Opinião WW

Punir é dever da Justiça, mas combater é obrigação de todos

Saiba como a sua marca pode ajudar no enfrentamento à misoginia e à violência de gênero

Gilvana Viana

CEO e cofundadora da MugShot, Punks S/A e CasaBlack 13 de abril de 2026 - 9h16

(Crédito: Shutterstock)

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Com a explosão de casos de violência contra a mulher, feminicídio e misoginia, o Congresso Brasileiro tem sido obrigado a se mover em relação à criação de leis rigorosas para punir agressores, como a criação do Sistema Nacional de Enfrentamento da Violência contra Meninas e Mulheres, oriundo do Projeto de Lei Complementar (PLP) 41/26.

Entre as medidas tomadas recentemente, está a aprovação do programa “Antes que Aconteça”, que usa a inteligência artificial para monitorar agressores, prevenir crises e dar assistência às mulheres agredidas. Outro passo para proteger as vidas das mulheres avançou na Câmara e no Senado Federal foi a aprovação do projeto que obriga a polícia a determinar o uso de tornozeleira eletrônica para agressores de mulheres em casos de risco como forma de medida protetiva. Com isso, elas vão receber um alerta pelo celular ou relógio caso o agressor se aproxime, para terem mais tempo de se proteger.

Além disso, o plenário está analisando o projeto de lei que criminaliza a misoginia (ódio ou aversão às mulheres), e a inclui entre os crimes de preconceito ou discriminação previstos na Lei do Racismo, com penas que podem chegar a cinco anos de prisão.

Eu, particularmente, acredito que a violência contra a mulher é, antes de tudo, um problema estrutural que está enraizado na sociedade. Afinal, meninos não nascem odiando mulheres, eles são ensinados. O fato desses crimes dispararem nos últimos anos tem uma explicação clara: homens são incentivados o tempo todo a odiar as mulheres.

Uma pesquisa da NetLab UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil) realizada em 2024 mostrou que havia 137 canais no YouTube, com cerca de 19 mil inscritos, veiculando conteúdos com discurso de ódio, desprezo, aversão ou controle sobre as mulheres. Atualmente, esses mesmos canais somam 23 milhões de inscritos, um aumento de 18,55% em apenas um ano e meio.

O dever de punir, prender e julgar é da Justiça, mas, se o mercado quiser contribuir de forma consistente na luta contra a violência contra as mulheres, é preciso usar a sua potência para ampliar a conversa e convocar os homens para a mudança. Afinal, são eles quem praticam a violência de gênero e precisam ser reeducados.

Trazer os homens para a conversa pode ser um passo nesta mudança

Esses dias me deparei pensando em como podemos combater a masculinidade tóxica e sobre qual é o papel das empresas e do mercado de trabalho no enfrentamento dessa realidade. Que tal ampliar modelos mais saudáveis e humanos nas relações interpessoais no ambiente de trabalho. Você já parou para pensar sobre isso?

Quando falamos em combater a masculinidade tóxica, precisamos que os homens sejam os principais responsáveis por assumirem esse papel, seja por meio da implementação de rodas de conversa para conscientizá-los sobre os diferentes tipos de violências contra as mulheres ou combatendo falas misóginas deles sobre colegas de trabalho mulheres, por mais que pareçam “brincadeira”.

Colaboradores homens conscientes sobre a importância de combater a violência doméstica e sobre as gravidades das leis para esse tipo de crime serão vozes para pulverizar a mensagem e conscientizar aquele parente, amigo, colega de bairro que pode estar envolvido nessas práticas e precisa saber: estamos de olho e vamos te denunciar. Precisamos trazê-los para o centro dessa conversa.

Já para as mulheres, podemos criar ações e um espaço de acolhimento a fim de ajudá-las a identificar situações de violência que não podem ser normalizadas. Muitas acreditam que não conseguem superar as relações abusivas sozinhas ou ficam limitadas financeiramente, por isso, é fundamental saberem que estarão amparadas durante o processo. Neste sentido, acho muito importante um apoio financeiro da empresa, como uma ajuda de custo para o aluguel, a fim de incentivá-las a saírem do ambiente tóxico até que tenham condições psicológicas e financeiras de se organizarem para seguir a vida.

Trabalhar na área de comunicação, publicidade e marketing é ter o poder de influenciar narrativas, moldar imaginários e ajudar a definir comportamentos que serão normalizados ou questionados na sociedade. Por que então não usamos esse conhecimento para ir além do discurso e mobilizar ações concretas dentro das empresas?

Encerro esse artigo com um convite: vamos juntos ampliar essa conversa para transformar a nossa sociedade?