Opinião WW

No abraço do Brasil, o Japão

É momento de transformar uma familiaridade histórica e cultural em relações audiovisuais estratégicas

Yana Chang

Sócia da South e co-fundadora da Brasil-Asia Film Association 18 de maio de 2026 - 12h20

(Crédito: Unsplash)

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O cenário global do audiovisual tem passado por transformações profundas nos últimos anos. A hegemonia hollywoodiana, antes incontestável, aos poucos abre espaço para produções de diferentes países, que ampliam sua circulação e relevância global. Nesse contexto, o Japão, país de honra do Marché du Film 2026, ambiente de mercado do Festival de Cannes, surge como um exemplo particularmente relevante de equilíbrio entre indústria cinematográfica sólida, alto consumo doméstico, cinema de autor e de grandes franquias.

Poucas cinematografias conseguiram atravessar com tanta força diferentes gerações, formatos e mercados quanto a japonesa, que liga nomes históricos como Akira Kurosawa, Yasujirō Ozu e Kenji Mizoguchi a autores contemporâneos como Naomi Kawase, Ryusuke Hamaguchi e Hirokazu Kore-eda. Soma-se a isso a força de estúdios como Toho, Toei Company e Ghibli, e de universos narrativos reconhecidos por espectadores nos cinco continentes, como Godzilla, Pokémon, One Piece e Meu Amigo Totoro. 

Em 2025, entre os dez maiores mercados do mundo, foi a Ásia que liderou o crescimento de bilheteria. O Japão registrou 188,8 milhões de ingressos vendidos e 1,68 bilhão de euros em bilheteria (aproximadamente 10,5 bilhões de reais), com filmes nacionais respondendo por 76% da bilheteria doméstica. No mesmo ano, o país lançou 694 longas-metragens, o maior número da série recente acompanhada pelo European Audiovisual Observatory. 

Para comparação: em 2024, o Brasil vendeu 125 milhões de ingressos — volume próximo, mas com um market share nacional de apenas 11%. A maior diferença, contudo, não está no tamanho do público, mas na profundidade da indústria que o serve. É nesse sentido que o Japão se destaca: ali, o cinema opera como parte de um ecossistema cultural e industrial mais maduro, capaz de articular reconhecimento artístico, obras originais e desempenho comercial em larga escala.

Esse dinamismo interno começa a se projetar cada vez mais para fora. Nos últimos anos, iniciativas voltadas à coprodução internacional e à participação em mercados estrangeiros sinalizam um interesse crescente em construir parcerias e expandir a circulação de seus conteúdos, movimento que encontra terreno fértil também na popularidade do anime e no papel das plataformas de streaming como novos vetores de distribuição.

O Brasil, por sua vez, abriga a maior comunidade nipônica fora do Japão, um legado de imigração que atravessa mais de um século e se integra profundamente à identidade cultural brasileira. Essa presença, mais do que aproximar historicamente os dois países, também pode estimular o fortalecimento de relações no campo audiovisual.

Apesar disso, as cooperações oficiais entre Brasil e Japão ainda permanecem limitadas quando observadas sob a perspectiva industrial. Parte dessa distância decorre das especificidades dos dois mercados, que operam sob dinâmicas próprias, tanto regulatórias quanto culturais, exigindo um conhecimento aprofundado de suas formas de negociação, estruturas de financiamento e modelos de circulação.

Os dados recentes da Ancine revelam um contraste particularmente interessante. No panorama de coproduções internacionais brasileiras entre 2015 e 2024, a participação asiática ainda representa uma parcela bastante reduzida do total, com apenas seis ocorrências registradas no período. Ao mesmo tempo, o Japão aparece entre os países que mais realizaram filmagens estrangeiras no Brasil, ocupando a terceira posição entre 2014 e junho de 2025, mas essa presença não se converteu em um volume de coproduções estruturadas entre os dois países.

Esse descompasso ajuda a mapear um cenário de oportunidades ainda pouco exploradas. Embora existam instrumentos legais que permitam reconhecer coproduções entre Brasil e Japão, os dois países ainda não têm um acordo bilateral em vigor. Isso não impede a realização de obras conjuntas, mas faz com que esses projetos precisem seguir as regras gerais da Ancine aplicáveis a países sem tratado formal, o que reduz parte da flexibilidade que acordos bilaterais costumam proporcionar.

Nesse contexto, iniciativas como acordos bilaterais estruturados, programas de capacitação, presença contínua em mercados estratégicos e o fortalecimento de conexões institucionais podem representar caminhos concretos para avançar nessa cooperação. A discussão também dialoga com o movimento recente do Ministério da Cultura, que anunciou no Marché du Film a intenção de ampliar a internacionalização do audiovisual brasileiro na próxima década.

A questão, porém, não é apenas econômica. Um intercâmbio mais consistente entre os dois países pode ampliar a circulação de obras, estimular novas formas de colaboração criativa e aproximar narrativas capazes de dialogar com públicos locais e estrangeiros ao mesmo tempo. Relações mais profundas também contribuem para diversificar as perspectivas nas telas, fortalecer o desenvolvimento de propriedade intelectual e reduzir estereótipos culturais de ambos os lados.

O Japão não é apenas um ecossistema criativo, é também um parceiro estratégico para cooperação e expansão no audiovisual. Para o Brasil, aprofundar esse diálogo pode representar mais do que acesso a mercados, e inclui oportunidades concretas de intercâmbio técnico e criativo em um momento em que as dinâmicas da indústria se reconfiguram em todo o mundo.

Este parece ser, justamente, o momento mais adequado de buscar transformar uma familiaridade histórica e cultural em relações audiovisuais estratégicas, entre dois países que, no fundo, já estão conectados há muito tempo em um forte e fraterno abraço.