

Nenhuma dessas decisões acontece de uma vez só. Elas se acumulam lentamente, formando uma espécie de comunidade invisível ao nosso redor.

Costumamos pensar em comunidade como algo externo, um grupo ao qual pertencemos. Mas talvez exista também uma comunidade interna, composta por tudo aquilo que escolhemos manter perto de nós. As ideias que cultivamos, os valores que admiramos, as pessoas que nos desafiam a crescer e aquelas que nos acolhem quando precisamos recomeçar.

Com o tempo, essa comunidade passa a nos influenciar tanto quanto nós a influenciamos.

Ela molda nosso repertório, afeta nossa visão de mundo, amplia ou limita nossas possibilidades. Aos poucos, vai deixando marcas na forma como pensamos, decidimos e nos posicionamos diante da vida.

Talvez por isso a curadoria tenha se tornado uma competência tão importante. Não apenas para empresas ou marcas, mas para qualquer pessoa que esteja tentando construir uma vida coerente com aquilo que acredita. Curadoria não é perfeição, ou uma sequência impecável de escolhas acertadas. Eu diria que curadoria é atenção. É perceber que tudo aquilo que decidimos que vai permanecer ao nosso redor exerce algum tipo de influência sobre nós.

Naturalmente, vamos cometer erros. Vamos nos aproximar de pessoas que não permanecerão, investir energia em projetos que perderão sentido, defender ideias que mais tarde serão revistas ou extintas. Faz parte do processo. Nenhuma trajetória é construída em linha reta.

Mas existe uma diferença importante entre viver por impulso e viver com alguma intenção. Quando compreendemos que a identidade não é algo pronto, mas algo continuamente construído, começamos a olhar para as nossas escolhas de outra forma. Como peças de uma narrativa maior, e não como eventos isolados.

No fim das contas, talvez as marcas de luxo estejam apenas revelando algo que vale para todos nós. Aquilo que sustenta valor ao longo do tempo raramente é apenas o objeto, o cargo, o símbolo ou a aparência. O que permanece é a qualidade das conexões que construímos, o sentido que encontramos nas experiências que vivemos e a comunidade que escolhemos cultivar ao nosso redor. Porque são essas escolhas, muito mais do que qualquer discurso, que acabam contando a história de quem somos.