OPINIÃO: CAROLINA IGNARRA

Não queremos elogios, queremos promoção

Enquanto o reconhecimento continuar parado no discurso, a inclusão seguirá sendo promessa, não trajetória

Carolina Ignarra

CEO e fundadora do Grupo Talento Incluir 30 de junho de 2026 - 10h26

(Crédito: Shutterstock)

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Numa dessas manhãs atribuladas de trabalho, eu estava exausta porque vinha de uma sequência intensa de viagens, reuniões em cidades diferentes, apresentações com temas distintos, agendas encaixadas sem intervalo real. Em algum momento, consegui parar por 45 minutos, e isso, para mim, já é um luxo. Eu precisava de combustível.

Foi então que recebi um elogio da Mirella Prosdóscimo, que também é uma mulher com deficiência e minha amiga. Um elogio simples, direto, honesto. Não tinha nada a ver com a minha deficiência e ela fez questão de reforçar isso. Nada relacionado com “superação”, algo recorrente na vida de pessoas com deficiência quando recebemos um elogio.

Era o contrário disso. O elogio era potente. Tinha a ver com a forma como eu conduzi uma conversa profissional, com a clareza das ideias, com o impacto do meu trabalho. Aquele elogio não me validou, nem me fez me sentir uma profissional melhor, porque reconheço e tenho segurança da qualidade do meu trabalho, mas me deu energia. Ajudou-me a continuar aquela manhã já tão atribulada. Mudou o meu dia.

E é exatamente por isso que precisamos falar sobre elogios. O problema não é elogiar uma pessoa com deficiência. É como e por que se elogia. Muita gente tem medo de elogiar uma pessoa com deficiência. Medo de ser capacitista. Medo de usar termos e expressões inadequadas. Medo até de ofender. E, por causa desse medo, deixa de reconhecer algo que é legítimo, necessário e humano.

Pessoas com deficiência também merecem elogios reais. Gostamos muito de reconhecimento. Precisamos de feedback. Isso nos impulsiona e causa efeitos comuns como em qualquer outra pessoa, porque faz parte da experiência social e profissional.

O problema começa quando o elogio não é sobre a pessoa, mas sobre a deficiência. Expressões como: “Você é inspiradora porque trabalha, ainda que tenha essa deficiência”, “É incrível como você consegue, mesmo com deficiência”, “Nossa, nem parece que você tem alguma deficiência”, “Você é uma guerreira só por estar aqui”.

Isso não é reconhecimento. Isso é capacitismo disfarçado de elogio. A verdade é que o elogio capacitista não percebe competência, qualidades ou atitudes de uma pessoa. Percebe a exceção.

Quando exaltamos apenas o fato de uma mulher com deficiência estar trabalhando, estamos dizendo, ainda que sem intenção, que o esperado seria ela não estar lá. Que sua presença ali é extraordinária por si só. Que ela ocupa um lugar de exceção, não de pertencimento. Isso é capacitista. E os dados mostram que essa lógica tem consequências concretas.

Segundo a pesquisa “Radar da Inclusão 2025 – Recorte de Gênero”, 67% das pessoas com deficiência nunca tiveram uma promoção nos seus empregos. Entre as mulheres, o índice é ainda maior: 70% nunca foram promovidas, mesmo estando empregadas e, muitas vezes, com boas avaliações de desempenho por parte das suas lideranças.

Ou seja: o discurso do elogio não vira prática. O reconhecimento verbal não vira desenvolvimento de carreira. De nada adianta elogiar se a promoção nunca vem. Não adianta o gestor dizer que a colaboradora com deficiência é excelente, dedicada, comprometida, estratégica… se, na hora de promover, escolhe outra pessoa, muitas vezes, alguém sem deficiência e, não raramente, com avaliações de desempenho inferiores. Isso também é capacitismo estrutural.

O elogio vazio, aquele que não se conecta à trajetória profissional, às entregas e às oportunidades reais, se torna apenas mais uma camada de frustração.

Então, como fazer um elogio sem ser capacitista?

Especialmente no ambiente de trabalho, alguns cuidados fazem toda a diferença:

  1. Pergunte-se antes de elogiar: “Eu diria isso para uma pessoa que não tem deficiência?” – Se a resposta for não, há grandes chances de o elogio ser capacitista;
  2. Elogie comportamentos, competências e resultados: Fale sobre o que a pessoa faz bem, como faz e qual impacto gera. Exatamente como você faria com alguém sem deficiência;
  3. Conecte o elogio à trajetória dentro da empresa: Reconhecer alguém é também sinalizar crescimento, desenvolvimento e possibilidade de futuro;
  4. Não tenha medo de ser intencional: Se você teme parecer capacitista, diga isso. A transparência ajuda a educar a relação e abre espaço para o diálogo;
  5. Elogio sem oportunidade vira contradição: reconhecimento precisa estar alinhado com acesso a projetos, visibilidade, treinamentos e promoções.

Nós, pessoas com deficiência, também podemos, e devemos, participar dessa construção. Sinalizar quando um elogio se torna um desconforto. Antes de julgar ou fechar a cara, pergunte: “Por que você está me elogiando?” “Que comportamento você está reconhecendo em mim que merece esse elogio?” Muitas vezes, essa pergunta ajuda o outro a se perceber capacitista e a aprender com isso.

Quando compartilho esse desconforto, não é para parecer grosseira ou ingrata. É para unir forças, alinhar expectativas, construir relações mais honestas. A inclusão de verdade se faz assim: com conversa, escuta, disposição e ajuste contínuo.

Pessoas com deficiência não precisam ser heroínas para merecer reconhecimento. Ser inspiradora não pode ser sinônimo de sobreviver a um sistema excludente. Precisamos parar de romantizar a resistência e começar a estruturar o pertencimento. Enquanto o capacitismo for amenizado, inclusive nos elogios, a inclusão não avançará.

Elogiar bem não é um detalhe. É parte da cultura. E a cultura, no fim das contas, define quem cresce e quem fica sempre esperando a próxima promessa que nunca vira promoção, oportunidade, reconhecimento real.

Pessoas com deficiência recebem elogios, não oportunidades de validação e enquanto o reconhecimento continuar parado no discurso, a inclusão seguirá sendo promessa, não trajetória.