Opinião WW

O custo invisível do sucesso feminino

Equilíbrio entre vida pessoal e profissional impulsiona mulheres de alta performance e carreiras femininas de longo prazo

Carol Romano

Psicanalista e cofundadora da Futuro Co. 12 de maio de 2026 - 8h35

Nunca tivemos tantas mulheres avançando na carreira. E, ainda assim, nunca foi tão alto o custo invisível desse sucesso. Daqui a poucas semanas, acontece o World Happiness Summit 2026, em Cascais, Portugal. Mais do que um evento sobre felicidade, o WOHASU tem se consolidado como um importante fórum global de discussão sobre a construção de um mercado de trabalho mais equilibrado, eficiente, humano e sustentável.

Foi nesse contexto que me lembrei de um dos painéis mais provocativos que acompanhei na edição de 2025, em Miami. Com o título de “WOHASU Women”, a CEO do evento Karen Guggenheim reuniu Kristin Barry, pesquisadora da Gallup especializada em bem-estar e futuro do trabalho; Laura Marciano, pesquisadora associada ao Digital Wellness Lab de Harvard, com foco em produtividade e estados de calma; e Monika Mantilla, investidora de venture capital e liderança ativa na agenda de equidade e desenvolvimento feminino, para discutir dados que deveriam estar no radar de qualquer liderança.

O avanço é real, mas carrega uma tensão que ainda não resolvemos. Embora os dados sejam do mercado norte-americano, os padrões que revelam encontram ressonância em diferentes contextos, inclusive no Brasil. A participação feminina na força de trabalho está no ponto mais alto já registrado. Hoje, há mais mulheres em conselhos e posições de CEO do que nunca antes. O progresso é real, mesmo após uma pandemia que afetou desproporcionalmente as mulheres.

Mas o avanço quantitativo esconde uma crise qualitativa. Os dados apresentados por Kristin Barry, da Gallup, mostram que 51% das mulheres trabalhadoras relatam se sentir estressadas e 42% vivem preocupadas de forma constante. Não estamos falando de desconforto pontual, mas de um volume significativo da força de trabalho dizendo que o emprego está impactando negativamente sua saúde mental. Para mulheres que se sentem constantemente preocupadas ou estressadas, a probabilidade de burnout é sete vezes maior e programas tradicionais de bem-estar não resolvem, isoladamente, essa equação.

Quando perguntadas sobre o que buscam em um novo trabalho, a principal resposta das mulheres não é salário. É equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A remuneração aparece em segundo lugar. Isso não significa que dinheiro não importe. Significa que, para muitas mulheres, o esgotamento já redefiniu prioridades.

Esse desalinhamento não é apenas uma questão social, mas um risco direto para a sustentabilidade das organizações. E aqui está um dos dados mais reveladores: apenas 1% dos entrevistados considera programas corporativos de bem-estar como sua principal fonte de suporte. O apoio real continua vindo da família, de mentores, de colegas e, em alguns casos, da liderança direta

A matemática do burnout

Os dados mostram que mulheres que conseguem manter equilíbrio entre responsabilidades pessoais e profissionais são mais de duas vezes mais propensas a estar engajadas no trabalho. São 71% menos suscetíveis ao burnout e 15% mais inclinadas a se considerar em um estado de prosperidade.

Mas existe um desalinhamento estrutural. Mulheres com filhos têm três vezes mais chance do que homens de assumir o papel de “respondentes padrão”, reorganizando agendas e absorvendo demandas familiares. E também têm maior probabilidade de adiar ou recusar promoções por esse motivo.

A investidora Monika Mantilla trouxe um ponto pouco explorado nas discussões corporativas: a angústia de mulheres jovens que acreditam precisar escolher entre carreira e vida pessoal. Como sintetizou Karen Guggenheim, é doloroso ver talentos acreditando que precisam abrir mão de uma parte de si para sustentar a outra. Como se sucesso e vida fossem forças incompatíveis. Laura Marciano complementa com uma provocação essencial: talvez não seja apenas o trabalho que precise ser redefinido, mas o próprio conceito de sucesso.

A pesquisa de Harvard aponta caminhos claros. O primeiro é perguntar. O segundo, integrar o bem-estar ao próprio trabalho. O terceiro, comunicar melhor. E o quarto, mais estrutural, repensar como produzimos. Ainda hoje, a maioria dos programas de bem-estar é desenhada distante da realidade de quem deveria se beneficiar.

O bem-estar não pode ser tratado como algo paralelo, mas como parte da experiência cotidiana de produzir, colaborar e gerar valor. Muitas empresas investem em benefícios que não chegam às pessoas porque a comunicação segue centrada exclusivamente em metas e resultados. Ao mesmo tempo, a busca por formatos mais flexíveis, incluindo jornadas parciais ou adaptáveis, não sinaliza falta de ambição, mas uma tentativa de sustentar a carreira no longo prazo. Não por acaso, pesquisas do Digital Wellness Lab de Harvard mostram que, quando estamos ansiosas, levamos 25% mais tempo para realizar as mesmas tarefas.

Antes da pandemia, o trabalho remoto era tratado como inviável. Em poucas semanas, tornou-se realidade. Isso levanta uma pergunta inevitável: quantas outras estruturas que tratamos como imutáveis são, na verdade, apenas convenções? Quantos modelos de trabalho ainda refletem uma lógica construída em um momento em que mulheres sequer participavam plenamente da força de trabalho?

Se há uma tendência clara, é esta: o futuro do trabalho não será definido apenas por tecnologia ou produtividade, mas pela capacidade de sustentar pessoas ao longo do tempo. Talvez esteja mais do que na hora de fazermos a pergunta que ainda evitamos: por que o sucesso, especialmente para mulheres, ainda precisa custar tanto? E, mais importante, como podemos redesenhar o trabalho a partir do que nos torna mais produtivas, completas e felizes?