A maternidade não deveria custar a carreira das mulheres
Neste mês que celebramos o “Dia das Mães”, convido todas a estarem convictas das nossas escolhas
Sempre é tempo de falar de maternidades diversas. Costuma-se repetir, quase como um mantra, que a maternidade desacelera a carreira das mulheres. No caso das mulheres com deficiência, essa afirmação ganha contornos ainda mais desafiadores, não porque a maternidade nos torna menos capazes, mas porque o preconceito nos empurra, sistematicamente, para fora das oportunidades.
Tenho dois exemplos muito próximos de mulheres com deficiência cuja maternidade não desacelerou a carreira. São histórias reais, possíveis, mas é preciso ser verdadeira: elas não representam a realidade da maioria. Porém, mostram que é possível conciliar maternidade e carreira profissional quando há um ambiente seguro, flexível e acolhedor de fato.
Uma delas é Daniela Cristina Sagaz, 38 anos, casada com Franciso e mãe de primeira viagem do Matteo, de oito meses. Ela é uma mulher com deficiência física congênita, com ausência do braço esquerdo e da perna direita e, contrariando as estatísticas, Dani acaba de voltar da sua licença-maternidade e ser movimentada para uma nova posição na empresa em que trabalha.
“Sempre pensei que era preciso escolher entre maternidade ou carreira e isso me fez esperar um tempo maior para decidir. Essa espera trouxe a mim e meu marido mais maturidade e mais certeza para saber, de fato, que não é preciso escolher entre maternidade e carreira. Os dois planos podem seguir juntos”, alerta Daniela Sagaz.
Mesmo preparada, os gatilhos de insegurança também ocorreram durante a gestação, como acontece com toda mãe, porém ela ainda tem um recorte de capacitismo que ameaça suas capacidades. Felizmente, contou com o apoio de outras mulheres com deficiência, o que fez toda a diferença naquele momento.
Sobre a carreira, ela é consciente de seu privilégio, mas, entendeu que ser mãe não mudou suas ambições, só potencializou. Porque agora, tudo é por ele, seu filho Matteo. Seu grande objetivo é se realizar também em seu trabalho para dar a ele o melhor exemplo.
Ela reconhece e destaca as ações de flexibilidade oferecidas pela empresa e a empatia dos gestores como fator fundamental para apoiar mães. Reforça que as empresas estão compreendendo, mas ainda há muito a fazer pelas mães, como contratar mulheres grávidas, promover mulheres grávidas e oferecer flexibilidade para que ela possa priorizar sua maternidade sem precisar desacelerar sua carreira.
Outra mulher com deficiência com um bom exemplo é o de Michelle Balderama Effren, de 38 anos, casada e mãe de dois meninos: Victor (5 anos) e Henrique (3 anos). Michelle trilha uma carreira sólida no setor financeiro. Cadeirante desde os 19 anos após um acidente de moto, hoje atua como analista sênior em um banco voltado ao agronegócio e está em transição para conquistar cargos de gestão, um movimento que já vem exercitando com foco estratégico e o apoio de sua liderança.
Para Michelle, a experiência de ser mãe e profissional com deficiência é pautada pelo acolhimento e pela eficiência. “Tive duas gestações em instituições diferentes e, em ambas, encontrei líderes que compreenderam o valor da flexibilidade”, conta. Esse apoio se traduziu em medidas práticas, como o regime de home office a partir do terceiro mês de cada gravidez, permitindo que ela mantivesse o foco nas entregas com segurança e conforto.
Ao retornar da licença-maternidade em seu desafio atual, a evolução continuou. Michelle assumiu novas responsabilidades com metas alinhadas ao seu momento de vida, demonstrando que a carreira não precisa estagnar. “Essa abertura permitiu que minha trajetória seguisse em ascensão. Com uma rede de apoio e uma gestão que prioriza resultados, é perfeitamente possível conciliar os papéis”, reforça.
O resultado desse modelo de trabalho é o alto engajamento. Michelle sente que suas contribuições agregam valor real ao time, sendo reconhecida por sua competência técnica e visão de negócio. “A maternidade não desacelerou meu crescimento, ela trouxe novas competências e me fortaleceu. Embora existam desafios, o equilíbrio entre as responsabilidades é alcançado com diálogo e entregas de qualidade.”
O que a gente percebe é que a maternidade desacelera a carreira de qualquer mulher quando as estruturas corporativas não estão preparadas para acolher, respeitar e desenvolver trajetórias profissionais plurais. Com mulheres com deficiência, esse impacto é ampliado.
Os dados do “Radar da Inclusão 2025 – Recorte de Gênero” escancaram esse cenário. Mulheres com deficiência seguem enfrentando desigualdades profundas no acesso, na permanência e no desenvolvimento profissional no mercado de trabalho brasileiro.
O ambiente corporativo continua sendo um espaço marcado pelo capacitismo que atinge especialmente as mulheres. Ainda na pesquisa, 86% das pessoas com deficiência que participaram (mulheres e homens) afirmam já ter vivido alguma situação de discriminação relacionada à deficiência, índice que sobe para 89% entre as mulheres.
As barreiras começam antes mesmo da contratação. Os dados da pesquisa apontam que 78% das pessoas com deficiência relatam dificuldades em processos seletivos por conta da deficiência. Quando olhamos o recorte de gênero, as mulheres sentem o impacto com mais força: 73% afirmam ter recebido ofertas de vagas abaixo de sua qualificação, contra 68% dos homens.
E, quando finalmente conseguem acessar o mercado, a desigualdade não desaparece e se transforma em estagnação. Duas em cada três pessoas com deficiência nunca foram promovidas. Entre as mulheres com deficiência, o dado é ainda mais grave: 70% nunca receberam uma promoção, frente a 63% dos homens.
Diante desse cenário, é preciso afirmar com todas as letras: não é a maternidade que desacelera a carreira das mães com deficiência. É o preconceito e a falta de preparo e acolhimento de quem emprega.
Ser parte fundamental da rede de apoio a essa mulher é fundamental para potencializar o que de fato importa: suas competências, suas entregas e novas habilidades que se aprofundam com a maternidade, como estão de tempo, foco, empatia, capacidade de priorização, resiliência e liderança.
Mas essa mudança não é responsabilidade apenas das empresas. Nós, mulheres no geral, também somos chamadas a tensionar esse estereótipo que opõe maternidade e carreira. E isso não é simples. É difícil. Muito difícil.
Eu amo trabalhar. Amo o que faço. Me envolvo, me entrego e encontro no trabalho uma fonte legítima de felicidade. Ainda assim, a sociedade cobra. A família, de perto e de longe, costuma rotular: workaholic. Mesmo com todo o apoio do meu marido, sei que minha filha, Clara, cobra minha presença. Diz que eu só trabalho, que não faço mais nada da vida. E, em parte, ela tem razão.
O problema é que, socialmente, o lugar do trabalho não é reconhecido como um espaço legítimo de realização para as mulheres, especialmente, para as mães. E muito menos para as mães com deficiência.
Neste mês que celebramos o “Dia das Mães”, convido todas a estarem convictas das nossas escolhas. Precisamos “curtir” a nossa jornada. E, se estamos certas do caminho que escolhemos, temos que seguir.
Está tudo bem escolher a maternidade. Está tudo bem escolher a não-maternidade. Está tudo bem escolher a maternidade tardia. O que não pode, nunca, é que essas escolhas sejam feitas por medo de perder espaço no trabalho. A maternidade e o preconceito não deveriam nos custar a carreira.