Opinião WW

Mulheres no plural

Como a interseccionalidade é uma estratégia para alavancar as pautas de gênero 

Carolina Ignarra

CEO e fundadora do Grupo Talento Incluir 6 de maio de 2026 - 8h55

(Crédito: Shutterstock)

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Para mulheres com deficiência, as desigualdades no trabalho não se somam, elas se multiplicam. Essa é a conclusão que tiramos dos novos dados da pesquisa “Radar da Inclusão – Recorte de Gênero”, que apresentei para outras mulheres no Side Event, evento oficial da 70ª Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW), em Nova York, evento liderado pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil. 

Quando os dados são analisados de forma genérica, nota-se o quanto ainda somos silenciadas e ocultadas no mercado de trabalho e a pesquisa, antes de tudo, tem um papel importante de colocar luz sobre as desigualdades vividas por mulheres com deficiência e neurodivergentes, e de revelar como o gênero aprofunda barreiras que já são estruturais. 

A pesquisa reafirma algo que mulheres com deficiência vivenciam diariamente: o mercado de trabalho continua sendo um espaço mais hostil, mais excludente e menos acessível para nós. 

Realizada pela Talento Incluir em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil, a pesquisa ouviu 1.765 pessoas com deficiência e neurodivergentes em todas as regiões do país. Mais da metade das respondentes se identificam como mulheres.  

A falta de acessibilidade aparece como um eixo central de exclusão ao longo de toda a trajetória profissional. Não se trata de um obstáculo pontual, mas de uma barreira contínua. Os dados mostraram que 56% das pessoas entrevistadas já vivenciaram situações concretas de exclusão relacionadas à mobilidade urbana ou ao acesso a espaços. Entre as mulheres, esse número sobe para 60%. 

Estamos falando de mulheres que deixam de procurar trabalho, perdem compromissos profissionais, de saúde ou de estudo, reorganizam toda a rotina para contornar barreiras físicas e carregam impactos emocionais profundos na saúde mental. Tudo por falta de acesso. 

A maioria das pessoas com deficiência relatam dificuldades em processos seletivos por conta da deficiência. Entre as mulheres, os impactos são ainda mais intensos. 73% das mulheres com deficiência entrevistadas relatam terem sido desvalorizadas ao receber ofertas abaixo da própria qualificação, frente a 68% dos homens. Além disso, 55% perceberam despreparo das pessoas recrutadoras para conduzir processos acessíveis, percentual superior ao registrado entre homens. 

Esses dados trazem uma realidade incômoda que as empresas precisam absorver: as mulheres com deficiência não são apenas menos contratadas; são sistematicamente subavaliadas. 

Mesmo quando conseguem acessar o mercado de trabalho, as desigualdades persistem e se aprofundam, de acordo com a pesquisa. Entre as pessoas com deficiência ocupadas, 2 em cada 3 nunca receberam promoção. Quando olhamos para o recorte de gênero, o cenário se agrava: 70% das mulheres com deficiência afirmam nunca terem sido promovidas, frente a 63% dos homens. 

O ambiente corporativo também segue atravessado pelo capacitismo, já que 86% das pessoas com deficiência já vivenciaram alguma situação de discriminação, mas, entre as mulheres com deficiência, esse índice chega a 89%. 

São elas que mais relatam isolamento, falta de apoio, ausência de escuta e maior exposição a opressões vindas de colegas e lideranças diretas. Estar empregada não significa pertencer. Permanecer não significa ser reconhecida. Esses dados evidenciam a urgência de políticas interseccionais nas empresas, nos governos e na sociedade. 

Enquanto o capacitismo for negado, pessoas com deficiência seguirão oprimidas e esses indicadores não avançarão. Para as mulheres do grupo, essa negação tem efeitos ainda mais severos, porque se soma, aliás, multiplica as desigualdades históricas de gênero, raça, classe e território. 

Não se trata de falta de esforço individual. Trata-se de estruturas que excluem, processos que desconsideram e culturas organizacionais que ainda não aprenderam a reconhecer essas mulheres como profissionais completas, qualificadas e estratégicas. 

No evento da ONU, entendemos que o desafio para o mundo do trabalho será, cada vez mais, dar espaço de poder para a mulher, em toda a sua interseccionalidade, que inclui todas as mulheres: negras, periféricas, mães, com deficiência, 45+, LGBTQIAPN+. 

O recorte de gênero do Radar da Inclusão deixa um recado claro: não basta contratar mulheres com deficiência para cumprir cotas ou indicadores de diversidade. É preciso garantir a presença de todas as mulheres no espaço corporativo, especialmente em posições de influência, em ambientes seguros, livres de capacitismo, acesso real, permanência digna, desenvolvimento profissional que envolve acesso a cargos de liderança.   

A maior meta das empresas com o tema é olhar para as mulheres no plural, integrando todas as agendas e disseminando essa visão por toda sua cadeia. Engajamento comprovado com ações reais na causa das mulheres. O Brasil tem avançado, é o 2º país com mais empresas signatárias nos movimentos a favor de temas das mulheres coordenados pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil. Porém, ainda há muito a se fazer. 

No caso de mulheres com deficiência, o desafio está em garantir processos seletivos acessíveis e conduzidos por pessoas preparadas; políticas de promoção baseadas em equidade, e não em vieses; ações contínuas de letramento sobre capacitismo e interseccionalidade; lideranças comprometidas com transformação cultural e corresponsabilidade de pessoas sem deficiência como aliadas ativas da mudança. 

Nós, mulheres com deficiência, não vamos conseguir transformar esse cenário sozinhas. A mudança exige uma sociedade aliada, empresas responsáveis e decisões baseadas em evidências. 

Levar os dados da pesquisa “Radar da Inclusão – Recorte de Gênero” a um dos principais fóruns globais sobre desafios da mulher no mundo traz a reflexão de que dados importam. E, quando analisados com coragem, eles deixam claro que interseccionalidade não é tendência, é responsabilidade de todas as empresas.