O capital de risco que ainda ignora as mulheres
Inovação é um risco calculado, mas quando as mesas de decisão são homogêneas, as apostas também tendem a ser

(Crédito: Shutterstock)
Como líder de fundo de investimentos, sempre recebo convites para falar sobre mulheres, liderança e inovação. E quando isso acontece, me vejo repetindo os mesmos dados como se estivéssemos presos em um looping de conscientização básica, incapazes de avançar para a etapa seguinte: a responsabilização.
Não aguento mais falar da diferença brutal de investimento em empresas lideradas por mulheres. Nos últimos 15 anos, mulheres receberam algo entre 1,7% e 2,7% do capital de risco anual, em linha com estudos que apontam uma média de apenas 2,4% de VC para times exclusivamente femininos nas últimas três décadas. Sim, o patamar de investimento em times com apenas fundadoras não mudou nesse tempo todo.
Segundo artigo publicado na Harvard Kennedy School, empresas de capital de risco com 10% mais mulheres dentre as sócias fazem investimentos mais bem-sucedidos em suas empresas investidas e registram saídas 9,7% mais lucrativas. Estudo feito pelo fundo de capital de risco First Round Capital revela que startups fundadas por mulheres apresentam performance 63% superior. Não é falta de informação, nem de pesquisa ou de evidência. O que falta é uma mudança efetiva.
Também não aguento mais falar que essa diferença não tem relação com ambição ou competência feminina. O que estamos discutindo não é capacidade individual, mas sim a concentração histórica de poder, redes e de capital. É sobre quem sempre esteve e aquelas que quase nunca estiveram na sala onde as decisões são tomadas.
E, além disso, estou cansada de dar depoimentos sobre como a ausência de mulheres nesses locais impacta diretamente os produtos que usamos, os serviços que consumimos e as soluções que deixam de existir. Isso não é teoria. É prática cotidiana. Quando não há diversidade de repertório, há lacunas de visão. E elas, por sua vez, geram indústrias inteiras negligenciadas.
Não suporto mais ouvir que o mercado é puramente racional. Se fosse, os padrões de decisão não reproduziriam os mesmos vieses inconscientes ano após ano. E além disso, o acesso ao capital não dependeria tanto de proximidade cultural, afinidade de trajetória e conforto social. O mercado é feito de pessoas e pessoas carregam referências e preferências.
Já estou exausta em ter que explicar que meritocracia, na prática, não existe em um jogo onde o ponto de partida já é desigual. Ela pressupõe condições equivalentes de acesso, erro e tempo. Mas, no ecossistema de inovação, alguns podem errar cinco vezes com capital abundante até acertar na sexta. Outras têm uma única chance e, se falham, dificilmente recebem uma segunda oportunidade.
Inovação é, por definição, tentativa e erro. É um risco calculado. É aposta. Mas quem decide onde apostar? E em quem apostar? Quando as mesas de decisão são homogêneas, as apostas também tendem a ser.
Diversidade não é somente pauta identitária, mas estratégia de alocação eficiente de capital, gestão de risco e geração de valor no longo prazo. Ecossistemas inovadores não prosperam por exclusão, mas por ampliar perspectivas e testar hipóteses variadas para resolver problemas reais sob múltiplos ângulos.
O que me cansa não é falar sobre o tema, mas o fato de perceber que, mesmo que os anos passem, ainda estamos no estágio da sensibilização, quando já deveríamos estar discutindo metas claras, métricas públicas e compromissos vinculantes.
Quantos fundos têm metas explícitas de investimento em lideranças diversas? Quantas teses de investimento incorporam critérios estruturais de equidade? Quantos conselhos realmente medem o impacto da homogeneidade nas suas decisões?
Já não dá mais para tratar equidade como pauta lateral, como se fosse um “capítulo especial”. Ela deve ser estrutural para qualquer ecossistema que queira ser verdadeiramente inovador, competitivo e sustentável. Não é um adendo, é a base.
Precisamos urgentemente avançar para que a conscientização se torne, definitivamente, uma pausa para a responsabilização. Quem dera em um futuro próximo a gente possa divulgar números, assumir metas e revisar práticas, e que tudo isso seja menos sobre discurso e mais sobre compromisso mensurável. No dia em que eu não precisar mais escrever este artigo, talvez finalmente estejamos inovando de verdade.