Opinião WW

Excesso de produção, escassez de senso crítico

No meio de tanto estímulo, cresce a vontade silenciosa de desconexão

Inaiara Florêncio

Fundadora e CEO da Oju e sócia da Gana 23 de abril de 2026 - 10h01

(Crédito: Shutterstock)

(Crédito: Shutterstock)

A gente nunca produziu tanto. E, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão cansado de tudo que está produzindo. O ritmo e a quantidade de conteúdos aumentaram, mas paira no ar uma sensação de saturação.

Segundo o relatório “Digital 2024″, da DataReportal, as pessoas passam, em média, 2 horas e 23 minutos por dia nas redes sociais. No Brasil, esse número chega a 3 horas e 46 minutos por dia. É praticamente metade de um expediente.

Contudo, mais do que falar sobre o tempo, quero chamar atenção para o que esse tempo cronicamente online e com muitas abas abertas está produzindo na gente. Consumimos mais, publicamos mais, reagimos mais. Mas será que rola um questionamento sobre a qualidade disso tudo?

Um amigo criador me disse recentemente: “se eu não trabalhasse com isso, ficava só com umas 30 pessoas na minha rede”. Essa não é uma sensação isolada da vivência dele, é um sintoma.

Tá todo mundo meio cansado. Correndo demais. Tem um desgaste acontecendo, menos pelo volume, mais pela repetição. É tanta coisa passando no feed. Tudo mais ou menos igual. Tudo mais ou menos parecido. Tudo mesma trend. E o risco de quando tudo vira conteúdo, é que pouca coisa vira elaboração. Conteúdo com criatividade mesmo, sabe (Nesse contexto, precisa ser bem propositiva para burlar o algoritmo e furar a bolha do que aparece).

Esse cansaço começa a se organizar como comportamento. Cresce o interesse por desconexão. O JOMO (joy of missing out) aparece como resposta ao excesso. E, aos poucos, a ideia de estar em tudo perde valor.

No lugar, aparece outra busca: presença real, troca, pertencimento. Uma volta sutil ao off não como rejeição à tecnologia, mas como tentativa de reequilibrar o jogo.

Nunca se viu tantas academias cheias. Grupos virando comunidade. Gente reorganizando rotina, corpo, tempo. E esse movimento é para além da estética. Percebo uma reorganização mais profunda. Quase como se o digital acelerasse e o físico ajudasse a organizar.

No contexto de marcas, não estamos anunciando o apocalipse de que o digital morreu (longe disso, eu me formei profissionalmente nele), mas hoje só ele não sustenta conexão.

A lógica de volume, frequência e presença constante resolveu a distribuição. Mas não resolveu o vínculo. Para criar conexão hoje precisa de outras camadas, leitura mais profunda de contexto, de tempo, de entender quando aparecer ou não. E também pede construir relação fora do feed, porque a comunidade nasce de troca, de recorrência, de presença real. E isso começa a aparecer em quem está conseguindo sair da lógica de performance pura.  

Em um cenário onde todo mundo fala o tempo todo, o diferencial começa a ser outro. O mercado aprendeu a produzir. Agora, precisa aprender a escolher o que entra, o que não entra e, principalmente, o que merece atenção de verdade.

Em um ambiente de cansaço digital, só constância não garante relevância. O que constrói conexão é critério. E talvez seja isso que vai separar o que só passa do que realmente fica e conecta.